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Sexta, 20 de novembro de 2009, 17h42 Atualizada às 18h51

África Negra comemora recorde de países na Copa de 2010

Eliano Jorge

Entre tantas conquistas lembradas no Dia da Consciência Negra, não passa despercebido o recorde de países da África Subsaariana, a chamada África Negra, na próxima Copa do Mundo, em 2010.

O primeiro Campeonato Mundial de futebol no continente africano terá cinco seleções desta região, que vai do Deserto do Saara até o país-anfitrião do evento, a África do Sul. Além dos donos da casa, classificaram-se Gana, Costa do Marfim, Camarões e Nigéria.

O outro representante do continente será o único da porção árabe, a Argélia. Tunísia e Marrocos, que tiveram participações recentes, não obtiveram vagas. O bicampeão africano Egito, também não.

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"Antigamente, ao se falar de Copa do Mundo, era a África do Norte que participava. Camarões começou a participar, depois a Nigéria. Hoje a África Árabe, a África Branca, não está conseguindo ocupar vagas, a África Negra está dominando o futebol. Entre os países africanos no ranking mundial, a maioria é da África Negra. Isto é um sinal bem forte, bem interessante", comemora o marfinense Badou Koffi Robert, pós-graduando em Letras na Universidade de São Paulo (USP) e membro do Fórum da África, que promove o continente no Brasil.

A África Subsaariana é justamente a parcela mais identificada com a imagem internacional do continente e todos os seus estereótipos. Na Copa do Mundo, vem ampliando sua representatividade. Desde 2002, jogam pelo menos quatro equipes desta região, aproveitando o aumento do número de vagas para o continente.

Sempre que houve mais de um time africano no Mundial, lá esteve um país do norte da África. Apenas em 1974, o continente foi representado e não havia uma seleção árabe:

1934: Egito*
1970: Marrocos*
1974: Zaire
1978: Tunísia*
1982: Camarões e Argélia*
1986: Marrocos e Argélia*
1990: Camarões e Egito*
1994: Nigéria, Camarões e Marrocos*
1998: Nigéria, Camarões, Marrocos*, Tunísia* e África do Sul
2002: Senegal, Nigéria, Camarões, Tunísia* e África do Sul
2006: Gana, Togo, Angola, Costa do Marfim e Tunísia*
2010: Gana, Costa do Marfim, África do Sul, Camarões, Nigéria e Argélia*
*Seleções do norte africano


Festa, em 1994, de Camarões, que agora se classificou para sua sexta Copa (foto Getty Images)

A presença majoritária dos subsaarianos agradou ao treinador Antônio Dumas, que já comandou os selecionados do Gabão, do Togo e da Guiné Equatorial e, em fevereiro, inicia um trabalho para trazer Guiné-Bissau à Copa de 2014, no Brasil. "Gostei de ver isso. Acho que a África Negra tem técnica superior à da África dos árabes. O que estava faltando para a África Negra era estrutura, que os países do Norte têm mais", analisa.

"Isso é devido ao desenvolvimento, em geral, do futebol africano. Hoje, os maiores clubes da Europa têm jogadores africanos, que cresceram bastante rapidamente, (foram) valorizados", opina o ex-goleador Richard Daddy Owubokiri, conhecido como Ricky nos tempos de seleção nigeriana, Vitória, América carioca, times de Portugal e do Oriente Médio.

"É o projeto da Fifa (Federação Internacional de Futebol), o Goal, que já vem agindo há uns dez anos nisso aí. Agora que começou a ter um pouco de resultados. Fez estádios e alguns campos para treinamento. Estão fazendo dez centros de formação para crianças em toda a África: na África do Sul, em Angola, na Namíbia...", atesta Dumas.

Crescimento

Neste ano, três competições oficiais da Fifa aconteceram no continente: a Copa das Confederações, na África do Sul; o Mundial sub-20, no Egito; e o Mundial Sub-17, na Nigéria.

"A primeira Copa na África é a ocasião de mostrar o ponto alto que sempre foi escondido. A imprensa internacional mostra a miséria, o safári... Essa Copa vai apresentar valores do continente. Vocês vão ver que o jeito de acolher e de se comportar é completamente diferente do que já vimos. É minha aposta. O Robinho falou isso, na Copa das Confederações", afirma Koffi.

"Na verdade, a África toda está preparando uma grande festa para o mundo, para demonstrar que os africanos também podem organizar com sucesso o evento. Certamente ajudará muito, fora do plano esportivo, economicamente e socialmente o continente, que precisa realmente, no século 21, de um crescimento sócio-econômico", torce Ricky, que virou empresário de jogadores.

Koffi não esconde sua empolgação: "A África, em geral - e a África Negra, sobretudo -, está numa fase de crescimento em todos os níveis. Durante muito tempo, tentaram atacar o que a África tem de melhor. O que se apresentava, no mundo inteiro, como (produto do) negro era os EUA na música, no basquete... Para nós, neste momento, é um grande orgulho que, além de ter grandes jogadores na Europa, o próprio continente está demonstrando outros valores, como capacidade de organizar uma Copa e de ir além de uma simples participação. A África está crescendo, se valorizando. Mas é o começo de muitas coisas, não só no futebol, em muitas áreas".

Alguns dos componentes africanos que mais entusiasmam o público internacional são a irreverência dos jogadores - incluindo as comemorações exóticas -, a simpatia de times azarões, o estilo de futebol ofensivo e alegre - embora cada vez mais tolhido pelo pragmatismo dos treinadores europeus - e a festa das torcidas.

"Existem muitos tipos de trombetas, as torcidas (africanas) fazem muito barulho, a vontade de vencer dos jogadores triplica. As próprias federações têm grupos de animação, tipo um coral de torcedores para apoiar o time, do começo ao fim do jogo, mesmo perdendo", conta Koffi.

Em campo

Em Mundiais, o máximo que as nações africanas conseguiram foi estar entre as oito melhores seleções: Camarões em 1990 e Senegal em 2002. Agora, em casa, suas chances se multiplicam.

"As grandes seleções africans estão lá. Podem fazer muita surpresa", avisa Ricky. "Esta Copa não vai ser brincadeira. Digo a meus colegas que é melhor o Brasil evitar equipes da África: Gana, Costa do Marfim e Camarões", graceja Koffi.

De fato, os brasileiros foram eliminados de duas Olimpíadas por africanos que acabaram campeões - Nigéria, em 1996, e Camarões, em 2000 -, além de derrotados pelos ganeses nos Mundiais sub-20 deste ano e sub-17 de 2007.

Dos seis países africanos da próxima Copa, quatro - Gana, Camarões, Nigéria e Costa do Marfim - se localizam no oeste da África, de onde vieram milhares de pessoas no período colonial e ajudaram a formar a população brasileira. Em 2006, estiveram ainda Togo e Angola, que também exportaram mão-de-obra para o Brasil.

 

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