Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Naomi Klein

Sexta, 18 de dezembro de 2009, 13h51 Atualizada às 15h32

Copenhague: A coragem de dizer que não

Naomi Klein

No nono dia da conferência do clima em Copenhague a África foi sacrificada.

O posicionamento do bloco de negociações G-77, incluindo estados africanos, foi bem claro: Um aumento de dois graus Celsius na temperatura global equivale a um aumento de 3 a 3,5 graus na África.

Isso significa que "mais 55 milhões de pessoas correm risco de ser afetadas pela fome" e que "a escassez de água pode afetar entre 350 e 600 milhões de pessoas mais", de acordo com a Aliança Pan-Africana para a Justiça Climática.

O Arcebispo Desmond Tutu salienta o que está em jogo: "Estamos perante um desastre de escala monstruosa. Uma meta global de dois graus Celsius condenaria a África à incineração e ao subdesenvolvimento."

Ironicamente, foi exatamente isso que o primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi propôs em sua passagem por Paris, a caminho de Copenhague.

Em companhia do presidente francês Nicolas Sarkozy, e dizendo representar toda a África (já que ele é o chefe do grupo de negociações climáticas da África), Zenawi revelou um plano que inclui o aumento de dois graus e oferece aos países em desenvolvimento apenas 10 bilhões de dólares por ano para auxiliar com as despesas relativas ao clima, como muros de proteção na costa e tratamento para a malária, bem como para o combate ao desmatamento.

É difícil acreditar que a declaração veio do mesmo homem que há apenas três meses dizia "vamos usar nossa representatividade para deslegitimar qualquer acordo que não seja minimamente consistente com nosso posicionamento. Se for necessário, estamos dispostos a virar as costas às negociações que ameaçarem mais um estupro do nosso continente. O que não vamos poder tolerar é viver com o aquecimento global acima de um nível minimamente evitável."

E: "Participaremos das próximas negociações não suplicando, mas negociando de igual para igual e defendendo nossa visão e nossos interesses."

Ainda não se sabe o que Zenawi levou para mudar seu discurso ou o quão exatamente a proposta do financiamento de 400 bilhões de dólares ao ano, a proposta original da África, virou uma oferta de meros 10 bilhões.

Também não sabemos o que aconteceu quando a Secretária de Estado Hillary Clinton encontrou a presidente das Filipinas, Gloria Arroyo, poucas semanas antes da conferência. De uma hora para a outra, os negociadores filipinos mais ardilosos perderam seus cargos no comitê e o país, que exigia cortes rigorosos das nações ricas, virou um cordeirinho.

Sabemos com certeza, depois de observar essas declarações, que as potências do G-8 vão fazer de tudo para conseguir um acordo em Copenhague.

Parece claro que a urgência nada tem a ver com evitar uma mudança climática desastrosa, já que as autoridades negociando as emissões de carbono sabem que a temperatura, levando em conta os níveis negociados, subirá "dantescos" 3,9 graus, como disse o ambientalista Bill McKibben.

Matthew Stilwel, do Instituto para a Governança e Desenvolvimento Sustentável, um dos conselheiros mais influentes do assunto, diz que as negociações não têm como objetivo evitar as mudanças climáticas, mas, na realidade, são uma batalha por um recurso valiosíssimo: o direito a um pedaço do céu.

Uma quantidade limitada de carbono pode ser emitida na atmosfera. Se os países ricos não conseguirem cortar seu nível de emissão radicalmente, estarão consumindo a quantidade já ineficaz disponível no hemisfério sul. Stilwell argumenta que o que está realmente em jogo é "a importância de dividir o céu."

A Europa, diz ele, sabe muito bem a quantidade de dinheiro que se pode fazer com o comércio do carbono, já que utiliza esse mecanismo há muitos anos.

Os países em desenvolvimento, por outro lado, nunca precisaram lidar com restrições de carbono. Muitos governos não sabem o que estão perdendo.

Em contraste ao valor de mercado do carbono - 1,2 trilhões de dólares por ano, de acordo com o economista inglês Nicholas Stern - com a oferta de 10 milhões para os países em desenvolvimento, Stigwell diz que os países ricos estão tentando trocar "colares e cobertores por Manhattan", como faziam os colonizadores com os índios.

Ele completa: "Vivemos um momento colonial. É por isso que não foram poupados esforços para que esses chefes de estado assinem esse tipo de acordo em Copenhague. O problema é que depois de assinado o acordo, não há mais como voltar. É como pegar nosso último recurso natural e dar de mão beijada para os países ricos."

O que a maioria das organizações não governamentais alega há meses é que o objetivo da conferência é apenas formalizar o acordo. Todos em Copenhague alegam que a sua causa é urgente.

Mas não podemos nos contentar com um acordo qualquer. O único acordo possível agora não resolve a crise climática e pode, inclusive, fazê-la piorar, perpetuando a discrepância entre os hemisférios norte e sul.

Augustine Njamnshi, da Aliança Pan-Africana para a Justiça Climática, não faz rodeios quanto à proposta dos dois graus: "Não se pode dizer que esta é uma 'solução' para as mudanças climáticas se ela vai causar milhões de mortes na África e quem acabará pagando pelas mudanças são os pobres e não quem polui".

Stigwell alega que um acordo mal formulado iria "estender uma abordagem destrutiva até 2020", bem depois do prazo final para o pico de emissões. Mas ele insiste que não é tarde demais para desviarmos desse caminho destrutivo.

"Eu prefiro esperar seis meses ou um ano e escolher o rumo certo, já que a ciência tem evoluído tanto, a vontade política está crescendo, bem como a compreensão da sociedade civil e das comunidades afetadas, e eles estarão dispostos a cobrar um posicionamento correto de seus líderes", ele afirma.

No início das negociações, a palavra "adiar" não estava no dicionário. Mas agora muitos estão entendendo que fazer as coisas com calma pode ser o melhor caminho.

Mais importante ainda, depois de compreender o que significam dois graus para a África, o Arcebispo Tutu declarou que "é melhor não ter acordo algum do que selar um acordo prejudicial".

Essa pode ser nossa melhor esperança em Copenhague. Seria um verdadeiro desastre político para alguns líderes - mas poderia ser também nossa mais preciosa chance de evitar um desastre que nos sacrificaria a todos.

Naomi Klein, colunista do The Nation e The Guardian em Londres, é autora de The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol