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Quarta, 6 de janeiro de 2010, 08h22 Atualizada às 10h13

Apesar de tantos sinais e alertas

AFP
Equipes de resgate carregam o corpo de uma vítima na Ilha Grande, Rio de Janeiro
Equipes de resgate carregam o corpo de uma vítima na Ilha Grande, Rio de Janeiro

Marina Silva
De Brasília (DF)

No dia 12 de maio de 2009, aqui em Terra Magazine, escrevi um artigo sobre as enchentes e inundações nas regiões Norte e Nordeste do país. Junto com o texto, a chocante imagem - até então impensável para um local associado à seca - de um homem com água até o pescoço abrigando-se num telefone público.

E como era de se esperar, já que pouco ou nada de concreto tem sido feito para evitá-las, as tragédias vão se repetindo. Muda a região do país, mas permanecem as perdas irrecuperáveis de vidas, de bens materiais, de estruturas, de tudo.

A ciência tem nos alertado para os efeitos do clima. O aumento e a intensidade das chuvas na região centro-sul é claramente um dos efeitos das mudanças climáticas no Brasil. O que os modelos climáticos previam há alguns anos já está sendo observado: Santa Catarina no ano passado, e litoral sul do Rio de Janeiro neste início de ano.

Também já existem estudos suficientes sobre a maneira correta de se ocupar e de se usar o solo, sobre como e onde construir. Mas, infelizmente, tal conhecimento não tem sido utilizado estrategicamente em favor das pessoas e do próprio meio ambiente. Pelo contrário.

Apesar de tantos sinais e alertas, continuam as tentativas de se enfraquecer a legislação ambiental: no Congresso Nacional e nos Estados. São iniciativas que visam abrir brechas, fazer concessões, afrouxar os cuidados socioambientais. A justificativa continua a mesma: expandir a ocupação do solo, mesmo que de forma desordenada, seja na cidade ou nas áreas rurais.

O que se ignora é que as áreas de preservação existem para proteger a vida: a nossa e as demais. Permitem também que as outras áreas possam ser ocupadas de forma segura e produtiva, assegurando o desenvolvimento de forma sustentável.

Podemos comparar com a situação no trânsito: os faróis, redutores de velocidade, faixas e outras sinalizações não são colocadas para impedir o trânsito de carros, mas para que o controle da velocidade permita um fluxo seguro e compatível com os diversos usos das vias públicas, inclusive daqueles que não têm carro. São colocados para que mais carros possam passar, de forma organizada e segura.

Os jornais de ontem repercutiram as críticas ao decreto n° 41.921 de junho de 2009, do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, liberando construções na região da Ilha Grande, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios. O que inclui a área atingida pelos deslizamentos.

Como bem disse o vereador Alfredo Sirkis (PV-RJ), os aspectos do solo pressupõem novos procedimentos: "Isso cria uma situação nova e mais complexa para o licenciamento, pois passa a demandar um laudo geológico que calcule a capacidade de suporte da floresta naquele ângulo de aclividade. Devendo resultar em novas áreas não edificantes, o que vai num sentido contrário ao do governo do Estado do Rio".

Não é mais aceitável que os cidadãos continuem a passar por situações tão extremas e desesperadoras. Não quando se sabe que é possível fazer mais para impedir e mudar tais ocorrências. Também não é mais possível culpar o excesso de chuva, ou a força da natureza, como se suas "obras" fossem acidentais ou totalmente imprevisíveis.

É mais do que urgente repensar as políticas públicas para que contemplem todas as variáveis ambientais. Assim como a necessidade de se agregar mecanismos adicionais à atuação dos bombeiros e da defesa civil, como o mapeamento das áreas de risco, planejamento urbano, sistemas de alerta a eventos críticos, informação e treinamento para a população, de modo que possamos minimizar as perdas e atuar preventivamente.

O respeito, o cuidado, a solidariedade com as (potenciais) vítimas de tragédias ambientais começam muito antes. É no momento em que as autoridades públicas exercem seu papel com a responsabilidade que lhes é requerida, por mais resistências, pressões e até a impopularidade que possam advir. Isso é parte do preço a ser pago no exercício da boa gestão publica.


Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

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