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Quarta, 16 de dezembro de 2009, 12h16

Os Reis Magos, esses desconhecidos

Reprodução
Adoração dos Reis Magos, fresco de Giotto, na Basílica Inferior de Assis
"Adoração dos Reis Magos", fresco de Giotto, na Basílica Inferior de Assis

Umberto Eco
Do The New York Times

Recentemente presenciei, ao acaso, dois episódios interessantes: uma adolescente folhava atentamente um livro de reproduções de arte e outros dois adolescentes visitavam (fascinados) o Louvre. Os três tinham nascido e tinham sido educados em países estritamente laicos e em famílias não tementes. Por isso, quando viam "A Balsa da Medusa" entendiam que alguns coitados tinham acabado de se salvar de um naufrágio, ou que os dois personagens de Francesco Hayez, que estão na Academia de Brera, eram dois apaixonados; mas não conseguiam entender por que o Fra Angélico representou a uma jovem conversando com um homossexual com asas ou por que um senhor transtornado descia de uma montanha aos tropeços carregando duas pedras muito pesadas e emanando raios luminosos pelos chifres.

Naturalmente os jovens reconheciam alguns personagens do Nascimento de Cristo ou em uma Crucificação, porque já tinham visto algo semelhante, mas se nesse contexto eram introduzidos três senhores com manto e coroa, já não sabiam quem eram nem de onde tinham surgido. É verdade que o mesmo acontecia com Mateus, mas essa não é a questão.

É impossível compreender aproximadamente três quartas partes da arte ocidental se não se conhecem fatos do Antigo e do Novo Testamento e as histórias dos santos. Quem é a jovem que olha fixamente um pratinho de prata? É da noite dos mortos vivos? E um cavaleiro que corta ao meio uma roupa, está fazendo uma campanha contra Armani?

Acontece que, em muitos contextos culturais, meninos e meninas aprendem no colégio tudo a respeito da morte de Heitor e nada sobre a de São Sebastião; tudo sobre o casamento de Cadmo e Harmonia, mas nada sobre o casamento em Caná. Em alguns países existe uma forte tradição pela leitura da Bíblia, e as crianças sabem tudo sobre o bezerro de ouro e nada sobre o lobo de São Francisco. Em outros lugares, estudam a Via Sacra e ficam às escuras sobre a mulier amicta solis do Apocalipse.

Mas, o pior acontece, obviamente, quando um ocidental (e não apenas adolescentes) se depara com representações de outras culturas, cada vez mais frequente, já que as pessoas viajam a países exóticos enquanto os habitantes desses países vêm se instalar aqui. Não estou falando das reações perplexas de um ocidental perante uma máscara africana, ou do seu sorriso perante esses Budas oprimidos pela celulite (que, além disso, se perguntado, estará disposto a nos dizer que o Buda é o deus dos orientais assim como Maomé é o deus dos muçulmanos). O pior é que muitos dos nossos vizinhos do bairro estariam dispostos a pensar que a fachada de um templo hindu foi desenhada por um comunista para representar o que ocorria nas festas que Silvio Berlusconi dava nas suas residências; e balançam a cabeça quando veem os mesmos hindus reverenciando um senhor de cócoras com a cabeça de elefante, sem perceber que para eles não é estranho ver uma divindade representada como uma pomba.

Portanto, passando por cima de qualquer consideração religiosa, e inclusive do ponto de vista mais laico do mundo, é necessário que as crianças recebam no colégio informações básicas a respeito das ideias e tradições das diferentes religiões. Pensar que isso não é necessário é o mesmo que afirmar que não temos que ensinar-lhes quem eram Zeus ou Atena, porque eram apenas contos para as velhinhas do Pireu.

Mas claro, querer resolver a questão da educação religiosa ensinando apenas uma religião (a religião católica na Itália, por exemplo) é culturalmente perigoso porque, por um lado, não se pode impedir que essas aulas sejam frequentadas por alunos que não acreditam em Deus ou por alunos cujos pais não acreditam; com o qual perdem um mínimo de elementos culturais fundamentais; e por outro lado, exclui-se da educação religiosa qualquer alusão a outras tradições religiosas. O período de religião católica pode se transformar em um espaço de debate ético, totalmente respeitável, a respeito dos deveres para com os semelhantes ou sobre a essência da fé; passando por alto essas informações que nos permitem distinguir uma Fornarina de uma Madalena arrependida.

Também é verdade que a minha geração estudou tudo a respeito de Homero e nada a respeito do Pentateuco; no ensino médio nos ensinavam tudo sobre Burchiello e nada sobre Shakespeare; e recebíamos péssimas lições sobre a história da arte, mas, mesmo assim, conseguimos sobreviver porque evidentemente alguma coisa pairava no ar e nos transmitia estímulos e informações. Mas aqueles três adolescentes dos quais falava, que não reconheciam os Reis Magos, fazem-me pensar que agora paira no ar algo que nos transmite cada vez menos informações úteis e mais informações absolutamente inúteis.

Que os Reis Magos mantenham as suas sagradas mãos sobre as nossas cabeças.


Umberto Eco é filósofo e escritor. É autor de "A Misteriosa Chama Da Rainha Loana", "Baudolino", "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault". Artigo distribuído pelo The New York Times Sybdicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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