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Sexta, 13 de novembro de 2009, 14h07 Atualizada às 16h49

Levar meta para COP-15 não é o bastante, diz diretor do Inpe

Marcela Rocha

Nesta sexta-feira, 13, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, se reúne com o presidente Lula para bater o martelo sobre a meta de redução da emissão de poluentes a ser levada pelo Brasil à Copenhague, na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em dezembro. O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Gilberto Câmara, questiona: "o governo pode anunciar os 40% de redução. Ele vai conseguir cumprir?".

E ele mesmo responde. Câmara se diz "otimista" e acredita que os números apresentados pelo governo, de redução do desmatamento na Amazônia, dão "mais confiança de que o Brasil consiga cumprir suas metas de redução de CO2". Entre 2008 e 2009, os números foram os mais baixos desde que o Inpe começou a monitorar a região em 1988.

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Entre agosto de 2008 e julho de 2009 foram desmatados 7.008 km2 de floresta, de acordo com os dados do projeto de monitoramento por satélite do Inpe (Prodes). Isso significa uma redução de 45% com relação ao período anterior - agosto de 2007 a julho de 2008 -, quando o desmatamento atingiu 12.900 km².

Para o diretor do Instituto, Copenhague é parte de um "projeto nacional"; e "metas ousadas" colocariam o Brasil, entre os países em desenvolvimento, "notabilizado por quer crescer preservando o meio ambiente e isso é um valor incomensurável".

- No governo FHC, foi a época das privatizações, e, agora, podemos ficar marcados com um projeto de desenvolvimento sustentável. Não foi uma coisa que começou com Lula, mas que ele foi absorvendo. (...) Tem como dar ao Brasil uma cara. E, independentemente do governante que entrar, ele possa se identificar e respeitar, enquanto um valor.

Leia abaixo a entrevista:

Terra Magazine - Para o senhor, qual seria a meta ideal de proposta de redução de emissão?
Gilberto Câmara -
O governo já anunciou que quer reduzir o desmatamento da Amazônia em 80%, comparado à década anterior (1996-2006), que obteve um desmatamento de 19,5 mil km². O desmatamento reduzido dá confiança à sociedade de que é possível, realmente, cumprir essa meta de redução de emissão de CO2. Conseguimos chegar em mais da metade do que precisávamos. Isso indica que é possível reduzir ainda mais. Nossas ações de combate aos gases nos deixam em uma posição de poder anunciar esta redução. Precisamos ter confiança nacional e internacional de que isso será possível, não adianta só falar, o importante é cumprir. A nossa preocupação não é só falar que defendemos a Amazônia, mas cumprir isto. Acredito que o anúncio de ontem deu muita confiança de que o governo conseguirá cumprir suas metas.

Com que olhos o senhor avalia a proposta do Ministro Carlos Minc de 40% de redução de CO2 até 2020?
Essa proposta do ministro abrange um corte de desmatamento de 20% na Amazônia. O problema é que os outros 20% exigem outras práticas. Basicamente, a redução no cerrado pede mudanças de práticas na agricultura e na própria matriz energética - reduzir termoelétricas e aumentar hidrelétricas. Ao contrário da Amazônia, no cerrado não houve um esforço nacional de criação de consenso. O assunto vem sendo discutido por vários grupos até que se tornará uma unanimidade nacional. No caso do cerrado, é preciso saber como isso se compatibiliza com a agricultura deste local. No caso da energia hidrelétrica, te digo que é mais fácil ter uma termoelétrica do que hidrelétrica, mas num longo prazo, as conseqüências são diferentes. É preciso garantir que Belo Monte e outros tenham licenciamento. O governo pode anunciar os 40% de redução. Ele vai conseguir cumprir? Essa é a primeira dúvida. Podemos chegar em Copenhague com 40% ou com 20%. Há quem defenda que não precisamos chegar com nada. Acredito que essa posição é minoritária.

O que acha de as metas do Brasil para a conferência do clima serem apenas voluntárias? Corremos o risco de ficar de novo naquele discurso de boas intenções, mas sem muito comprometimento?
Olha, isto é uma preocupação, mas não é algo que possamos questionar. Preocupados temos que ficar, mas podemos confiar, e confiança faz bem. Sou muito otimista. Acredito que podemos levar uma meta a Copenhague e que essa meta seja cumprida. Depois do anúncio de ontem, o governo provou que podemos confiar.

O senhor estima um valor "ideal" para ser levado como proposta?
Eu não sou negociador, e essas são tarefas muito difíceis, porque, enquanto anunciamos nossas reduções, nos EUA, isso não foi discutido no Senado, que está rachado. Isto não passa nem no Senado deles! A gente passou isso, eles não. Os EUA não sabem se conseguem passar uma lei, porque metade do Senado acredita que não existe mudança climática. Até agora, os países desenvolvidos se comprometeram a fazer apenas metade daquilo que os cientistas recomendam para evitar uma catástrofe. Considerando esse compromisso, somente uma redução do desmatamento da Amazônia poderia ser 20% da redução anunciada pelos países desenvolvidos. O Brasil é um país em desenvolvimento, não tem o mesmo nível de consumo de energia, mesmo assim, o Brasil sozinho está fazendo um esforço considerando também o compromisso dos outros países.

Politicamente, o que significa para o Brasil apresentar uma proposta ousada de redução, tendo em vista que não lhe é cobrada essa postura?
Acho que isso é a construção de um projeto nacional. O Brasil estará mostrando para o mundo que é um país que quer se desenvolver promovendo isto de maneira sustentável, com preservação ambiental. Isto é super importante, nós teríamos no século 21, o lugar de potência mundial com uma estratégia de desenvolvimento. Entre os países em desenvolvimento, o Brasil pode se notabilizar como o país que quer crescer preservando o meio ambiente e isso é um valor incomensurável. É uma construção de identidade nacional. Copenhaguen é parte de um projeto nacional. No governo FHC, foi a época das privatizações, e, agora, podemos ficar marcados com um projeto de desenvolvimento sustentável. Não foi uma coisa que começou com Lula, mas que ele foi absorvendo. Não é negativo, como foi o projeto do Collor, ou do FHC, mas tem como dar ao Brasil uma cara, que, independentemente do governante que entrar, ele possa se identificar e respeitar, enquanto um valor.

 
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O presidente do Inpe, Gilberto Câmara, divulga os dados sobre as taxas de redução do desmatamento na Amazônia

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