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Terça, 1 de dezembro de 2009, 13h08 Atualizada às 13h26

Um catálogo do curioso e bizarro

Umberto Eco
Do The New York Times

Em 1931, Mario Paz, conhecedor de livros antigos, observou que os bibliófilos costumavam ler os catálogos de livros raros da mesma forma que as pessoas assistem a filmes de suspense.

"Não tenha dúvidas de que não há literatura que gere uma mobilização tão imediata quando a leitura de um catálogo interessante", disse ele, complementando logo em seguida que até mesmo um catálogo desinteressante pode oferecer alguma satisfação.

Enquanto essa última categoria inclui apenas edições menos raras de Dante, pandectas latinas ou as obras de teólogos da contrarreforma, o que causa verdadeira emoção são os catálogos conhecidos entre os entendidos por "Curiosos e Bizarros".

A categoria lista obras escritas por loucos literários, visionários e gênios que desapareceram das bibliografias - talvez de forma justificada.

Há alguns anos eu já comentei a respeito de um desses catálogos, mas outros continuam a surgir, especialmente na França.

Não vou resistir à tentação de convidar o leitor a embarcar comigo em uma jornada pelo catálogo recentemente lançado pela editora Libraries Associes, o "Livres Curieux et Bizarres". (Sair um pouco das manchetes negativas da imprensa vai nos fazer bem.)

Entre as obras listadas no catálogo estão um seríssimo tratado sobre a canção de uma pomba que pertencia ao Cardeal Bellarmino (sim, o inquisidor de Galileu); e outro sobre a localização do paraíso na terra de acordo com o Bispo Huet. (Ao contrário do que se pensa, Huet argumenta que o paraíso fica não no Extremo Oriente, mas em Basra - e aí entendemos o desejo de George W. Bush de invadir o Iraque.)

Eu também encontrei a obra de Pierre Sindico sobre a imobilidade da terra, de 1878. E aprendi que Ricciotti Canudo, que eu conhecia apenas como teórico de cinema - foi ele quem o definiu como "a sétima arte" - fora também herói de guerra com interesse pela metafísica musical das civilizações.

Uma seção interessante cobre as línguas da antiguidade, como aquelas faladas por Adão (o druídico, de acordo com John Cleland, 1776) e Cam, filho de Noé (basco, segundo Pedro Nada, 1885); e também línguas experimentais, como mostra "La Langue Bleue", de Bollack (1900).

Em oferta, "Sillabayre" de Jallais (1923), com instruções para uma máquina de leitura; o Código Napoleônico em forma de versos, escrito por um anônimo em 1811; e "Primitive Civilization Rediscovered With All Its Archives in the Earthly Paradise in the Country of Eden or Brittany" (A Civilização Primitiva Redescoberta Com Todos os Seus Arquivos no Paraíso na Terra no País do Éden ou Bretanha), de Radiguel.

Eu me sentiria tentado a ler "A Vida Sexual de Robinson Crusoé", de Michel Gall (1977). (A primeira edição do livro foi banida.)

O catálogo também inclui uma antologia de sadomasoquismo (com ilustrações que não deixam praticamente nada à imaginação); "De Sanctorum Martyrum Cruciatibus" (1602), de Antonius Gallonius, cujo pretexto é documentar o sofrimento dos mártires.

Menos fiel às crônicas divinas é o recente "Sexo na Vila dos Smurfs", de 1980, uma versão pornográfica dos Smurfs. (O texto está em holandês mas isso não é um problema - as ilustrações são mais do que suficientes, diz o catálogo.)

Um certo Dr. Brennus disserta sobre a incontinência espasmódica em "L'Acte Bref" de 1907.

Das obras do Padre Sinistrari d'Ameno (um inquisidor do século XVI), eu já conhecia "De la Demonaliete", sobre o encontro sexual entre mulheres, íncubos e súcubos. (Alguns bibliófilos acreditam que o tratado é uma falsificação escrita em 1875 por Isidore Lisieux.)

Agora percebo que Sinistrari também escreveu "De Sodomia Tractatus" (comentado até hoje em sites gays na internet).

Finalmente, encontro uma tradução para o francês de "Clelia", romance de Giuseppe Garibaldi, escrito (como ele mesmo conta na introdução) para comemorar os homens valorosos perdidos em batalhas; para denunciar aos jovens italianos "a depravação e as traições de governantes e padres"; e para que o autor pudesse "viver da escrita".

Para aqueles que desejam desmoralizar a história da Itália, "Clelia" é um livro obrigatório - tanto quanto "Claudia Particella, l'Amante del Cardinale" (Claudia Particella, a Amante do Cardeal) de Benito Mussolini.


Umberto Eco é filósofo e escritor. É autor de "A Misteriosa Chama Da Rainha Loana", "Baudolino", "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault". Artigo distribuído pelo The New York Times Sybdicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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