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Terça, 24 de novembro de 2009, 15h09 Atualizada às 16h15

Masoquismo multicultural

Christopher Hitchens
Do The New York Times

É ao mesmo tempo divertido e educativo observar um consenso quando de repente ele começa a retroceder em todos os pontos sem ceder um centímetro. Algumas semanas atrás, a opinião consoladora era de que o Major Nidal Malik Hasan era um homem mais digno de pena do que de medo, um oficial maduro das forças armadas norte-americanas que estava muito abalado com as histórias de veteranos repatriados para conseguir agir adequadamente e um médico muito estressado para ter em mente que existia um tal de juramento hipocrático. Porque até mesmo o FBI tinha interpretado seus e-mails para Anwar al-Awlaki, o clérigo muçulmano radical, como "bem compatíveis com a pesquisa que estava sendo realizada pelo Major Hasan em seu cargo de psiquiatra no Centro Médico Walter Reed".

Essa última constatação não faz muito sentido diante da revelação de que o major estava buscando a orientação espiritual de Awlaki algum tempo antes de o Imã fazer uma declaração dizendo que balas descarregadas contra soldados americanos eram disparadas por uma causa sagrada. O Washington Post e a rede ABC News, que passaram muito à frente do consenso em suas reportagens, também trouxeram à luz e-mails de Hasan para o Imã em Iêmen, perguntando quando táticas jihad (de guerra santa) poderiam ser justificadas, quais eram as circunstâncias que autorizariam o assassinato de inocentes e manifestando a esperança de que o remetente do e-mail e seu correspondente um dia pudessem estar unidos no paraíso.

Como Awlaki estava no Iêmen, antes de mais nada, só porque ele tinha considerado os EUA um domicílio inconveniente (após ter tido contato direto com três dos 19 piratas do ar e assassinos em massa de 11 de setembro de 2001, ou "sequestradores de aviões de 11/09"; como são agora eufemisticamente chamados), aparentemente nós podemos nos congratular por pagar um FBI que não tem a mente horrível e desconfiada que tanto estraga o trabalho da polícia na "comunidade".

Muito bem, então. O argumento em favor de Hasan, o assistente social sobrecarregado, parece ter evaporado. Um membro importante da Fundação New America, Robert Wright, entre outros, é adulto o suficiente para admitir isso. Wright, que agora surge como o principal defensor liberal dos fiéis (veja seu novo e intrigante livro, "The Evolution of God"), agora propõe uma teoria alternativa para a ânsia de Hasan em cometer assassinatos em massa. "O massacre em Fort Hood", diz Wright, "é um exemplo de terrorismo islâmico que está sendo espalhado em parte pela guerra contra o terrorismo - ou, na verdade, por duas guerras contra o terrorismo, no Iraque e no Afeganistão". Eu sei que os jornalistas que escrevem no editorial do The New York Times não são necessariamente responsáveis pelas manchetes que aparecem sobre o seu artigo, mas o título deste - "Quem Criou o Major Hasan?" - realmente exige uma resposta, e a única a ser encontrada no texto que se segue é "Nós criamos".

Tudo em mim se revolta com esta conclusão, que é ecoada e sublinhada em outro parágrafo do artigo: Seis meses atrás, "um americano de 24 anos chamado Abdulhakim Mujahid Muhammad - Carlos Bledsoe antes de sua conversão na adolescência ao Islã - baleou fatalmente um soldado fora de uma estação de recrutamento em Little Rock, Arkansas. A rede ABC News noticiou: "Não se sabe que caminho Muhammad tinha seguido para a radicalização". Bem, aqui vai uma dica: Depois de ser preso, ele começou a falar confusamente à polícia sobre a matança de muçulmanos no Iraque e no Afeganistão". Wright descreve esta sua dedução baseada em pistas como uma ilustração da forma como "um incidente isolado pode colocar você em uma situação perigosa". Embora eu não consiga encontrar muita beleza na prosa dele, eu quero concordar com ele.

Para começar, Hasan ou Muhammad alguma vez disse que "matança" de quais "muçulmanos no Iraque e no Afeganistão" eles tinham em mente? Não há um dia sem o massacre brutal de muçulmanos em ambos os países pela al-Qaeda ou pelo Talibã. E isso não apenas porque a maioria dos civis nos dois países por acaso segue a fé islâmica (embora não todos).

Os terroristas não hesitam antes de explodir deliberadamente as mesquitas e as procissões religiosas daqueles cujas crenças muçulmanas eles consideram insuficientemente devotas. A maioria dos que agora estão sendo torturados, estuprados e executados pela República Islâmica do Irã é muçulmana. Todas as mulheres que estão sendo marcadas com ácido e ameaçadas de morte pelo crime de frequentar a escola no Paquistão são muçulmanas. Muitos dos mortos em Londres, Madri e Nova Iorque eram muçulmanos e quase todas as vítimas mortas friamente em atrocidades semelhantes em Istambul, Cairo, Casablanca e Argel no passado recente eram muçulmanos também.

É preciso um verdadeiro intelectual para examinar este quadro estarrecedor e para dizer, como faz Wright, que nós convidamos ataques contra os nossos soldados fora de serviço porque "a estratégia belicista da guerra contra o terrorismo - um anti-jihad global que cria imagens incessantes de americanos matando muçulmanos - é tão duvidosa". Duvidosa? A única coisa duvidosa aqui é o domínio dele da linguagem. Quando é que o Exército dos EUA fez o que os jihadistas fazem todos os dias: assassinar deliberadamente civis muçulmanos e vangloriar-se em vídeo sobre o fato? Que vergonha. A situação perigosa - na verdade, a situação vil - é esta na qual Wright está entrando.

É ele, que estou tomando como representante de uma mentalidade maior aqui, que usa um jargão igualmente inerte para sugerir que Hasan "perdeu o controle por causa de sua percepção das guerras no Iraque e no Afeganistão". Este é um uso agradável e sombrio da palavra "percepção". Não seria igualmente verdadeiro dizer que Hasan perdeu o controle fácil demais, já tendo indicado sua vontade devota de perder o controle, por um clérigo que ganha a vida justificando o assassinato de muçulmanos e não-muçulmanos da mesma forma?

Em muitos artigos recentes sobre esta controvérsia, vimos repórteres de jornais respeitáveis referindo-se não apenas a "muçulmanos" genéricos e uniformes, mas até mesmo aos lugares onde eles vivem como "terras muçulmanas". Se você não concordaria em ver o termo absurdo "cristandade" no seu jornal como uma descrição da Europa, muito menos em ler sobre a "terra dos judeus" na Cisjordânia, então, por favor, tenha a coragem de reclamar da próxima vez que uma teocracia violenta for inserida de maneira sub-reptícia no discurso sob o disfarce cada vez mais fraco de masoquismo multicultural.

Christopher Hitchens é jornalista, escritor e colunista de Vanity Fair e Slate Magazine. É autor do livro "Deus não é Grande: como a religião envenena tudo". Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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