Atualizada às 15h13 Christopher Hitchens
Do The New York Times
Lênin definiu uma revolução revolucionária como aquela que ocorre quando os governantes não conseguem prosseguir da forma tradicional e os governados não querem continuar da velha forma. Friedrich Engels foi mais metafórico, dizendo que a revolução era a parteira que trazia à vida uma nova forma, saída de um corpo velho. Ambas as imagens vêm à mente quando nos lembramos das revoluções de 1989, que deram uma lição de humildade ao sistema de poder que acreditava estar baseado na sabedoria histórica de Lênin e, também, de Engels.
Na verdade, as lideranças comunistas do Leste Europeu cessaram quase completamente de acreditar em qualquer coisa que não fosse sua própria sobrevivência e seus próprios interesses, um dos motivos pelos quais seu fracasso foi tão rápido. Enquanto a revolução não era animada por nenhuma "grande" ideia, como foi o caso em 1789, 1848 ou até mesmo em 1917, os intelectuais e as massas concordaram que desejavam o tedioso objetivo da "normalidade" - uma vida não diferente daquela da Europa Ocidental, onde era possível expressar críticas, votar, escrutinar uma imprensa livre e ser tanto consumidor quanto produtor.
Essas demandas tediosas eram, contudo, revolucionárias à sua maneira, o que dá a ideia de um completo fracasso e da falência dos regimes que não conseguiram satisfazê-las. Em 1988, em um debate público com um rigoroso oficial do Partido Comunistas Polonês, Lech Walesa, então líder do movimento político Solidariedade da Polônia, obteve o apoio da audiência com sua simples declaração de que a "Europa se move de carro, enquanto estamos tentando alcançá-los de bicicleta" (este vislumbre aparece no novo livro de Elzbieta Matynia, Performative democracy, que oferece um relato de primeira mão e de alta qualidade sobre a lenta, mas inexorável transformação da Polônia).
Este 20° aniversário ainda é acompanhado por outra safra de artigos chatos sobre como tantas pessoas, especialmente na antiga Alemanha Oriental, sentem-se "nostálgicas" em relação à segurança do antigo sistema stalinista. Essa besteira sentimental - que tem uma boa manifestação naquele irritante filme alemão, Adeus Lênin! - não sobreviveria por muito tempo a uma leitura de outro livro recentemente lançado, Revolução 1989: a queda do império soviético, de Victor Sebestyen.
Fazendo uso eficaz de arquivos abertos desde o colapso do Muro de Berlim, Sebestyen descreve o dia, no final de outubro de 1989, em que o chefe do Departamento de Planejamento Estatal da República Democrática Alemã, Gerhard Schurer, apresentou à liderança do partido as notícias econômicas, sem rodeios: "Quase 60% de toda a base econômica da Alemanha Oriental poderia ser considerada sucata, e a produtividade em minas e em fábricas está quase 50% atrás daquela do Ocidente".
Ainda mais estarrecedor foi o aumento de 12 vezes na dívida nacional de Recibos de Depósitos Globais - uma situação tão grotesca que foi classificada como segredo de estado, para que os empréstimos de credores ocidentais não cessassem. "Apenas para evitar um endividamento ainda maior", escreveu Schurer, "isso significaria um rebaixamento dos padrões de vida no ano seguinte de 25 a 30%, e tornaria os Recibos de Depósitos Globais ingovernáveis". Assim, o muro foi derrubado um pouco antes da implosão do estado hermético que o cercava. Duvido que exista muita "nostalgia" em relação a isso.
O livro de Sebestyen mostra como isso tudo, no final das contas, se tornou uma questão de verificar os fatos diretamente. O líder soviético Mikhail Gorbachev e o Ministro de Relações Exteriores Eduard Shevardnadze parecem ter resolvido fazer isso após o desastre do reator de Chernobyl e da campanha oficial mentirosa que o sucedeu. A partir de então, eles aceitaram uma coisa após a outra: a derrota inevitável do Afeganistão e a insustentabilidade da aliança pelo Pacto de Varsóvia.
Era apenas uma questão de tempo até que um governo satélite tomasse a deixa. O momento decisivo veio quando as autoridades húngaras decidiram abrir sua fronteira com a Áustria, permitindo que "turistas" da Alemanha Oriental dessem início a um êxodo rumo ao Ocidente (anteriormente, eles haviam perguntado a Shevardnadze qual era sua reação a este fato e ouviram que, em relação à União Soviética, isso era assunto deles. Esse foi o fim).
Teremos algo trivial esta semana, espero, sobre como Ronald Reagan e sua leal Margaret Thatcher derrubaram o muro com seu anticomunismo intransigente. Os arquivos que foram abertos mais recentemente não são tão amáveis para com essa visão, contudo. Em setembro de 1989, a Dama de Ferro visitou Moscou e passou um sermão em Gorbachev contra a reunificação da Alemanha. Isso "minaria a estabilidade de toda a situação internacional e poderia colocar em perigo nossa segurança", ela afirmou. Ela manteve essa visão mesmo depois que o povo de Berlim tomou a História em suas próprias mãos e demoliu a barreira.
Também subestimado na maior parte das histórias e em muitos comentários foi o papel desempenhado pelos movimentos de "poder popular" em países que não eram comunistas. Durante toda a década de 1980, insurgências democráticas nas Filipinas e na Coréia do Sul, assim como a longa resistência das forças antiapartheid na África do Sul, demonstraram que quando os governados não querem continuar a viver da forma antiga, tudo o que eles realmente precisam fazer é cruzar seus braços. Esses exemplos foram estudados por trás da Cortina de Ferro: o livro de Matynia sobre a Polônia traça um caso de comparação direta com a África do Sul. Além disso, o principal dissidente polonês, Adam Michnik, foi um observador íntimo da forma gradual, mas impressionante, por meio da qual a Espanha evoluiu de um tipo de teocracia fascista para uma sociedade civil e secular.
Hoje, a memória da "Revolução de Veludo" ou a "revolução gentil" é muito forte no Irã, onde intelectuais e ativistas presos são acusados de tantas coisas pela polícia secreta, como ter uma agenda "de veludo". Em Teerã, ainda existem muitas lideranças clericais que acreditam, como os comunistas não mais acreditam, em sua própria ideologia primitiva e opressiva, e que estão dispostas - se não estiverem, na verdade, ávidas - para matar por isso (e os brutais mulás iranianos garantiram o primeiro grande endosso de sua eleição fraudulenta de Vladimir Putin, em Moscou, que, hoje, é a sede de um regime agressivo, machista, militarista e influenciado pelo clérigo).
Assim, ainda temos nossas obrigações de solidariedade em relação aos movimentos de transformação, e podemos relembrar uma época em que povos civilizados, por tanto tempo forçados a se calarem, respiraram ao mesmo tempo e dispensaram a antiga ordem, sem que um único tiro fosse disparado.