Atualizada às 18h51 Eliano Jorge
Entre tantas conquistas lembradas no Dia da Consciência Negra, não passa despercebido o recorde de países da África Subsaariana, a chamada África Negra, na próxima Copa do Mundo, em 2010.
O primeiro Campeonato Mundial de futebol no continente africano terá cinco seleções desta região, que vai do Deserto do Saara até o país-anfitrião do evento, a África do Sul. Além dos donos da casa, classificaram-se Gana, Costa do Marfim, Camarões e Nigéria.
O outro representante do continente será o único da porção árabe, a Argélia. Tunísia e Marrocos, que tiveram participações recentes, não obtiveram vagas. O bicampeão africano Egito, também não.
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"Antigamente, ao se falar de Copa do Mundo, era a África do Norte que participava. Camarões começou a participar, depois a Nigéria. Hoje a África Árabe, a África Branca, não está conseguindo ocupar vagas, a África Negra está dominando o futebol. Entre os países africanos no ranking mundial, a maioria é da África Negra. Isto é um sinal bem forte, bem interessante", comemora o marfinense Badou Koffi Robert, pós-graduando em Letras na Universidade de São Paulo (USP) e membro do Fórum da África, que promove o continente no Brasil.
A África Subsaariana é justamente a parcela mais identificada com a imagem internacional do continente e todos os seus estereótipos. Na Copa do Mundo, vem ampliando sua representatividade. Desde 2002, jogam pelo menos quatro equipes desta região, aproveitando o aumento do número de vagas para o continente.
Sempre que houve mais de um time africano no Mundial, lá esteve um país do norte da África. Apenas em 1974, o continente foi representado e não havia uma seleção árabe:
1934: Egito*
1970: Marrocos*
1974: Zaire
1978: Tunísia*
1982: Camarões e Argélia*
1986: Marrocos e Argélia*
1990: Camarões e Egito*
1994: Nigéria, Camarões e Marrocos*
1998: Nigéria, Camarões, Marrocos*, Tunísia* e África do Sul
2002: Senegal, Nigéria, Camarões, Tunísia* e África do Sul
2006: Gana, Togo, Angola, Costa do Marfim e Tunísia*
2010: Gana, Costa do Marfim, África do Sul, Camarões, Nigéria e Argélia*
*Seleções do norte africano

Festa, em 1994, de Camarões, que agora se classificou para sua sexta Copa (foto Getty Images)
A presença majoritária dos subsaarianos agradou ao treinador Antônio Dumas, que já comandou os selecionados do Gabão, do Togo e da Guiné Equatorial e, em fevereiro, inicia um trabalho para trazer Guiné-Bissau à Copa de 2014, no Brasil. "Gostei de ver isso. Acho que a África Negra tem técnica superior à da África dos árabes. O que estava faltando para a África Negra era estrutura, que os países do Norte têm mais", analisa.
"Isso é devido ao desenvolvimento, em geral, do futebol africano. Hoje, os maiores clubes da Europa têm jogadores africanos, que cresceram bastante rapidamente, (foram) valorizados", opina o ex-goleador Richard Daddy Owubokiri, conhecido como Ricky nos tempos de seleção nigeriana, Vitória, América carioca, times de Portugal e do Oriente Médio.
"É o projeto da Fifa (Federação Internacional de Futebol), o Goal, que já vem agindo há uns dez anos nisso aí. Agora que começou a ter um pouco de resultados. Fez estádios e alguns campos para treinamento. Estão fazendo dez centros de formação para crianças em toda a África: na África do Sul, em Angola, na Namíbia...", atesta Dumas.
Crescimento
Neste ano, três competições oficiais da Fifa aconteceram no continente: a Copa das Confederações, na África do Sul; o Mundial sub-20, no Egito; e o Mundial Sub-17, na Nigéria.
"A primeira Copa na África é a ocasião de mostrar o ponto alto que sempre foi escondido. A imprensa internacional mostra a miséria, o safári... Essa Copa vai apresentar valores do continente. Vocês vão ver que o jeito de acolher e de se comportar é completamente diferente do que já vimos. É minha aposta. O Robinho falou isso, na Copa das Confederações", afirma Koffi.
"Na verdade, a África toda está preparando uma grande festa para o mundo, para demonstrar que os africanos também podem organizar com sucesso o evento. Certamente ajudará muito, fora do plano esportivo, economicamente e socialmente o continente, que precisa realmente, no século 21, de um crescimento sócio-econômico", torce Ricky, que virou empresário de jogadores.
Koffi não esconde sua empolgação: "A África, em geral - e a África Negra, sobretudo -, está numa fase de crescimento em todos os níveis. Durante muito tempo, tentaram atacar o que a África tem de melhor. O que se apresentava, no mundo inteiro, como (produto do) negro era os EUA na música, no basquete... Para nós, neste momento, é um grande orgulho que, além de ter grandes jogadores na Europa, o próprio continente está demonstrando outros valores, como capacidade de organizar uma Copa e de ir além de uma simples participação. A África está crescendo, se valorizando. Mas é o começo de muitas coisas, não só no futebol, em muitas áreas".
Alguns dos componentes africanos que mais entusiasmam o público internacional são a irreverência dos jogadores - incluindo as comemorações exóticas -, a simpatia de times azarões, o estilo de futebol ofensivo e alegre - embora cada vez mais tolhido pelo pragmatismo dos treinadores europeus - e a festa das torcidas.
"Existem muitos tipos de trombetas, as torcidas (africanas) fazem muito barulho, a vontade de vencer dos jogadores triplica. As próprias federações têm grupos de animação, tipo um coral de torcedores para apoiar o time, do começo ao fim do jogo, mesmo perdendo", conta Koffi.
Em campo
Em Mundiais, o máximo que as nações africanas conseguiram foi estar entre as oito melhores seleções: Camarões em 1990 e Senegal em 2002. Agora, em casa, suas chances se multiplicam.
"As grandes seleções africans estão lá. Podem fazer muita surpresa", avisa Ricky. "Esta Copa não vai ser brincadeira. Digo a meus colegas que é melhor o Brasil evitar equipes da África: Gana, Costa do Marfim e Camarões", graceja Koffi.
De fato, os brasileiros foram eliminados de duas Olimpíadas por africanos que acabaram campeões - Nigéria, em 1996, e Camarões, em 2000 -, além de derrotados pelos ganeses nos Mundiais sub-20 deste ano e sub-17 de 2007.
Dos seis países africanos da próxima Copa, quatro - Gana, Camarões, Nigéria e Costa do Marfim - se localizam no oeste da África, de onde vieram milhares de pessoas no período colonial e ajudaram a formar a população brasileira. Em 2006, estiveram ainda Togo e Angola, que também exportaram mão-de-obra para o Brasil.
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