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Quarta, 16 de dezembro de 2009, 07h58

O palavrão

José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)

Lula, entre Dilma Rousseff e Roseana Sarney, falou palavrão em São Luís
(foto: Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)

O presidente liberou geral, pode usar palavrão. Seja no texto, em conversas, em comentários. Ainda mais no caso da merda, que é uma palavra com fonética aberta, você enche a boca com ela e expande as partículas (sonoras) para cada canto em volta. Já cocô, talvez pelo fato de ser um fonema afrancesado, não é considerado palavrão, embora signifique a mesma merda.

Este ano houve um debate feroz que pontificou em Porto Alegre: a arte nos espaços públicos e em mostras como a Bienal. Uns dizendo que grande parte da arte contemporânea é uma merda e que as obras públicas recentes são abomináveis, outros afirmando que quem dizia isso só falava merda.

De verdade não creio que o pessoal tenha chegado a alguma conclusão. Mas um fato ficou claro, o portoalegrense detesta opiniões - nada ofende mais do que uma. O sujeito daqui lê o jornal e se ofende. Sai ofendido de casa e passa a detestar o dono da opinião para sempre. A opinião em Porto Alegre - caso não se concorde com ela - é um desaforo.

Porém, discutir arte em espaços públicos da cidade, enquanto toda aquela quantidade de merda fermenta no fétido, pútrido, Arroio Dilúvio - que ficou famoso no Brasil recentemente por conta do surfe camicase praticado nele durante uma enchente - equivale a alguém com gangrena na perna se preocupar com as unhas do pé.

Na busca dos adjetivos, o substantivo foi esquecido. Mas há em céu aberto, numa das avenidas mais importantes da cidade, uma mostra diária da produção disso. O Dilúvio é um corte transversal e podre; um rio de merda, poluição e sujeira, uma cárie na boca da Cidade Sorriso.

Isso sem contar os ratos humanos, que se escondem nos esgotos daquele lugar, mas frequentam as ruínas da nossa consciência.

Da discussão sobre arte em Porto Alegre pelo menos uma coisa ficou clara: todo mundo e ninguém tem razão. A matéria prima da arte é a ilusão, ou seja, a mentira. Diante disso como saber o que é falso e o que não é? A opção é se debruçar numa das pontes da avenida Ipiranga e olhar para baixo. Ali a verdade vai passar boiando.

Já o palavrão, mesmo quando dito em desabafo é um insulto. Tem horas no entanto que é necessário. O palavrão não tem pai, não tem mãe. É fruto do sentido que só o coletivo percebe.

Discutir se o Lula disse o que disse porque é populista, ou analfabeto, ou porque não está à altura do cargo, é deixar de ver o tamanho e o significado da merda.

No twitter: @ZPgoulart


José Pedro Goulart é cineasta e jornalista.


Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br

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