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Terça, 10 de novembro de 2009, 08h05

Justiça se faça a Anselmo Duarte

André Setaro
De Salvador (BA)


A conquista da cobiçada Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1962, por "O pagador de promessas", uma produção do paulista Oswaldo Massaini e direção de Anselmo Duarte, que, em sua filmografia, tinha apenas a comédia "Absolutamente certo", provocou uma imensa inveja entre os cinemanovistas cujas consequências perturbaram a trajetória do realizador para o resto de sua vida. Não se queria admitir que um diretor, que era um galã das chanchadas da Atlântica e dos filmes da Vera Cruz, e cineasta quase neófito, pudesse trazer para o Brasil a Palma de Ouro. Anselmo Duarte Bento (seu nome completo) veio a amargar os despeitos, mas, na última década, já provecto, viu recompensados os seus esforços com alguns prêmios vindos da classe cinematográfica, principalmente o conferido pela Academia Brasileira de Cinema.

Após um ano de complicações sérias - passou, em setembro último, um mês internado, quando se pensou estar terminal - sábado passado, de madrugada, Anselmo Duarte teve um repentino AVC (Acidente Vascular Cerebral), do qual não conseguiu escapar com vida. O realizador de "O pagador de promessas" tinha 89 anos de idade.

O pessoal do Cinema Novo não via em Anselmo Duarte um representante do cinema "revolucionário" que então estava a emergir no Brasil, considerando-o um cineasta "velho" no sentido de que formado na artesania, na carpintaria, dos estúdios da Vera Cruz (cujos filmes, segundo os cinemanovistas, eram elitistas e elaborados dentro de uma estética européia).

"O pagador de promessas", segundo conta a lenda, surgiu como campeão para um desempate. A concorrer com ele, Luis Buñuel ("O anjo exterminador"), Cacoyannis ("Electra, a vingadora"), Antonioni ("O eclipse"), Kurosawa, entre outros monstros sagrados. Verdade ou mentira, esta questão do empate, o fato é que "O pagador de promessas" ganhou o mundo e foi fartamente premiado em outros festivais internacionais.

Sobre ser um filme extremamente bem realizado, dotado de uma 'mise-en-scène' envolvente, ainda que com uma estética "veracruziana", "O pagador de promessas" a não ser pela pirraça cinemanovista, é um filme que honra o cinema brasileiro. Baseado em peça de Dias Gomes, conta a insistência de um tabaréu interiorano, Zé do Burro (Leonardo Villar), que sai de sua cidadezinha para pagar uma promessa a Santa Bárbara, que, segundo ele, curou o seu jumento. Quando chega à igreja, porém, o padre (Dionísio Azevedo), intransigente, não deixa que ele adentre o seu interior. Acompanhado de sua mulher (Glória Menezes), Zé do Burro insiste em ficar na imensa escadaria até que seja permitida a sua entrada. E se torna objeto de curiosidade entre a população. Promove um intenso movimento à sua volta, com a imprensa, os transeuntes, e os altos prelados eclesiásticos à procura de uma solução. No final, morto, o povo o carrega na cruz e arromba a porta da igreja, e, assim, o personagem, afinal, cumpre a palavra dada ("la parole donée" foi o titulo que o filme tomou na França).

Todo rodado em Salvador, a equipe técnica de "O pagador de promessas" conta com muitos profissionais da terra, principalmente no seu elenco: Milton Gaúcho tem o seu melhor papel no cinema na pele de um guarda civil, Geraldo D'El Rey, como Bonitão, conquistador barato, que seduz a mulher de Zé do Burro, é sempre um intérprete de destaque, Othon Bastos faz um repórter do Jornal da Bahia, Roberto Ferreira (Zé Coió) um cordelista, Walter da Silveira (um prelado), João Di Sordi, entre outros. E ainda tem a presença de Norma Bengell.

Glauber Rocha, em "Revisão crítica do cinema brasileiro", faz várias restrições ao filme, e chega a dizer que prefere o cineasta mais despojado de "Absolutamente certo". O texto de Glauber é revelador da mentalidade cinemanovista que condenou Anselmo Duarte à amargura.

A religião institucionalizada em contraste com a fé pura e ingênua. A igreja com seus dogmas, a intransigência dos seus mandatários, incapazes de compreender o povo e seus mistérios. A literatura dramática do baiano Dias Gomes encontra em Anselmo Duarte um executor exemplar na transferência de uma linguagem para outra. Os enquadramentos são estudados (vide o ângulo que mostra a cruz sendo levada com o personagem em cima dela), há uma dinâmica na montagem (de Carlos Coimbra), a partitura ajuda nos momentos dramáticos, e o resultado é excelente. E a iluminação a cargo do mestre Chick Fowle, que Anselmo trouxe da Vera Cruz. O Internet Movie Databasew (IMDb), o maior banco de dados sobre cinema do mundo, deu nota 8,8 ao filme com 446 votantes "logados" no site.

A indiferença (e a indiferença também é crime, Shakespeare, "Hamlet") atingiu o cineasta quando de seu retorno de Cannes. Mas, para provar que tinha talento, numa tentativa de abordar uma temática mais áspera e com um estilo apurado, talvez numa obra de parentesco "cinemanovista", realizou "Vereda da salvação", em 1964, baseado na peça de Jorge Andrade, com Raul Cortez, Lélia Abramo, Esther Mellinger, Margarida Cardoso, Stênio Garcia. O filme tem uma estrutura narrativa destituída de lugares comuns, construída através de longos planos-sequências, com a câmera (do celebrado Ricardo Aronovich) a girar em torno dos atores e, também, sem existir a tabelinha clássica do "campo e contracampo".

"Vereda da salvação" mostra como um líder de camponeses reage, quando da construção de uma imensa estrada que passa por suas terras, destruindo-as. Apesar de um fracasso de público e crítica, apresentado no Festival de Berlim, teve recepção calorosa e quase ganha o Urso de Ouro. É um filme que precisa, urgentemente, ser reavaliado para se fazer justiça a Anselmo Duarte.

Mas o tombo foi enorme após o fracasso "fabricado" de "Vereda da salvação" Anselmo passa 5 anos sem filmar até que encontra um roteiro de Lima Barreto e realiza "Quelé do Pajeú", superprodução (para os padrões brasileiros) e o primeiro filme feito no país na bitola de 70mm. Em seguida, e já na linha dos grandes espetáculos, em 1971, filma uma história de "O tempo e o vento", de Érico Veríssimo, "Um certo capitão Rodrigo". Em seguida, um "suspense", "O descarte", em 1973. O fôlego de Anselmo parece terminado. "O crime do Zé Bigorna" e "Os trombadinhas" (este, seu último filme, em 1979) não mais apresentam o diretor de "O pagador de promessas".

Gosto imensamente de "Absolutamente certo", comédia de costumes, que foi chamada de chanchada, mas é um registro poético e romântico da vida em São Paulo nos dourados anos 50.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

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