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Segunda, 28 de dezembro de 2009, 15h38 Atualizada às 16h13

O grande zero

Paul Krugman
Do The New York Times

Talvez soubéssemos lá atrás, de forma inconsciente e instintiva, que esse seria um período a esquecer. Seja qual for a razão, atravessamos a primeira década do novo milênio sem decidir nem mesmo como devemos chamá-la. Seria fim de século? Os anos dois mil? Não importa (sim, a rigor o milênio não começou antes de 2001, mas quem se importa de fato?).

No entanto, do ponto de vista econômico eu sugiro que chamemos a década que se encerra de o Grande Zero. Foi uma década em que nada de bom aconteceu, nada daquele otimismo que merecia nossa fé se traduziu em verdade.

A criação de postos de trabalho foi basicamente zero na década. Certo, as manchetes sobre os números do emprego em dezembro de 2009 serão ligeiramente maiores do que as de dezembro de 1999, mas apenas ligeiramente. Na verdade, o emprego no setor privado caiu - a primeira década em que se tem registro de tal fato.

Foi uma década de zero ganho econômico para a típica família norte-americana. Com efeito, mesmo no ápice do chamado "Bush boom", em 2007, a renda familiar média corrigida monetariamente foi menor do que a de 1999. Todo mundo sabe o que aconteceu depois.

Foi uma década de ganho zero para os proprietários de imóveis, mesmo para quem comprou antes: neste momento, os preços corrigidos dos imóveis estão, grosso modo, no mesmo patamar em que se encontravam no começo da década. E para quem comprou imóveis em meados da década - quando todas as pessoas sérias escarneciam os avisos sobre o absurdo dos preços dos imóveis, de que estávamos no meio de uma bolha gigante -, eu gostaria de dizer que me compadeço de vocês. Quase 25% de todos os empréstimos hipotecários dos Estados Unidos e 45% das hipotecas da Flórida estão "debaixo d'água", com os proprietários devendo mais do que o valor de suas casas.

Por último (inclusive em grau de importância), para a maioria dos norte-americanos - embora a magnitude dos acontecimentos foi grande no caso dos recursos empregados em aposentadorias, para não falar dos comentaristas econômicos da TV - essa foi uma década de ganho zero no mercado de ações, mesmo sem considerar a inflação. Alguém se lembra de todo aquele entusiasmo quando o índice Dow bateu 10.000 pontos e grandes sucessos de vendas como o livro "Dow 36.000" previram que os bons tempos simplesmente continuariam fluindo? Bom, isso foi em 1999. Na semana passada o mercado fechou em 10.520.

Vimos muita coisa nula acontecendo em termos de progresso ou sucesso econômico. O engraçado está na forma como tudo isso aconteceu. Sim, pois no início da década havia um irresistível senso de triunfalismo econômico nas comunidades empresariais e políticas dos Estados Unidos, a crença de que nós - mais do que qualquer outro povo do mundo - sabíamos o que estávamos fazendo.

Quero citar um trecho de um discurso de Lawrence Summers, então vice-Secretário do Tesouro (atualmente o principal economista do governo Obama), feito em 1999: "Se me perguntarem por que o sistema financeiro norte-americano é bem-sucedido", dizia ele, "na minha interpretação da história, pelo menos, é de que não há inovação mais importante do que os princípios contábeis geralmente aceitos: isso significa que todo investidor vê as informações apresentadas em uma forma comparável; há disciplina da administração da empresa na forma de prestar contas e de acompanhar as atividades desta." Summers continua e declara que há um "processo contínuo sem dúvida responsável pelo bom funcionamento de nosso mercado de capitais, e um funcionamento estável."

Aqui temos, pois, um retrato da convicção de Summers - e, sejamos justos, de quase todo mundo em posição de autoridade naquele tempo - em 1999: a contabilidade empresarial dos Estados Unidos é honesta, por isso os investidores podem tomar decisões certas, a administração das empresas se comporta de forma responsável e o resultado é um sistema financeiro estável que funciona satisfatoriamente.

Quanto disso se mostrou verdadeiro? Zero por cento.

No entanto, o que de fato impressiona sobre a década que passou é nossa má vontade, enquanto nação, de aprender com os nossos próprios erros. Mesmo quando a bolha das empresas "pontocom" estourou, banqueiros e investidores ingênuos começaram a soprar uma nova bolha no setor imobiliário. Mesmo depois que empresas famosas e admiradas como a Enron e a WorldCom foram desmascaradas como verdadeiros Potemkins empresariais, com fachadas construídas em cima de truques urdidos pela "contabilidade criativa", analistas e investidores acreditaram no que os bancos diziam sobre sua própria saúde financeira e se deixaram levar pela histeria de investimentos que não compreendiam. Mesmo depois de terem deflagrado a derrocada econômica mundial e de terem sido salvos à custa dos contribuintes, os banqueiros não perderam tempo e voltaram à prática dos bônus estratosféricos e da alavancagem excessiva.

E não nos esqueçamos dos políticos. Mesmo agora é difícil encontrar um Democrata, inclusive o presidente Barack Obama, que critique a plena voz as práticas que nos enfiaram na bagunça que está aí. Quanto aos Republicanos, agora que as políticas de redução tributária e desregulamentação nos meteram em um atoleiro econômico, sua receita para a recuperação é: mais redução tributária e desregulamentação.

Por tudo isso, vamos dar um adeus nada caloroso ao Grande Zero, a década em que nada alcançamos e nada aprendemos. Será que a próxima década vai ser melhor? Fiquem ligados. Ah, e feliz Ano Novo!


Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 

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