Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Anjo de Dor, o segundo romance de Roberto de Sousa Causo, foi lançado pela Devir no dia 2 de dezembro, na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista, em São Paulo. O romance pertence ao gênero horror, e a edição traz introdução de Rubens Teixeira Scavone, texto de orelha de Braulio Tavares, e arte de capa de Vagner Vargas. Ambientado na cidade de Sumaré, interior de São Paulo, em 1990, Anjo de Dor trata da chegada de uma cantora à cidade, trazendo com ela um passado sombrio e violento, que logo virá assombrá-la e ao co-protagonista, o barman e pintor, Ricardo Conte. Sobre o livro, R.F. Lucchetti, autor de O Crime da Gaiola Dourada e roteirista de Ivan Cardoso e José Mojica Marins, escreveu: "Quando a narrativa dá mostras de ter estabelecido uma trilha convencional, magistralmente novos ingredientes vão sendo acrescentados, como se o autor assumisse seu papel de bruxo e no caldeirão mágico fosse depositando um a um - Causo consegue o que parecia ser impossível: dar às cores provincianas de uma cidadezinha do interior uma dimensão universal, mostrando o quão perto estamos de uma realidade cuja existência preferimos não admitir". Leia a seguir um pequeno trecho de Anjo de Dor:

Ricardo abraçava-se a Sheila, sentindo o calor que ela lhe transmitia como uma irradiação confortadora. O medo gorgolejava em seu peito como um animal vivo preso na traquéia, pronto a saltar para fora a qualquer momento, se não o segurasse com um aperto forte das mandíbulas. O medo o dominava. Medo do confronto eminente com Ferreirinha e os outros, medo pelo futuro de Sheila, medo pela segurança de Lauro e Márcia, mas, antes de mais nada, medo do escuro.
À medida que a vista se acostumava mais e mais à escuridão, Ricardo fora percebendo formas estranhas. Aos poucos o que lhe parecera uma vaga ilusão de ótica se consubstanciara em figuras discerníveis, e agora ele via uma platéia de fantasmas pendurados nas travessas de concreto - a arquibancada da qual os observavam atenta e curiosamente.
Lutava para evitar que Sheila notasse o seu terror. Ela também tremia um pouco, e Ricardo não precisava de grande esforço de dedução para perceber que sofria igualmente com o medo.
As coisas estavam perdendo o controle de novo, Ricardo sabia. Olhando para cima, lá estava o Anjo de Dor, em pé numa das travessas, fitando-o com o mesmo olhar impassível de sempre. Podia ver perfeitamente os fantasmas no escuro, como se eles trouxessem sua própria luz, uma luminescência apagada e opaca, como a de um interruptor fluorescente.
Homens e mulheres em andrajos, a maioria velhos. Um deles vestia um macacão de brim escuro em boas condições, mas faltava-lhe o braço direito na altura do cotovelo. Uma mancha mais forte subia até o ombro - sangue. Havia outro também de macacão, mas com um dos lados do corpo esmagado. As vísceras pendiam-lhe de um rasgo na cintura. Ricardo viu umas poucas crianças, e uma pilha de coisas disformes, da qual emanava pouca luz.
Não conseguia tirar os olhos do desfile de horrores, e, principalmente, desse amontoado.
Aos poucos foi percebendo, recuperando da memória, o formato de músculos e órgãos nos livros de desenho anatômico que havia estudado - esse monte de matéria orgânica um dia fora um homem.
Engoliu saliva. O sujeito devia ter sido, no mínimo, atropelado por um trem. A dedução o levou a outra: o Moinho Velho abrigava os fantasmas de mendigos e crianças que morreram na estrada de ferro em acidentes, ou de frio e fome ou doença nos arredores. E operários mutilados pelas máquinas, e suicidas que se atiraram contra as locomotivas. Talvez todos os espíritos errantes da cidade encontrassem abrigo ali, na construção abandonada.
Seu Anjo de Dor brilhava com um radiância que ofuscava a luz pálida dessa confraria de espectros.
Ela levantou o braço direito, em suave movimento, e apontou para o extremo oposto do grande recinto.
Como na tarde do dia anterior, na rodoviária, Ricardo sentiu uma sensação avassaladora de presciência - o espectro lhe dizia que Ferreirinha havia chegado. Segurou firme a pistola automática e levantou-se.
- Cê fica aqui, Sheila - disse, em voz baixa. - Não importa o que acontecer, não sai daqui, e não faz barulho.
- Onde cê vai? - Uma vibração quase histérica na voz já medrosa.
- Dar uma olhada por aí. Talvez a gente ache um lugar melhor pra se esconder - mentiu.
Sheila levantou-se.
- Eu vou junto
- Ela era esperta.
- Não vai, não.
Os dois ouviram quando uma das portas do lado oposto foi aberta com um rangido enferrujado.
- Que foi isso? - Sheila sibilou.
Ricardo espiou por entre as pilhas de maquinário, vendo uma brecha se abrindo, e um traço de iluminação da rua acima se infiltrando por ela. Duas sombras passaram para dentro.
"Dois deles", Ricardo pensou, com alívio e temor simultâneos. Percebeu que causara problemas, se apenas dois dos bandidos estavam em condições de persegui-los. Mas o número ainda o colocava em inferioridade. Ouviu quando um disse qualquer coisa ao outro.
- Ferreirinha - que certamente seria um deles - e um outro acabam de chegar - respondeu, na sua melhor voz de durão. - Faz o que eu falei.
Antes que Sheila pudesse dizer qualquer coisa, Ricardo deu um passo para a esquerda e contornou a pilha de metal, desaparecendo rapidamente no escuro.
Agora sozinha, Sheila sentou-se outra vez. Abraçou os joelhos e voltou a tremer.