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Sexta, 25 de dezembro de 2009, 09h27

Três contos (tristes) de Natal

EFE
O Natal será nos hotéis que hospedam os desabrigados, ou nas casas de parentes que ainda estão de pé. Na foto, uma mulher afetada pelos terremotos ...
O Natal será nos hotéis que hospedam os desabrigados, ou nas casas de parentes que ainda estão de pé. Na foto, uma mulher afetada pelos terremotos espera em um centro para desabrigados

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

Em três cidades italianas - L'Aquila, Viareggio, Giampilieri - o Natal não será feliz. A capital do Abruzzi foi demolida em trinta segundos, no dia 6 de abril, por um terremoto que provocou 308 mortos, 1.600 feridos, 62 mil pessoas desabrigadas, 15 mil casas destruídas. Um bairro inteiro de Viareggio, na Toscana, incendiou-se depois da explosão de um tanque de gás num trem que saiu dos trilhos, em 29 de junho. 31 pessoas morreram queimadas ou sufocadas. Giampilieri, na província de Messina, na Sicília, parecia um velho presépio, desfeito na noite de 1 de outubro, quando a chuva provocou o desmoronamento de uma montanha em cima da cidadezinha: 37 mortos, 1.600 flagelados.

L'Aquila é uma cidade-fantasma, ainda mais agora, em pleno inverno, coberta de neve que esconde os escombros de seus antigos edifícios, palácios e igrejas desabados. Guido Bertolaso, responsável da Proteção Civil italiana, foi eleito homem do ano pela sua atuação nas horas terríveis que seguiram o terremoto. Junto com o chefe do governo, Silvio Berlusconi, ele lançou o lema "das tendas às casas", prometendo aos cidadãos que não iriam padecer da experiência de viver em contêineres durante meses e anos a fio, esperando a reconstrução da cidade.

Todos - 8 mil operários, 300 bombeiros, centenas de voluntários - estão mantendo a promessa, mas o resultado é que L'Aquila não foi reconstruída, enquanto surgem bairros de casas pré-fabricadas que vão custar um dinheirão que deveria ter sido investido para erguer os muros, monumentos e casas desmoronados. O resultado é uma cidade pulverizada em casinhas de madeira, mais parecida com um grande centro comercial ao ar livre, sem nenhum sinal de vida no seu maravilhoso centro histórico.

A Missa do Galo não será em nenhuma das 40 igrejas que desabaram, e que continuam em obras, apesar das promessas de ajudas internacionais feitas durante a reunião do G-8 organizada em julho em L'Aquila como sinal de solidariedade mundial com a cidade. Os aquilanos vão rezar em 4 barracos-igreja e não na majestosa catedral. Mas a aflição deste Natal não é a falta de igrejas, é a ausência de tantas pessoas queridas, na maioria jovens e crianças, que morreram porque não acordaram em tempo para se salvar do sismo. E o desânimo das previsões de reconstrução, vinte anos e 8 bilhões de euros de custo, segundo os técnicos.

A tristeza de Viareggio é diferente. Seis meses após o incêndio que devastou o bairro da estação ferroviária, Gianfranco Baldini, presidente do comitê que reúne e apoia os sobreviventes, diz que será um Natal desesperado. Porque a máquina da justiça, que poderia responder à dor das famílias que perderam casas e parentes, ainda não conseguiu individuar os responsáveis pela explosão, e por enquanto a única opção que se oferece às vítimas é a da burocracia, dos advogados, de uma papelada sem fim que parece mais uma punição do que uma solução.

Em Giampilieri, a cidade foi dividida em 4 zonas - verde, amarela, roxa, vermelha - que marcam o perigo de novos desabamentos. Nenhuma casa ainda foi reconstruida, nenhuma verba destinada, os técnicos passaram dois meses discutindo a divisão das tais zonas de perigo e ainda não estabeleceram os critérios de indenização. O Natal será nos hotéis que hospedam os desabrigados, ou nas casas de parentes que ainda estão de pé.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


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