Terra Magazine

› Terra Magazine › Mundo

Quarta, 13 de janeiro de 2010, 08h02 Atualizada às 20h29

Com Lula, há total abertura com a China, diz especialista

Eliano Jorge

Para tomar alguns minutos do tempo de Carlos Tavares de Oliveira, basta pronunciar uma palavra: "China". Mas há de se ter cuidado com o uso desta senha, que permite acesso a décadas de pesquisas.

O jornalista de 85 anos segue atarefado, produz textos, estuda. Aposentado do Banco do Brasil, trabalha como assessor de comércio exterior da Confederação Nacional do Comércio, no Rio de Janeiro.

Dos seus 15 livros publicados, sete se referem à China. De questões portuárias, trata em seis deles. Esses dois temas são suas paixões.

Veja também:
» China é maior parceiro comercial do País, revisa MDIC
» BC chinês reforça ações para enxugar liquidez no mercado
» Embaixador: "Sou de missão, não de emprego"
» Siga Bob Fernandes no twitter

Ele é membro fundador do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia Pacífico (Ibecap). A oportunidade de falar do Dragão Vermelho fez Tavares atender a Terra Magazine.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil, após ultrapassar Argentina e, em seguida, EUA. "É o principal parceiro do Brasil e a maior potência de comércio internacional desde 2008, não é de agora não. Porque a ignorância aí, a imprensa, não conta nas estatísticas Hong Kong e Macau, que são regiões chinesas", reclama o sinólogo.

Ele atua no comércio exterior desde 1943, quando entrou no Banco do Brasil. "Estou trabalhando há 67 anos, ininterruptamente, nunca me afastei disso. Morei quatro anos em Paris, representando o Brasil na Câmara de Comércio Internacional, me aprimorei mais ainda. Realmente gosto muito do assunto. Você só pode entender de qualquer coisa na vida se você se especializar".

Em seguida à lição, dá o exemplo: "Tenho que ler todo dia (sobre a China) porque eles mudam todo dia. Se você não se dedicar, não aprender e não procurar o que está acontecendo, fica por fora".

Em 1969, diz, assinou a primeira coluna do País sobre comércio exterior, em O Globo. "Durou 15 anos", frisa Tavares.

"Fiz o primeiro artigo sobre a China em 1971, 'O comércio exterior da República Popular da China', na revista especializada da Confederação Nacional do Comércio. Depois disso, escrevi uns 500 artigos e reportagens (sobre o país). Só para O Globo, foram duas séries de uma página inteira, em 1990 e 1992", desfia sua experiência.

E, surpresa, não se arrisca no idioma mandarim: "Não, isto é muito complicado, chega! Falar português já é difícil, mudam a ortografia toda hora! Já falo francês e inglês".


Carlos Tavares entrega um de seus livros ao presidente da República: "Com Lula, o Brasil está ótimo nas relações com a China" (foto: Ricardo Stuckert/divulgação)

Entre dois polos

Questionado sobre a posição ideal do Brasil no anunciado cenário de polarização entre as superpotências China e EUA, Carlos Tavares evita receitas e elogia a estratégia atual.

"Minha posição é a favor do Brasil. Não sou a favor nem da China nem dos EUA. No confronto entre os dois, acho que a China está com a razão. Mas, entrando o interesse do Brasil, sou a favor do Brasil", declara. "Por enquanto, nosso grande parceiro é a China. Está comprando cada vez mais (produtos brasileiros)".

É total sua aprovação para as trocas comerciais com os chineses, que movimentam 36 bilhões de dólares. O variante saldo favoreceu o Brasil em 4,28 bilhões de dólares no ano passado, pelas contas do Ministério do Desenvolvimento, Economia e Comércio Exterior.

"O Brasil está bem, agora com o presidente Lula. Ele entende, já foi à China três vezes e parece que vai agora novamente. Com o Lula, está muito bem. Ele está ótimo. Abertura total. A China está fazendo empréstimo de 10 bilhões de dólares agora à Petrobras para o pré-sal, o Brasil vai exportar 100 mil barris por dia, do petróleo pré-sal. Esse dinheiro vai ser pago em exportação de petróleo. Pronto, ótimo. Excelente negócio", analisa o especialista.

Barreiras culturais

Apesar do estreitamento das relações recentemente, Tavares identifica "um preconceito terrível contra a China" no Brasil. "Ninguém quer saber, é uma pena, mas vamos lutar. Sigo Confúcio: aprender para divulgar", recorre ao sábio chinês.

Tavares aponta motivos para a resistência de brasileiros ao país asiático: "São várias coisas. Por exemplo, 95% dos chineses não acreditam em religião. Aqui é o contrário, 95% acreditam - eu estou entre os 5%. Depois vem a questão política. Direitos humanos, aqui, são política, palanque. Na China, direitos humanos são, primeiro, saúde, educação, alimentação, vestuário. É diferente, outra cultura. Eles têm 8 mil anos".

As disparidades, afirma, vêm desde os primórdios nacionais. "Em 1500, quando o Brasil foi descoberto, nossas tribos eram canibais, comiam uns aos outros aqui no litoral, todos nus. A China já tinha inventado o papel, a pólvora, a bússola, a cerveja, o vinho, o futebol, isso tudo. Veja que diferença cultural. Estamos um pouco atrasados, mas vamos chegar lá. Vai demorar muito", prevê Tavares.

"Uma vez perguntei ao embaixador quanto tempo ia demorar para o Brasil compreender a cultura chinesa, ele me falou: 'Ah, eu calculo uns 50 anos'. Eu fico alucinado que vou estar fora disso", diz, insatisfeito com o atraso. Sem sua contribuição, todavia, demoraria aida mais.

Por enquanto, ele festeja outra contribuição, a de integrante do Conselho Fiscal da Confederação Brasileira de Desportos durante as façanhas de Pelé e Garrincha. "Fui tricampeâo do mundo, tenho lá meu diploma", alardeia, orgulhoso. E apressa a ressalva: "Fui cartola, mas nunca viajei por conta da CBD".

Vaticínio americano

O gigante oriental passou a chamar a atenção de Carlos Tavares no final da década de 1960.

"Os EUA, quando criaram (a denominação para) os países emergentes, disseram que a China seria a superpotência do século 21. Eu estive lá, em 1967, a convite do governo americano e recebia sempre a revista oficial deles. Como eu via muito interesse dos EUA na China, eu comecei a me interessar também", lembra.

"Porque achei o seguinte: se é bom para os EUA, deve ser bom para o Brasil", brinca com a famosa frase que vitimou o próprio autor, Juracy Magalhães, antigo embaixador em solo americano.

"Comecei a me interessar pela China, a estudar, a ler. Morei quatro anos em Paris, e lá tem muita divulgação da China, três museus sobre ela. Aqui não tem nenhum", queixa-se.

Naquela época, a economia nacional superava a chinesa. "Ah, sim, completamente! Em 1978, quando o Deng Xiaoping abriu o comércio internacional, o Brasil exportava mais do que a China, estava à frente. Hoje, os chineses exportam 10 vezes mais. O Brasil, 150 (bilhões); a China, um 1,5 trilhão. Antes, era 20% menos", compara Tavares.

Os primeiros sinais de avanço do Dragão Vermelho foram captados e bem empregados: "Senti que a China crescia muito e estava havendo um destaque. Passei a me identificar com os chineses, fiquei amigo do embaixador, do cônsul aqui no Rio de Janeiro, ele hoje está em Pequim, ainda ontem recebi um e-mail dele, nos correspondemos, nos falamos sempre".

Para Carlos Tavares, a revolução econômica chinesa se baseia em comércio exterior, educação e reforma agrária. "Foi a abertura do comércio internacional, foi tudo o que Deng Xiaoping fez, a educação principalmente. Lá, com 1,3 bilhão de pessoas, não tem analfabeto mais. Aqui, no Brasil, temos 20% de analfabetos e mais 20% de semianalfabetos", lastima.

 
AP
Lula em uma das visitas oficiais à China

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol