Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Marcelo Cunha

Sexta, 20 de novembro de 2009, 08h12 Atualizada às 08h31

Fora, Ahmadinejad

AFP
O presidente do Irã, Mahmmoud Ahmadinejad (no centro), que deve visitar o Congresso Nacional na próxima segunda-feira, 23
O presidente do Irã, Mahmmoud Ahmadinejad (no centro), que deve visitar o Congresso Nacional na próxima segunda-feira, 23

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Nesse Dia da Consciência, quem tem uma deve protestar contra a presença em nosso país do mais tenebroso representante de regime tenebroso, fora talvez o Kim Jong-il, que existe por aí e atende pelo suave nome de Ahmadinejad.

E os estimados milhares de leitores sabem, ou devem ter lido, o quanto eu aprecio o fato de o Brasil ter esse jeitão hospitaleiro. Gosto demais da nossa mistura, quanto mais, melhor, que todos venham participar dela, é o que eu acho. Quase todos, quero dizer. O Ahmadinejad, esse, seguramente, não.

Eu detesto o sujeito e tudo que ele representa, e não é nada pessoal. Detestei ter que aprender a soletrar o nome do sujeito para poder escrever essa coluna, não queria ter a menor noção de quem fosse, do que fosse, mas isso é impossível. Quando o mal bate à nossa porta, alguma coisa temos que fazer. Eu gostaria de fazer mais, e se ele vier a São Paulo vou considerar seriamente a hipótese de ir pra rua dizer algum desaforo, coisa que um rapaz educado por minha avó Jovita jamais faz, normalmente.

Mas o Ahmadinejad, ou o que ele representa, de normal, não têm nada.

Os livros a ler são o maravilhoso Entre os Fiéis, do Nobel V.S. Naipaul, que viaja aos quatro países criados para ser paraísos islâmicos, Paquistão, Irã, Malásia e Indonésia. Leiam o que ele descreve, chorem.

O outro é o belíssimo Meu Nome é Vermelho, do agora Nobel Orhan Pamuk, a melhor prova da impossibilidade da beleza sob o islã, e o doce e tristíssimo Persépolis, da Marjane Satrapi, a tragédia das mulheres que estavam e estão lá, vivendo como tiveram que passar a viver. Que vergonha, seu Ahmadinejad!

Eu compreendo e aprecio, na maior parte do tempo, a política do nosso Estado, que não é de um ou outro governo, mas do Estado brasileiro, de conviver pacificamente com nações e culturas do mundo inteiro. Tolerância tem a ver com a gente, com nossa origem portuguesa-indígena alimentada pela atitude africana diante do mundo, nosso senso de humor, nossa capacidade de adaptação. Esses são pontos a nosso favor.

Mas tolerância deve ser usada com cuidado e reciprocidade. Ser tolerante com o intolerante é promover a maldade que a intolerância inevitavelmente produz, em massa. Ser tolerante com o Ahmadinejad é legitimar um regime intolerável, e isso não deveríamos fazer, jamais.

Vocês sabem o que eles fazem com as mulheres naquele país? Você sabe que eles condenam adolescentes à morte, mesmo que esperem que eles completem dezoito anos pra cumprir a barbárie? Você sabe como eles matam mulheres acusadas de adultério? Eu preferia não ter visto nada do terrível "O Apedrejamento de Soraya M.". Será que o nosso governo viu?

O Ahmadinejad, como se fosse pouco, nega o Holocausto, como se isso fosse possível. Ele quer o fim de Israel, ou seja, prega a extinção de todo um povo, quer a bomba e diz que no Irã não há homossexuais, o que mostra que ele, além de cruel e bárbaro, não entende nada do país onde vive. Ele também deve acreditar que ninguém bebe, no paraíso islâmico deles, que ninguém transa antes, durante ou depois do casamento, que ninguém ouve rock, que ninguém vive uma vida, apesar dele. Gente como o Ahmadinejad, vive em Marte, mas reprime, prende, mata quem insiste em construir um mundo melhor aqui mesmo.

Pois o representante desse regime vem agora ao Brasil, vai ser recebido pelo nosso governo e tirar fotos sorrindo, aqui, no nosso solo, no nosso país, onde tanto lutamos para fazer dele um lugar de mais liberdade e democracia para todos.

Não podemos receber aqui os Mugabe, os Ghadaffi, os Kim Jong-il desse mundo, que os tem e os terá. Podemos dialogar diplomaticamente porque existem e não vão sumir simplesmente porque o universo ficaria tão melhor sem eles. Mas receber aqui, tratar com hospitalidade, ser legal e dar um cafezinho e uma camisa do Timão, isso nunca.

Ahmadinejad foi eleito numa eleição que vou te contar, fala coisas terríveis e representa um regime que parece de mentira. Melhor seria se jamais colocasse os pés aqui, e vou torcer pra que ele ainda mude de idéia, como mudou da outra vez em que vinha.

Se vier, vai ser um mau momento para o nosso país, uma triste série de dias para todos nós, muito em especial as mulheres. Se elas pensarem em como vivem as suas irmãs iranianas, vão sentir que ninguém é livre enquanto muitos são escravos. E lá, elas são.

Para encerrar essa coluna tão leve, vejam o encantador O Espelho, do diretor Jafar Panahi. Para fazer uma tremenda crítica ao regime e não ser apanhado por ele, porque regimes como esses são sempre brutais e sempre burros, ele coloca uma menininha de sete anos a comprar uma passagem em um enorme ônibus láaaaaa na frente, e depois ela tem que correr atéeeeeee a porta lá atrás para finalmente entrar no ônibus, no local das mulheres. Dizer tudo, sem dizer nada, é uma arte levada ao extremo por quem não pode falar. Por nossos irmãos no Irã, que podem tão pouco, digamos nós, que podemos, em alto e bom tom, Fora Ahmadinejad!

E assim, logo, logo, ele se vai, o que não resolve, mas é um começo.

A todos, um bom dia de hoje.

***

E, como a vida segue, semana que vem esse que vos escreve estará em Brasília, dia 26, na Feira do Livro e, na mesma noite, em BH, na UFMG, falando de literatura contemporânea, essa incompreensível. Aos leitores de lá, até.

E, mais uma vez, e apenas porque a sensação é ótima, Fora Ahmadinejad!!


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

Exibir mapa ampliado

O que Marcelo Carneiro da Cunha vê na Web

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol