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Sábado, 19 de dezembro de 2009, 08h22

Conto convidado: De Trufas e Fanfruinhas

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

*Por Walter Martins

Walter Martins, um escritor da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972), publicado no Brasil e na França, chama este seu conto de "surrealista". Martins participou da antologia Além do Tempo e do Espaço (EdArt, 1965), e apareceu na revista Magazine de Ficção Científica N.º 3, em 1970, e foi, com Jerônymo Monteiro e outros, um dos criadores da Associação Brasileira de Ficção Científica, a primeira entidade conhecida do fandom brasileiro. Em 1997, Martins participou com seus colegas Nilson D. Martello, André Carneiro e Therezinha Monteiro Deutsch, do Primeiro Encontro do Primeiro Fandom Brasileiro, na 5.ª InteriorCon, uma convenção de ficção científica.

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*

No dia em que o dinheiro acabou de vez, Zelinda virou-se para o marido e aconselho-o a vender o oboribo.

- Eu sempre tive receio deste momento - choramingou Gustavo. - Mas como vou vendê-lo, assim sem mais nem menos?

- E como haveria de ser, Gustavo? Saia por aí, pegue um amigo, vá até a venda, bata de porta em porta. Até achar quem o compre.

Parecia lógico. Foi então falar em primeiro lugar com o vizinho, que tinha uma sapataria. Miguelito saudou-o alegremente, perguntou o que é que mandava, e Gustavo desembrulhou o pacote, abrindo-o em cima da bancada. Ofereceu:

- Andamos meio apertados lá em casa ultimamente, e resolvemos vendê-lo.
- Mas o que é... isso aí?
- Meu oboribo, ora.

Pela cara tristonha de Gustavo, Miguelito viu que era sério.
- Seu Gustavo, nem nunca vi nem nunca ouvi falar em oboribo, mas para o meu gosto, se um dia fosse comprar um, preferiria um maior. Não sei, mas parece-me pequeno demais. O senhor só tem esse?
- Como outro, meu velho? Se houvesse outro, maior, menor, ou diferente, já seria um badunzalé. Oboribo é esse, é um só.
- Sinto muito, seu Gustavo, mas não interessa. E como vai a vida?
- Tudo meio mal, Miguelito. Mas não há de ser nada, alguém se interessará, afinal você foi o primeiro que procurei.

Foi ver então o outro vizinho, uma vizinha, D. Helga, dona da pensão.
- É muito pouco peludo, seu Gustavo.
- Oboribo com muito pêlo? Bem se vê que senhora vem da Holanda, D. Helga. Aposto que está confundindo com um garapitango, que esse sim é bem peludo.
- Pois é, mas eu preferiria peludo, pois eu daria para meu sobrinho, que tem cindo anos, e ele gosta de ficar alisando coisas peludas.
- Bem, mas com sua licença já vou andando, D. Helga, que ainda tenho muito que fazer. Mas olhe, mesmo o garapitango, que é peludo, não é para ser alisado!
- Muito abrigada por procurar-me, seu Gustavo, até breve.

Voltou para casa, botou uma roupinha melhor e disse à mulher que ia até a cidade.
- Vou procurar seu primo, que trabalha com os Pederneiras. Lá pra hora do almoço estou de volta.

Teve que esperar na porta até as onze e meia, pois o primo de Zelinda tinha ido levar as crianças a uma loja, para comprarem roupa. Quando o primo chegou, entrou direto com o carro, e só depois é que veio vê-lo, no portão, abanando-se com o boné.

Gustavo sentia-se meio desconsolado:
- Vim vender o oboribo, talvez seus patrões se interessem por ele.

A patroa do primo consentiu em atendê-lo, na varandinha da cozinha:
- Eu pensei em vendê-lo, talvez a senhora se interessasse em possuí-lo. - Foi abrindo o pacote na murada. - Aqui está.
- Oh, mas é tão interessante!
- A senhora então gosta?
- Lindo, lindo! Como é o nominho dele?
- Nome? Oboribo com nome? Talvez a senhora pense que isso aqui é um oxorumbatá. Botar-lhe nome! Ora!
- Não tem importância, o senhor não lhe dava nome, mas eu darei. Quanto quer por ele? E... outra coisa, o senhor não terá por acaso... ahnn... como é mesmo que se chama?
- É o meu oboribo.
- Pois é, o senhor não tem também a oboriba? Eu gostaria de ter o casal.
- CASAL? De oboribo? Isso não é um chufinfin, madame. A senhora me desculpe mas deve ser maluca. Casal de oboribo... Mas nem no dia em que televisão ficar no choco e Wolksvagen usar Modess. Lamento mas não vendo para a senhora, de jeito nenhum.
- Seu atrevido!

Saiu da casa dos Pederneiras às pressas, sem mesmo se despedir do primo, e foi ter com o padre Ataliba, da paróquia do seu bairro.
- O senhor conhece tanta gente, padre Ataliba, talvez me indique alguém que posse se interessar.

O reverendo olhava interessado para o embrulho aberto no chão:
- Olha, Gustavo, vá falar com o Dr. Mesquita, ali na esquina da avenida. Acho que ele talvez se interesse. De minha parte, eu poderia, quem sabe, tentar rifa-lo na quermesse de domingo, mas... seria mais fácil fazer algum negócio se ele tivesse rodas.
- Padre!... Oboribo com rodas? O senhor acha que se eu tivesse um zurubaê pra vender iria trazê-lo aqui na igreja para mostrar-lhe? Padre!...
- Meu filho - disse o padre, sorrindo -, eu não entendo de oboribos ou zurubaês, mas vá em paz, e fale com o Dr. Mesquita.

O Dr. Mesquita, franzino, e de óculos caindo da ponta do nariz, mostrou-se vagamente interessado:
- Seria ótimo, para dar para meu filho que gosta de mexer com engrenagens e ferramentas. Só que eu não estou vendo nenhuma manivela, ele não precisa de manivela?
- Se eu tivesse um laminhoso para vender eu iria direto a uma loja de ferragens, Dr. Mesquita, e se seu filho pensa que vai botar uma manivela no meu oboribo, sinto muito mas não dá para fazermos negócio. Sinto muito.

Resolveu voltar para casa. No caminho ainda passaria pela farmácia e pelo armazém. Quem sabe?
- E cadê a tampa, seu Gustavo? - foi dizendo o farmacêutico.

Gustavo respeitava-o; era velhinho, velhinho, seus oitenta anos e quase surdo de todo. Berrou-lhe no ouvido:
- Quem tem tampa é um casquicildo, seu Alaor. Oboribo não!

Já o vendeiro se interessou vivamente, e chegou a chamar a mulher para ver o oboribo. Mas o negócio também não foi feito:
- É que nós gostaríamos de levar pro sítio, aos domingos, e pra nós seria melhor um portátil.

Ora, muito bem, se eles queriam um boruí, que procurassem; ele, Gustavo, só tinha um oboribo para vender.

Já em casa, comentou com a mulher:
- Tá duro, Zelinda, acho que não vai ser assim tão fácil...

A mulher chegou-se a ele, e bateu-lhe no ombro com a mão úmida.
- Por que você não o rifa?
- Zelinda... rifar o oboribo? Isso se faz com berlindoques!
- Certo, marido, certo, distração minha.

Gustavo jogou-se numa poltrona.
- Hoje estou cansado e não saio mais. Amanhã tentarei de novo. Estive pensando, talvez um loja de antiguidades se interessasse...

Sorrindo satisfeita, Zelinda virou-se para ele:
- Gustavo, meu querido, você está nervoso mesmo. Antiquários se interessam por xorumingões... mas oboribo? Nunquinhas!

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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