Terra Magazine

 

Quinta, 12 de novembro de 2009, 15h27 Atualizada às 18h14

Inpe: Chances de raio provocar apagão é uma em um trilhão

Eliano Jorge

As informações técnicas estavam prontas, disponíveis e ainda preservadas do público. Mas, apesar de contradizer o relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um órgão público, o Ministério de Minas e Energia as descartou, decidindo repisar que "condições climáticas adversas" causaram o apagão desta terça-feira em 18 Estados brasileiros e no Paraguai.

Diante do impasse, um dos maiores especialistas do País em raios, Osmar Pinto Júnior, insiste nas conclusões da equipe que coordena no Grupo de Eletricidade Atmosférica, do Inpe. Para descargas atmosféricas terem comprometido três linhas transmissoras, "a probabilidade é zero, não há chance". Como desse uma esmola estatística, faz uma concessão simbólica, em seguida: "as chances talvez sejam de uma em um trilhão".

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Ele compõe a Rede Integrada Nacional de Detecção de Descargas Atmosféricas, que transmite informes metereológicos à própria Furnas, administradora da Usina de Itaipu. Mas o ministério e os órgãos do setor ensaiaram o discurso, numa reunião na tarde desta quarta-feira, sustentando a versão de raro acidente natural.

Em entrevista a Terra Magazine, Osmar Pinto Júnior explica por que descarta a interferência atmosférica no apagão. "Tudo indica que foi um problema elétrico", infere. Porém, elogia o sistema elétrico brasileiro: "Todo sistema do mundo está sujeito a falhas. O que aconteceu não é crise, não é falta de competência. É um acidente que acontece. Qualquer sistema está sujeito a um acidente. Temos que investigar o motivo para tentar evitar que se repita".

Cedo ou tarde, ele acredita, o governo admitirá que a causa do blecaute não se deve a interferências climáticas. "Existem aspectos que não são só técnicos, existem aspectos políticos aí e que podem gerar algum desgaste. Então, a tendência é deixar o tempo passar um pouco, esquecer", analisa o caso para assegurar: "A verdade acabará vindo à tona".

Confira a entrevista.

Terra Magazine - O INPE concluiu que são mínimas as chances de o apagão ter sido causado por raio. Em números, de quanto são essas chances?
Osmar Pinto Júnior - São quatro as linhas que saem de Itaipu em direção a São Paulo. Para três linhas, a probabilidade é zero, não há chance. Para uma das linhas, a probabilidade é mínima, significa menor que 1%. Não dá pra quantificar, 0,1 ou 0,8%. Hoje de manhã, com a declaração de que três linhas tiveram curto-circuito simultaneamente, pelo diretor do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), convenhamos, as chances talvez sejam de uma em um trilhão.


Gráfico do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe mostra, em vermelho, "descargas atmosféricas detectadas na região de Itaberá terça-feira, entre 22h05 e 22h20. As descargas mais próximas estavam a cerca de 30 km da subestação, 10km da linha de 750kV e 2km da linha de 600kV (não exibida na figura)".

O senhor acredita que a combinação de raios, chuva e vento forte não tenha provocado o blecaute?
Não, não acredito. Temos informações de que o vento não causou a queda de nenhuma torre, e os órgãos metereológicos chegaram à conclusão de que os ventos não ultrapassaram 80 quilômetros por hora na região. Chuva, também não. Não tem nada de anormal nas condições atmosféricas naquele momento. Uma tempestade, tinha raios, mas nada fora da normalidade que justificaria, num sistema de transmissão tão seguro e com manutenção tão bem feita por Furnas. Tudo indica que foi um problema elétrico. Todo sistema do mundo está sujeito a falhas. Ter uma falha não significa nada, não significa que não está bem. Pelo contrário, a Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel, desde 2000, tem feito um programa fantástico em pesquisas, exemplar. O sistema elétrico brasileiro é, disparado, na América do Sul, o mais desenvolvido. O que aconteceu não é crise, não é problema, não é falta de competência, não é nada. É um acidente que acontece como acontece com qualquer coisa no mundo. Qualquer sistema está sujeito a um acidente. O que temos que fazer é investigar o motivo para tentar evitar que se repita.

O governo apresentou supostas marcas de raios em torres de transmissão. O senhor viu?
Não vi não. Não sei, pode ser que tenham investigado se existem estas marcas, de quando são, podem estar lá há muito tempo. Vamos aguardar a continuidade disso, pode ser que as coisas não apareçam de uma forma rápida, porque é um sistema complexo e exige uma avaliação de muitas coisas.

Mas, de qualquer forma, existe uma proteção antirraio no sistema energético brasileiro, não?
Claro. As linhas de Furnas, de Itaipu, têm um cabo para-raio que por cima das fases exatamente para, quando as cargas venham eventualmente atingir as linhas, atinjam o cabo para-raio, o cabo-guarda, e aí escoa para a terra a corrente de raio e não causa problema. Existem raios muito fortes que são capazes de provocar um deslizamento, não há dúvida. Mas, naquele momento, naquele dia, lá naquele local, não havia nenhum raio intenso, capaz de criar um problema nas linhas. Só havia, perto das linhas, alguns raios fracos, que, mesmo caindo nas linhas, não teriam causado nenhum dano. Então, esta hipótese está descartada.

Em 1999, um apagão também foi atribuído a um raio e o senhor o desmentiu?
No dia seguinte, o ministro falou que foi raio, saiu no mundo inteiro. Dois meses depois, nós dissemos que não foi. Posteriormente, o Operador Nacional concordou conosco e enviou uma nota, dizendo que não foi raio. Em 2007, me parece em janeiro, tivemos dois apagões no mesmo mês, atingindo o Rio e, no outro, atingindo o Rio e o Espírito Santo. Nos dois deslizamentos, que aconteceram num intervalo de 20, 30 dias, avaliamos que foram devido a raios. E foi comprovado. Então, acontece deslizamento devido a raio, sem dúvida. Mas, neste caso específico (desta semana), a chance é mínima - e, a partir desta informação do diretor do ONS, a chance se tornou zero.

O senhor acha que, a exemplo do que aconteceu em 1999, o governo também vai admitir que não foi raio, como da outra vez?
Eu acredito que sim, mas eu acredito que isso possa demorar um pouco.

Tem que sair do noticiário, tem que abafar um pouco o caso?
É. Existem aspectos que não são só técnicos, existem aspectos políticos aí e que podem gerar algum desgaste. Então, a tendência é deixar o tempo passar um pouco, esquecer. Também não me surpreenderia - porque o Brasil está evoluindo a cada ano que passa como país - que o governo ainda hoje reconheça isso, confio no Brasil. Não acho que seja provável que aconteça.

Seria uma prova de maturidade isso (admitir)?
Somos uma nação jovem, comparada com o Primeiro Mundo. Precisa evoluir. As pessoas precisam evoluir, amadurecer. Mas acho que estamos indo no caminho certo, o setor elétrico está no caminho certo. E tenho esperança que, com poucas chances, mas tomara, já nos próximos dias eles reconheçam alguma coisa. Vão esperar um pouco, mas, daqui a alguns meses, a verdade acabará vindo à tona.

 

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