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Terça, 12 de janeiro de 2010, 08h10

Adaptação às mudanças do clima: tema para políticas públicas

Amália Safatle
De São Paulo

Que as mudanças do clima estão aí, difícil duvidar. Em que medida as mudanças são de ordem global ou local, ou de ordem local potencializadas pelo aquecimento global, são questões sobre as quais os estudiosos do clima ainda se debruçam. Em meados deste ano, pesquisadores de instituições como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Unicamp e Unesp, deverão apresentar a conclusão de um estudo sobre as vulnerabilidades das megacidades São Paulo e Rio de Janeiro às mudanças climáticas.

Algumas vulnerabilidades já se escancararam, especialmente nos últimos meses, mostrando a urgência de se estudar o assunto e se colocar em prática medidas de adaptação às mudanças do clima. Os resultados desse estudo serão farto material para guiar políticas públicas. Eis um assunto que, mais que nunca, precisa estar no radar de eleitores e candidatos este ano.

Os efeitos da ação humana no microclima, pelo menos, não encontra céticos. Suprima a vegetação, impermeabilize o solo ao máximo, espalhe fontes de calor por todos os lados (como os escapamentos dos veículos), ocupe áreas de várzea, jogue lixo nas ruas, desmate e construa nas encostas de morros: está pronta a receita para ilhas de calor, formação de tempestades com maior intensidade, alagamentos, desmoronamentos, mortes.

Desde 1932, quando começaram as medições atmosféricas em São Paulo, a temperatura na cidade já aumentou em 2,1 graus, segundo o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG). Outro dado é que 65% das enchentes em São Paulo resultam de chuvas produzidas no próprio adensamento urbano, com o encontro das brisa fria e úmida que vem do mar com as ilhas de calor da cidade.

Se tudo isso ocorrer sob o signo do El Niño, ativo desde o ano passado, e se os efeitos do El Niño forem potencializados pelo aquecimento global - que tende a intensificar os eventos extremos - as mudanças crescem em proporção, e é preciso se preparar para viver sob condições climáticas mais inóspitas.

Dados preliminares do estudo sobre as megacidades indicam que São Paulo e Rio podem ficar 4 graus mais quentes até o final do século, por conta do aquecimento global. Embora em 2009 tenha chovido muito além do normal em 2009, a umidade do ar em São Paulo e no Rio também deve ficar até 15% menor.

Adaptar-se significa, entre diversas outras providências, rever planos diretores; cumprir à risca leis que restringem a ocupação do solo; rever o traçado de estradas que passam por encostas; investir em sistemas de saúde para combater os males causados por inundações, aumentos de temperatura e queda de umidade do ar; aumentar a limpeza das ruas, reforçar defensas na orla marítima; e criar mais áreas verdes para permitir não só maior drenagem da água da chuva como uma refrigeração natural nas cidades, em combate às ilhas de calor.

Em Guarulhos (SP), que sofre com o grande adensamento e as ilhas de calor, uma lei estabelece compensações ambientais para empreendimentos que incluem criação de telhados verdes, minibosques nas dependências da empresa e projetos de arborização na cidade.

Mas, independente das políticas públicas, são muitas as possibilidades à mão do cidadão comum. Formar jardins ou plantar grama nas calçadas em lugar do cimento, revestir lajes ou telhados com grama, deixar os quintais de casa permeáveis em vez cobri-los com piso, colocar vasos de plantas em varandas, plantar e cuidar de árvores em frente a prédios e casas (alguém explica por que cimentar o solo até a base do tronco das árvores, sem deixar espaço para a entrada de água e nutrientes?).

Tudo isso ajuda a cidade a se adaptar às mudanças do clima e até minimizá-las. Ou pelos menos fazem da selva de asfalto e cimento um lugar mais agradável de se morar.


Amália Safatle é jornalista e fundadora da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Reuters
Desde 1932, quando começaram as medições atmosféricas em São Paulo, a temperatura na cidade já aumentou em 2,1 graus, segundo o IAG

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