Atualizada às 08h42 Érico Nogueira
De São Paulo
Desde que, no longínquo ano de 1999, comecei a estudar a língua latina, um dos primeiros poetas que quis ler foi Horácio -- assim que pudesse, evidentemente. As odes de Ricardo Reis, que eu amava (e amo) tanto; a fama de um poeta tecnicamente perfeito, autor de uma arte poética escrita em versos; a circunstância, enfim, de que nenhum dos poetas-críticos elencados em Altas literaturas, que Leyla Perrone-Moisés lançara naquela mesma época, citava o seu nome -- tudo isso deve ter aguçado a minha intuição, e transformou Horácio em ídolo e em meta.

Horácio não fez concessões à imperfeição, odiou o vulgar, diz Érico Nogueira
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Sobre esta última circunstância, aliás, sempre me perguntei por que Pound, Eliot, Borges e Paz, por exemplo, não incluíam Horácio no seu paideuma. Todos, bem ou mal, sabiam latim; todos, portanto, poderiam constatar in loco que a língua de Horácio, o metro, os ritmos, as imagens e a invenção eram mais complexos, mais diversificados, mais sutis e mais densos que os de Catulo, Propércio e Ovídio, poetas que em regra o têm substituído nas listas críticas e no gosto do público culto.
Nem mesmo Otto Maria Carpeaux chega a lhe fazer justiça: e na História da literatura ocidental, para espanto de muitos, Horácio aparece como um poeta menor. Qual será o motivo, então, de tamanha negligência? Senão vejamos.
Ora, a modernidade se caracteriza, segundo opinião que remonta a Kant, por uma radical tomada de consciência da própria autonomia em relação à tradição. Essa última deixa de ser um modelo válido de conduta, nos diversos domínios do saber. A modernidade, pois, em suma, não aceita nenhum padrão: ela os cria, a partir de demandas que lhe são específicas, sem acatar injunções extemporâneas.
Como sabemos, muitas academias e muitos autores usaram a autoridade de Horácio para 'legislar' em matéria poética. Basta lembrar os nomes de Pope e Boileau, representantes das duas mais influentes literaturas do Ocidente moderno, a inglesa e a francesa. De modo que, segundo me parece, confundindo o uso prescritivo e, pois, proibitório do nome de Horácio com a sua poesia, a modernidade que se libertava das injunções acadêmicas acabou por exilá-lo da sua pólis. Daí que, substituindo, uma vez mais, o critério poético pelo político, nosso tempo haja trocado a arte de Horácio -- a difícil, a severa arte de Horácio -- por poéticas mais diretas, mais simples, mais up to date.
"Odeio e fujo do vulgo profano". Ora, um poeta como Horácio, que não faz concessões à imperfeição, que odeia o vulgar, o direto, o fácil, não poderia fazer sucesso hoje em dia, em tempos de demagogia politicamente correta. Segundo o testemunho de Nietzsche:
"Nenhum poeta, até hoje, me proporcionou o mesmo encanto artístico que desde logo encontrei numa ode de Horácio. Em certo sentido, o que se realiza aqui não é coisa que se possa simplesmente desejar. Este mosaico de palavras, em que toda palavra como som, como lugar, como conceito irradia a sua força para a direita e para a esquerda e daí para o todo, este rol mínimo de signos que por isso mesmo alcança o máximo possível de energia -- tudo isto é romano e, a lhe dar algum crédito, aristocrático por excelência"
Enfim, leiamos a famosa ode 3, 30, a Melpômene, em esmeradíssima tradução de Haroldo de Campos (em: Crisantempo, Ed. Perspectiva, p. 186):
A MELPÔMENE
Mais perene que o bronze um monumento
ergui, mais alto e régio que as pirâmides:
nem o roer da chuva nem a fúria
de Áquilo o tocarão, tampouco o tempo
ou a série dos anos. Imortal
em grande parte, a morte só de um pouco
de mim se apossará. Que eu semprenovo,
acrescido em louvor, hei de crescer
enquanto ao Capitólio suba o Sumo
Sacerdote e a calada vestal. Aonde
violento Áufido espadana, aonde
depauperado de água o Dauno agrestes
povos regeu, de humilde a poderoso
dirão que eu passei: príncipe, o primeiro
em dar o eólio canto ao modo itálico.
Assume os altos méritos, Melpômene:
cinge-me a fronte do laurel de Apolo.