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Sexta, 15 de janeiro de 2010, 09h03 Atualizada às 09h34

Ex-comandante da Minustah:Ajuda eficaz é melhor que dinheiro

Eliano Jorge

Com a experiência de ter comandado a Missão de Paz no Haiti, entre janeiro de 2006 e janeiro de 2007, o general José Elito Carvalho Siqueira tomou a iniciativa de aderir às operações de ajuda ao país arruinado pelo terremoto de terça-feira, 12. Atual secretário de Ensino, Logística, Mobilização, Ciência e Tecnologia, do Ministério da Defesa, ele alerta para a importância da coordenação do auxílio internacional.

- Isso é mais importante do que apenas um valor financeiro - frisa, em referência às centenas de milhões de dólares doadas por diversos países.

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"O que precisa, e realmente lá a Missão de Paz e as autoridades sabem, é que haja uma coordenação, uma integração de planos, de ideias e de prioridade, para que aqueles recursos, aquelas ajudas tenham resultados positivos e rápidos como a população e o país necessitam", avalia o general sergipano.

Siqueira explica que não há solução-padrão dos militares para os dias seguintes à catástrofe. "Nas primeiras 72 horas, a prioridade total tem que ser (amenizar) o sofrimento daquelas pessoas, sem deixar de ter o foco na segurança".

Há quatro anos, ele substituiu o general Urano Teixeira da Matta Bacellar, que foi encontrado morto num hotel haitiano. Chegou a poucos dias da eleição do presidente René Préval.


General José Elito Carvalho Siqueira comandou
a Missão de Paz no Haiti durante um ano (foto: Reuters)

Embora evite números, Siqueira calcula que a Missão de Paz necessite de uma a duas décadas para deixar o Haiti. E não altera a estimativa por causa do violento tremor. A participação brasileira, porém, não precisaria ser tão extensa: "A presença do Brasil é uma decisão política, mas a presença da ONU eu creio que seria nessa faixa de 10 a 20 anos".

Ele destaca o papel verde-amarelo. "A liderança do Brasil na Missão é espontânea e autêntica porque foi se conseguindo nos últimos cinco anos pelos resultados, pela competência, pela motivação, pelo comprometimento", justifica. "Acho que deve ser mantida, seja numa situação crítica como esta, seja em outra qualquer".

Confira a entrevista.

Terra Magazine - De que forma o senhor tem participado das operações de ajuda ao Haiti?
José Elito Carvalho Siqueira -
Estou ligado ao assunto Haiti por razões óbvias da experiência e do fato de ter sido Force Commander. Mas, dentro do Ministério da Defesa, temos o Estado Maior da Defesa, que é uma outra secretaria, do mesmo nível da minha, e que é, desde que começou a missão, junto com o Comando de Operações do Exército e da Marinha, responsável pela rotina e pela execução da missão. Como somos assessores diretos do ministro e pelo fato de ter vivido a experiência do Haiti como Force Commander, nós participamos diretamente das reuniões, em algumas observações, até mesmo porque conheço muitas das pessoas que ainda estão lá. Foi uma cooperação espontânea.

Que orientações o senhor fez?
Isso não é um assunto novo. Você viu aí, na imprensa como um todo, que todos os países do mundo já naturalmente, espontaneamente, estão vendo isso. O que precisa, e realmente lá a Missão de Paz e as autoridades sabem, é que haja uma coordenação, uma integração de planos, de ideias e de prioridade, para que aqueles recursos, aquelas ajudas tenham resultados positivos e rápidos como a população e o país necessitam. Isso é mais importante do que apenas um valor financeiro.

Há relatos de caos, polícia reprimindo saques, falta de alimento e água, serviços básicos interrompidos, a infraestrutura básica já era precária. Que medidas urgentes podem ser tomadas lá e como o senhor imagina que sejam estes momentos iniciais?
Depois de um problema como esse, de uma situação tão catastrófica, não há uma solução-padrão. Nas primeiras 72 horas lá, a prioridade total tem que ser (amenizar) o sofrimento daquelas pessoas, sem deixar de ter o foco na segurança. As Forças (de Segurança) têm isso em seus planejamentos e certamente estão executando. É claro que esta situação de segurança está 24 horas no ar porque isto é o papel principal da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), a segurança e a estabilidade do país. Fica muito difícil, em qualquer situação como essa, ter uma condição perfeita porque, nessa conduta, você não pode deixar de prover a segurança nem a ajuda humanitária para centenas de milhares de pessoas. Eu diria que ainda é muito cedo para dizer como fazer com situações que estarão aparecendo.

Em relação ao furacão que atingiu o Haiti em 2008, que experiência pode ser usada agora? E qual é a diferença entre os dois desastres?
A diferença é bem nítida na antecipação dos fatos. Na época em que estávamos, tivemos um furacão de menor intensidade. Houve um forte antes e outro depois. Mas o furacão destaca-se principalmente pela previsibilidade. Então, você acompanha, pelo satélite e pelas informações, a tendência, o desvio, a intensidade. Facilitava a vida de todos nós e da população. Isso dá a todos um tempo de reação, coisa que, dois dias atrás, o Haiti não teve. Essa é a diferença básica, além do que o furacão não passou em Porto Príncipe de uma forma tão forte. É uma cidade de 3 milhões de habitantes, maior do que Porto Alegre e Salvador em população, e num nível de vida abaixo da média. Então, as consequências são sempre piores numa situação dessa (ocorrendo na populosa capital). O furacão foi fortíssimo, e não se pode prever.

Que características do Haiti - como a geografia ou hábito da população, por exemplo - podem dificultar ou facilitar a situação depois do terremoto?
Qualquer situação em Porto Príncipe é sempre mais complicada do que outro lugar do Haiti por causa da grande concentração de população. Quase metade dos habitantes mora na capital, onde mais de 60% das casas não tem água nem luz, existem áreas muito pobres. Até mesmo na normalidade, a situação não é muito boa. Estava melhorando, estávamos todos muito motivados e felizes por ver as oportunidades aparecendo. Mas é uma coisa lenta, ao longo de alguns anos. E, de repente, acontece isso, que nos deixa muito tristes. Qualquer problema no Haiti é sempre um pouco mais complicado, principalmente em Porto Príncipe porque é uma grande capital e com dados de infra-estrutura abaixo da média desejada.

Como fica essa responsabilidade de o Brasil liderar uma nova reconstrução do país?
A Missão tinha representação de cerca de 20 países, com tropa ou sem tropa. Por exemplo, os EUA têm dois, três ou quatro oficiais de Estado Maior, mas não têm tropa. Já Nepal, Sri Lanka, Jordânia e Brasil têm Estado Maior e tropa. A liderança do Brasil na Missão é espontânea e autêntica porque foi se conseguindo nos últimos cinco anos pelos resultados, pela competência, pela motivação, pelo comprometimento. Mas é um trabalho de todos, são 7 mil homens de 20 países. Então, a liderança veio, ao longo do tempo, se consagrando, e acho que deve ser mantida, seja numa situação crítica como esta, seja em outra qualquer.

O senhor calcula que será necessário a missão da ONU ficar mais quanto tempo no Haiti?
Tempo não é uma boa medida. Mas, um país em crise - como o Haiti ou qualquer outro país pobre, em que se perderam gerações de estudos, saúde e desenvolvimento - normalmente é em torno de uma geração para você recuperar, para educar uma criança e ela passar a ser um adulto. Normalmente, de 10 a 20 anos, digamos assim - para tornar em tempo, mas isto não é matemática -, é o que talvez precisasse para aquele país tivesse sua infraestrutura para ir à frente com seus próprios meios. A presença do Brasil é uma decisão política, mas a presença da ONU eu creio que seria nessa faixa de 10 a 20 anos.

E depois do terremoto?
Eu continuaria com esta mesma ideia porque é uma crise de uma forma diferente da anterior, mas os problemas, as prioridades da população, o seu bem estar, a saúde, continuam, só que agora agravados, claro. Isto vai depender não da missão, vai depender de todos; da cooperação dos países; dos recursos que têm que ser dados ao Haiti para que ele possa se reestruturar; da criação de casas, de infra-estrutura de água, de luz... Um trabalho enorme que não é da Missão de Paz, que está lá para garantir ao país uma segurança, uma estabilidade de seu povo e de suas instituições para que os investimentos e o desenvolvimento possam acontecer. Isso, certamente, agora vai ter que continuar tão importante quanto antes ou até mais, com essa situação crítica.

 

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