Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Pois, estimados milhares de leitores, um feliz Ho Ho Ho para todos nessa véspera da festa maior da cristandade e dos shoppings no mundo inteiro, inclusive na parte do mundo que nem curte muito a cristandade.
E, já que somos íntimos, eu e vocês, vocês e eu, permitam-me um momento de cumplicidade aqui num cantinho da coluna. Me deixem confessar algo que me atormenta desde que me entendo por gente, ou seja, desde algumas horas atrás: eu não gosto de Natal. Eu realmente não gosto de Natal. Pior, eu detesto Papai Noel. Pronto, falei.
E não é que eu tenha tido muitos natais à la Oliver Twist, pobre, solitário e com frio e fome. Nada disso. Ao menos nunca passei fome nessa época do ano, que eu lembre, não enquanto a minha avó Jovita esteve por perto. Lembro mesmo de um grande Natal, eu devia estar entre os 3 e os 5 anos de idade e ao acordar vi, pela porta entreaberta do quarto, uma imagem que me segue até hoje: um número 3, enorme, desses que pintam nos carros de corrida. Era um kart da Estrela, algo que somente garotos da minha geração, que curtiram a infância no delicioso século 13 podem compreender. Objeto absoluto do meu desejo, e agora meu, todo meu (bom, meu e de todos os meus irmãos, mas eu era mais velho e mais forte, portanto, meu).
Mas eu sabia que era a minha mãe quem tinha trazido o meu kart. Não havia bom velhinho em operação, ao menos com carteira assinada, em todo o Rio Grande do Sul, isso eu sabia.
De lá pra cá, o Brasil se tornou mais e mais um paraíso do consumo e os chineses inventaram essas luzinhas baratas e a minha vida se tornou um inferno.
Dias atrás saí pela Paulista e não fui a lugar algum. Todo mundo tinha ido pra lá assistir ao Natal. Natal agora não é mais algo que a gente faz em casa, comendo peru e dando presentes. Natal agora a gente olha. Desde que Gramado inventou o Natal Luz, ou seja, desde que os chineses inventaram as luzinhas, a gente vê o Natal. Isso é tão real que, em São Paulo, existem passeios turísticos que levam pessoas do mundo inteiro, e até de Osasco, a conhecer todas as atrações natalinas da cidade. O detalhe é que a maioria delas foi instalada em bancos. Bancos, tipo Itaú, HSBC, Real, esses bancos. Os que nos escalpelam durante o ano inteiro, eles mesmos. No Natal, dão luzinhas pra gente, decorando os seus prédios bancários. Durante o ano inteiro sugam a nossa seiva, mas em dezembro nos dão luzinhas e arrepios de felicidade, olhando para o Natal em sua versão mais feérica.
Não satisfeito com as luzinhas, o Natal agora é a laser. Sério! A nova árvore de Natal do Parque do Ibirapuera solta raios laser e derruba até disco voador. E as árvores de Natal das cidades agora disputam concurso de Miss Árvore de Natal. Dias atrás pessoas tentaram o suicídio nadando na Lagoa Rodrigo de Freitas, ao descobrirem que em algum lugar do mundo havia uma árvore de Natal maior do que a do Rio.
E Papai Noel, o que faz diante de tudo isso? Nada. Papai Noel é um grande e barbudo omisso, isso sim. Comercializam até as luzes, e ele ali, achando graça. O ato de presentear vira o ato de se comprar alguma coisa que sirva em qualquer um, na hora do amigo secreto, e ele reage como? Com o mesmo sorriso de comercial de Coca-Cola que ele porta, desde sempre.
Portanto, por não fazer nada diante da destruição do Natal, abaixo Papai Noel. Para mim, vamos trocar Papai Noel pelo Roberto Carlos. Que pode não ter a imagem de velhinho, mas é bom que dói. Não usa vermelho, só usa azul, olhem quantas vantagens? Não anda de trenó nem amarrado, e não deve saber o que seja uma rena. Ou seja, é coisa nossa.
Ele faz o mesmo especial de final de ano há quinhentos anos, e todo mundo adora. O Roberto Carlos Especial passa a ser o presente de Natal de todo mundo, e o que a gente economizar, gasta no final de ano, que passa a ser o novo e verdadeiro Natal. A minha proposta é essa. A gente acaba com o Papai Noel e coloca o Roberto Carlos no lugar. A gente acaba com o Natal, troca por uma semana de férias e vai comemorar mesmo somente o Ano Novo. Pronto. Um novo mundo, aqui, agora. Nada mais de Ho Ho Ho! Vai ser, Ié Ié Ié. Que maravilha!
Sem esse stress todo no shopping, no trânsito, em casa, no trabalho! Uma só festa, um só Bom, Ótimo Velhinho, e que canta "Detalhes" ainda por cima!

O candidato a Papai Roberto Noel Carlos (foto: Marcelo Pereira/Terra)
Nunca mais o infernal disco de Natal da Simone! Nunca mais canções natalinas me enlouquecendo nos supermercados Pão de Açúcar. Nunca mais o Bob Dylan, aquele grandessíssimo chato, tentando faturar um extra com musiquinha de Merry Christmas. Deixaremos de acreditar em uma superstição e passaremos a acreditar num cara supersticioso, mas que existe. O meu, o seu, o nosso, Roberto Carlos!
Vamos todos, juntos, defender essa idéia libertadora. O Aécio, o Bom Mocinho, por exemplo, que não tinha mesmo nada a perder, havia prometido transformar minha proposta em lei se fosse eleito presidente. Essa oportunidade passou, portanto, agora é conosco. Todos juntos agora! Abaixo o Natal!
Um ótimo Ano Novo para todos e lembrem sempre, "Como é grande, o meu amor, por vocês"! Isso, que momento lindo! Viram? Era o Natal e o Papai Noel que atrapalhavam. Ié Ié Ié pra todos, é o que lhes desejam de todo coração o nosso novo Papai Roberto Noel Carlos, e eu.
Agora, e isso é certo, vai.
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