Terra Magazine

 

Terça, 12 de janeiro de 2010, 08h11

Golshifteh Farahani: sem véu e sem censura

Fernando Eichenberg
De Paris

Golshfiteh. O nome, incomum no Irã, já começou sendo um problema. Foi uma ideia paterna, inspirada na tradução do título "A Alma Encantada", obra em sete volumes do escritor francês Romain Rolland (1866-1944). Mas como o pai era opositor do regime, as autoridades proibiram o batismo. O pai não cedeu, insistiu, e o nome ficou. "Sempre tive problemas com esse nome, é de difícil pronúncia. Engraçado, porque a República Islâmica não queria que o nome existisse, mas agora é conhecido em todo o país", diz.

Atriz, Golshifteh Farahani, 26 anos, se tornou uma estrela do cinema em seu país, o Irã. Mas o sucesso e a sua inconformidade com a rigidez islâmica dos molás e a ditadura de Mahmoud Ahmadinejad lhe causaram transtornos e a obrigaram ao exílio.

Bela - o rosto de traços ao mesmo tempo fortes e delicados -, o olhar profundo e vivaz, o sorriso aberto e os cabelos soltos, ela brincou com o pequeno gravador colocado a sua frente na mesa e se desculpou pelo atraso para o encontro marcado no café Telex, na rua de Grenelle, em Paris, próximo ao apartamento onde hoje mora. Nossa conversa foi motivada para um perfil para a revista Serafina (Folha de São Paulo) - publicado na edição de dezembro último.

Cinco dos 20 filmes em que já atuou foram censurados em seu país, mas foi a sua participação na recente produção hollywoodiana "Rede de Mentiras" (2008), de Ridley Scott, ao lado de Leonardo DiCaprio, que lhe acarretou os maiores problemas. O trailer do filme, difundido pela rede do youtube, e a imagem da atriz com os cabelos a descoberto, sem o véu, e os braços desnudos no tapete vermelho da première em Nova York, encolerizaram as autoridades de Teerã. Seu status de celebridade nacional não impediu que ao seu retorno lhe fosse confiscado o passaporte e, durante sete meses, amargasse repetidos interrogatórios.

"Você é jogada como uma bola da Corte Revolucionária Islâmica aos serviços de inteligência, cada uma das organizações querendo provar ter mais poder", conta. "Eles fazem você pacientar por longas horas, perguntam as mesmas coisas mil vezes: 'quem você conhece?, por que você fez isso ou aquilo?, comece tudo de novo, desde o início'. Por vezes estão alegres, logo depois ficam bravos; umas vezes riem, depois gritam, é todo um jogo. Tudo é horrível. Não fizeram nada comigo, porque eu já era uma celebridade, todo o mundo acabaria sabendo. Mas isso até hoje me afeta de uma maneira muito ruim", confessa.

Golshifteh foi obrigada a fugir do Irã e a exilar-se na França. Ela recorda o dia em que conseguiu burlar o controle da polícia e deixar o país: "Foi em 23 de agosto de 2008. Comecei a chorar, porque queria ficar, olhava para a minha mãe, foi muito triste. Agora que estou fora, me dou conta de o quanto você pode ser livre, para pensar, trabalhar. Os jovens aqui na França não apreciam a liberdade, não valorizam o fato de viver num país democrático. É um verdadeiro presente", diz.

No Irã, conta ela, há formas de burlar regras no dia-a-dia. Para beber álcool, há o mercado negro. Para escutar rock, há os concertos clandestinos. Na praia, as mulheres dão um jeitinho de se banhar em maiô: tiram suas roupas dentro d'água, dão a alguém para guardá-las à margem e devolvê-las antes de sair do mar. Ela mesmo fez isso muitas vezes, confessa. "Para se divertir, viver as coisas do cotidiano, dá-se um jeito. Mas para as coisas intelectuais e políticas, você não é livre, não há liberdade. Se você tem problemas com isso, eles são realmente duros, aí é bye, bye, no way. Foi aí que me dei conta: oh meu Deus, em que país eu vivo, não posso suportar isso".

A mentira é uma questão de sobrevivência no Irã, diz. É preciso mesmo saber mentir bem para sobreviver, e também mostrar de forma clara que se quer a destruição dos EUA. "É uma coisa cultural. Nós temos algo chamado tarof. Se eu pergunto: 'Você quer água?'. Você quer, mas diz 'não'. Isso está na cultura do povo. Você está mentindo todo o tempo, mas não sabe por quê".

O uso do véu, segundo ela, é um outro tipo de mentira: "No Irã, ninguém usa véu em casa, só quando sai à rua. Isso é hipocrisia. Aos seis anos, você tem de usar quando começa a ir à escola. Isso faz as crianças começarem a odiar o véu, porque o final da primavera é muito quente em Teerã, incomoda. A república islâmica tem esse plano de educar a mentalidade das crianças, mas eles falharam. Olhe para nós, todos que nascemos depois da revolução. O mundo muçulmano olha para o Irã como um exemplo, um sonho, mas eles não sabem o que acontece lá".

Apesar da pressão e da repressão, ela acusou o choque do exílio e sente saudades de casa. "Para mim, de uma certa forma, o Irã ainda é o melhor país para se viver. Lá, as pessoas têm tempo para os outros. Aqui, nesta sociedade, não há tempo. Não há tempo para humanidade. Você esquece a principal razão de viver, que é ter felicidade e alegria, e um dia, quando tiver 70 anos, vê que sό viveu para pagar as suas contas e não teve diversão na sua vida. Aqui há essa pressão do dinheiro, as coisas são caras, isso mata o dia-a-dia. É por isso que eu gosto do Terceiro Mundo. Acabei de chegar de uma filmagem na Argentina, as pessoas são pobres, mas felizes. O Brasil, provavelmente, deve ser assim também".

Filha de pai ator e diretor de teatro e de mãe pintora, Golshfiteh foi encaminhada na infância para o aprendizado da música. Aos 12 anos, estudava na Escola de Cantos Revolucionários (antigo Conservatório, rebatizado após a revolução islâmica). Para andar na rua com os instrumentos musicais em seus estojos era mesmo necessária uma autorização oficial. Mas dois anos depois, aos 14, ao fazer uma pequena participação em uma filmagem, seu destino tomou outros rumos. "Era para ter ido para Viena estudar música, mas na época vi que era o cinema que queria, que seria essa a melhor linguagem para atingir as pessoas e tentar mudar algo".

Seu último filme em farsi, "Procurando Elly" (com estréia nas salas de São Paulo em 1° de janeiro 2010), rendeu ao diretor, Asghar Farhadi, o Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim 2009. "As autoridades iranianas não queriam que eu fizesse o filme. Intimidaram e passaram recados aos responsáveis para que não me usassem. Não havia nada escrito, oficial, só falado. Mas o diretor assumiu o risco e fiz o filme. Logo depois tive de deixar o Irã", conta.

Por sua performance em "Half Moon", de Bahman Ghobadi, Golshfiteh recebeu o prêmio Concha de Ouro de melhor atriz no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián 2006 (aliás, não perca, se tiver a chance de assistir, "No One Knows About Persian Cats", de 2009, do mesmo Bahman Ghobadi, sobre a cena musical undreground de Teerã). No próximo 20 de janeiro, será lançando aqui na França o aguardado "Shirin", conto cinematográfico de Abbas Kiarostami inspirado em uma lenda do século 12, e que tem Golshifteh Farahani como uma das principais intérpretes. "Todas as grandes atrizes iranianas, através de quatro gerações, estão presentes na tela neste filme", disse o diretor.

Trabalho, por enquanto, não tem faltado para a atriz expatriada. Pelo contrário. "Tive convites dos EUA e aqui na Europa, já recusei uns vinte, não quero fazer qualquer coisa". Há pouco, ela retornou da Argentina, onde participou das filmagens de "There Be Dragons", de Roland Joffé. Seu próximo projeto será uma peça de teatro e dança com atores da Comédie Française, sobre o tema da religião e liberdade.

A música, ela também não abandonou. Acaba de lançar um cd com o músico iraniano de renome Mohsen Namjoo, de canções engajadas (à parte o fato de o canto feminino solo ser proibido no Irã, o que é mais uma forma sua de protesto no disco). Ela espera que as subversivas canções da dupla sejam pirateadas e também escutadas no Irã.

Golshifteh Farahani se diz apenas mais uma dos milhares de iranianos exilados: "Há 30 anos eram outras pessoas deixando o país. Hoje, somos a nova geração de iranianos rumo ao exílio. A liberdade tem um preço. Somos parte do sacrifício. Há todas essas pessoas que foram mortas ou que estão presas. Mas a mentira oficial, segundo ela, não poderá perdurar eternamente em seu país. "A verdade é algo pesado. Mas, hoje, ela está vindo para fora, não haverá como detê-la por muito tempo", diz, esperançosa.

Antes de encerrar nosso encontro, a provocadora atriz inverte os papéis na entrevista: "Mas eu tenho uma pergunta para você: o que você pensa de seu presidente, Lula, acolher a visita do nosso presidente, Ahmadinejad, em seu país?".


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
EDV.blogfa.com/Reprodução
Golshifteh Farahani

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