Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Não, o texto não é sobre os mais recentes eventos de Brasília, embora "eles" estejam de novo troçando de nós, com essa dinheirama saindo pelos ladrões. É sobre uma conjugação verbal, ou melhor, sobre perguntas estranhas que se fazem em provas, incluindo perguntas sobre formas verbais mais ou menos raras, pegadinhas.
Estava lendo num jornal as notícias mais ou menos escabrosas sobre possível fraude no concurso para peritos da polícia, em S. Paulo, quando vi, num canto da página, a fórmula "vós troçais". Não entendi nada, até porque a tinha visto apenas com o canto do olho. Ou melhor: mesmo sem entender nada, achei que se tratava do verbo "troçar". Mas logo me dei conta de que havia uma explicação: tratava-se de resposta de um candidato a uma pergunta do examinador.
A questão completa da prova oral em que a forma acabou aparecendo é a seguinte, segundo a Folha de S. Paulo (30/11/2009, p. C3). "O senhor consegue conjugar esse verbo trazer no pretérito". O candidato: "Eu trouxe, Tu trouxes, Ele trouxes, Nós trouxemos, Vós troçais, Eles trouxerão".
O que me leva à seguinte afirmação: está tudo errado nesse concurso. A fraude, evidentemente, o erro infernal do candidato (ou ele teria em mente a forma "trouxais", igualmente estranha, mas, pelo menos, próxima de formas reais do referido verbo) e, por último, o tipo de pergunta.
Repito: pode ser que o candidato viesse a escrever, se fosse o caso, "trouxais". Ou pode ser que a transcrição do jornal não tenha levado em conta que certos ditongos desaparecem comumente na fala. "Troxais" seria, de fato, "trouxais". Mesmo assim, há coisas bem cabeludas aí.
Agora mudo o rumo da prosa.
É verdade que peritos devem redigir laudos. Pode até ser que em algum laudo uma forma verbal como a pedida deva aparecer. Mas por que, então, a prova não cobra a escrita de um laudo simulado?
Em suma: as respostas são cretinas, mas as perguntas são idiotas.
Confesso
Cometi um erro infantil na coluna passada, tratando como crase a fusão de s final com s de plural acrescido (lápis + s). Ora, crase é fenômeno semelhante, mas só quando se trata de duas vogais. Um amigo especialista me corrigiu. Dos leitores que sempre corrigem meus tremas errados e outras escorregadas, infelizmente não recebi nenhuma ajuda. O Brasil é bom mesmo em ortografia, diga-se o que se disser.
Aviso
Saiu, há cerca de um mês, Língua na mídia (Parábola Editorial), uma coletânea de textos do naipe dos que o leitor encontra nesta coluna. Às compras, senhores!