Terra Magazine

 

Sexta, 22 de janeiro de 2010, 08h14 Atualizada às 10h26

Juliana Ribeiro: "Com muita honra, sou cantora popular"

Claudio Leal

Com frequência folclorizada pela mídia nacional (por vezes amparada em subsídios publicitários do governo do Estado), a cultura baiana tem a cantora Juliana Ribeiro como uma das correntes mais maduras do encontro entre tradição e modernidade. Com 31 anos, ela integra uma geração de cantoras não seduzidas pelas sereias da padronização musical florescida nos anos 90, em Salvador. Pesquisadora do mestrado de Cultura e Sociedade, na Universidade Federal da Bahia, procura definir-se no início do papo: "Sou cantora popular, é assim que me mantenho, com muita honra e dignidade."

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A pesquisa universitária vem nutrindo sua carreira artística, numa fusão de ofícios que resgata compositores históricos como Xisto Bahia (1841-1894), o autor de "Isto é bom". No faro da cantora, lundus, macumbas, maxixes, sembas angolanos, vissungos e sambas-de-umbigada. Juliana Ribeiro acredita na capacidade de ritmos fundadores preservarem seu frescor. No palco, ela une a influência de Clementina de Jesus a uma certa brejeirice de Carmen Miranda - captada pela brilhante fotógrafa Sora Maia no retrato abaixo.


A cantora Juliana Ribeiro (Sora Maia/Divulgação)

Nesta entrevista a Terra Magazine, Juliana defende a atualidade do cancioneiro:

- As pessoas cantam Xisto Bahia, tranquilamente. Pelo menos aqui em Salvador, "Isto é bom" virou hit. Uma coisa impressionante: a música de 1880 virou hit em 2009, 2010. Você mostra que a música rompe com a questão do tempo... Independentemente de o lundu não ter a mesma célula rítmica que o samba, é a construção primária disso. A celula rítmica do samba destrincha o lundu.

Atualmente, ela apresenta a série de quatro shows "Cantando com os compositores" no restaurante Tom do Sabor, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Nesta sexta, a partir das 21h30, realizará o terceiro espetáculo, com Edil Pacheco e Mateus Aleluia. Antes disso, se apresentará no Projeto Música no Porto, às 18h. Semana que vem, cantará com Roque Ferreira e Gal do Beco, dois membros da dinastia do samba baiano. Em fevereiro, o carnaval.

Juliana Ribeiro lançou seu primeiro EP (Extended Play) em 2009 (confira o My Space da cantora). Para o início de 2010, articulou o projeto em que divide o palco com os seus compositores.

- Idealizei quando percebi que havia uma falta de identificação do público, de uma maneira geral, com as canções que fazem sucesso e o compositor. As pessoas associam a canção ao intérprete, sempre. Não conseguem perceber que existe um compositor por trás.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - Como você tem vinculado sua pesquisa sobre música popular brasileira aos seus shows?
Juliana Ribeiro - Estou fazendo agora um show de verão, onde uno dois outros shows meus: o de lançamento do meu EP (Extended Play), em maio, e "De areia". Uma proposta mais dançante dentro do meu repertório. O meu trabalho se faz presente em todos os shows, é óbvio. Faço pesquisa, sou mestranda da pós-graduação de Cultura e Sociedade, da Faculdade de Comunicação da Ufba (Universidade Federal da Bahia). Lá, nesse curso, eu trabalho com os sambas dos anos 50, da Rádio Nacional, do programa chamado "Quando canta o Brasil", que é meu objeto de pesquisa. Bom deixar claro que o meu mestrado foi consequência do meu palco. Comecei a trabalhar com música desde 2001, quando fui estudar. Desde então me envolvi com a música popular. Hoje minha pesquisa é sobre o samba, especificamente. O pesquisador tem que ir afunilando...

"O recorte", como dizem na universidade.
É. Essa pesquisa que faço hoje, que é meu show, foi iniciada em 2005. Quando fui pra Unicamp, eu já tinha formação em canto lírico na Bahia. Na época, era a Ufba que nos fornecia a formação técnica. E aí fiquei muito inquieta de ser uma cantora popular, mas com a questão vocal, a fisiologia vocal voltada para os exercícios líricos, a empostação lírica. Fiquei com aquela pulguinha: "Não, eu quero estudar canto popular!". As pessoas me diziam: "É a mesma coisa, a técnica é uma só". Não é. Bidu Sayão não canta igual a Elis Regina. Fui pra Unicamp, como aluna do curso de canto popular. Lá, eu tinha que fazer um trabalho de conclusão de curso. Ficou para mim um seminário sobre quatro vozes dos anos 30: Aracy de Almeida, Mário Reis, Carmen Miranda e Orlando Silva. Fui para a fonoteca da Unicamp. Maravilhosa, deslumbrante! Minha vida acabou sendo aquela fonoteca. Descobri uma série de outras coisas que me encantaram tremendamente.

O que lhe encantou, por exemplo?
Foi aí que eu descobri o lundu, uma manifestação do século 18 e mais do século 19, que inicia os ritos das danças de roda, da manifestação da cultura popular, do duplo sentido nas letras. É a nossa primeira manifestação brasileira. Uma manifestação mestiça, não vamos pensar só em África. Aí a gente já está pensando em Brasil. O lundu tem uma inflência forte do fandango, que é uma manifestação espanhola. E tem a viola, que entra depois e é portuguesa, vem da referência árabe. É uma manifestação brasileira. E descobri o maxixe...

Sim, e você gravou "Isto é bom", de Xisto Bahia.
Gravei. Uma composição de 1880. Foi a primeira música gravada no Brasil pela Casa Edison, em 1902. Xisto já estava morto. Descobri maxixe, lundu, batuques, algumas coisas de macumba, e aí vim pra Salvador querendo fazer um show, em 2006. Mas as coisas não como a gente quer, são como tem que ser (risos). Esse show terminou se "redesdobrando" e começou o mestrado. Sou historiadora de formação. E pensei: "Eu gosto disso, por que não estudar samba na academia?". Vamos ver se dá certo. Fiz o projeto e passou num mestrado que é muito enriquecedor, porque é multidisciplinar, na Faculdade de Comunicação. Fui aprofundando, a gente não para de pesquisar nunca. Descobri depois os vissungos, que estavam em meu show de 2009, de lançamento...

E seu show no jardim do Museu Rodin Bahia, em 2008? Já foi dentro desse projeto?
Não, ainda não era o show de lançamento. Foi antes do EP. Ali eu estava no processo de construção do CD, gravando.

Você terminou com "Batuque na Cozinha", de João da Baiana.
Isso, e depois de "Batuque" eu faço outra de João da Baiana, que agora caiu em domínio público, uma macumba. Está gravada em meu EP. Gostar de cantar essas coisas, porque é daí que a gente vem, né?

Como foi sua experiência com a canção popular? O que você ouvia?
Essas pesquisas vêm em paralelo com meu trabalho de cantora. Vivo de música. Esse ofício de cantora eu aprendi muito na prática, desde 2001. Sou cantora popular, é assim que me mantenho, com muita honra e dignidade. A academia vem como apoio ao meu canto. O foco não é bem esse, não. Minhas referências de música são vastíssimas. Estudo ouvindo jazz instrumental. Adoro. Tenho referências de mulheres muito fortes. Rita Lee é minha referência primeira, quando eu tinha quatro anos de idade. E me marcou por ser uma cantora e compositora com uma proposta clara. Tenho referências como Elis Regina, Maria Bethânia. Atualmente, de uns dois anos pra cá, Clementina de Jesus, que é a figura que mais se aproxima do meu trabalho. Clementina é uma pessoa que consegue botar no palco, em três minutos, trezentos anos de história. Ela me traz, nos anos 70, uma ancestralidade para a modernidade. Isso é assustador, impressionante.

Mônica Salmaso também se refere a ela como uma influência.
Ela gravou...

No disco "Iaiá", "Moro na roça".
É, lindo, lindo aquilo. Eu vejo muito nisso a historiadora. É um processo de atemporalidade. As pessoas cantam Xisto Bahia, tranquilamente. Pelo menos aqui em Salvador, "Isto é bom" virou hit. Uma coisa impressionante: a música de 1880 virou hit em 2009, 2010. Você mostra que a música rompe com a questão do tempo. A música identitária, que eu me proponho a fazer, que vem da senzala... Independentemente de o lundu não ter a mesma célula rítmica que o samba, é a construção primária disso. A celula rítmica do samba destrincha o lundu. "Pelo Telefone", de 1917, é um samba amaxixado. A célula do maxixe está na gravação. Até vir a galera da Estácio de Sá, em 1928/29, que muda a celula rítmica com a questão das escolas de samba.

Com Ismael Silva.
Newton Bastos, Ismael, Bide, que inventa o surdo. Essa galera cria uma nova possibilidade de caminhar enquanto se canta e se dança o samba. Daí a mudança rítimica do samba que se estiliza e sai dos morros. Nos anos 30, ele ganha outro formato. Vai pro disco, pra gravadora, entra nas rádios, vem caras geniais como Noel Rosa, vem Chico Alves, etc. Mas o que eu pesquiso muito é o que precede o samba. Não que não tenha samba em meu repertório. Tenho. As pessoas me veem muito como cantora de samba. Acho que sou uma cantora de música popular. Como nesse momento eu pesquiso o samba, ele é meu foco, por mais que faça o maxixe, o vissungo, que é um cântico com um dialeto, uma outra língua falada no Brasil. Até hoje ela ainda é falada. O vissungo era uma forma que os negros tinham de se comunicar entre si e que o senhor não entendesse. Misturava as diversas línguas de matrizes africanas com o português. Quando Clementina faz (canta):

"Muriquinho piquinino
Muriquinho piquinino
Oi parente, de quissamba na cacunda
Purugunta aonde vai
Purugunta aonde vai
Oi parente, pru quilombo do Dumbá"

...Você ouve palavras de português, mas ouve muita coisa que não identifica. Era uma língua de gueto e isso vira música. Graças a Deus que Clementina gravou! E isso chegou até mim.

Você chega ao samba do Recôncavo baiano?
Chego, porque ele é uma matriz, que está lá no século 19, em Santo Amaro da Purificação. A gente não pode esquecer que a comunidade que leva o samba para o Rio de Janeiro é baiana. Esse samba do morro é da comunidade baiana, negra. E eu falo também do samba de umbigada, a brincadeira da umbigada. Canto de compositores atuais. De Reginaldo Souza, faço "Lição de Vida", uma composição que é a quinta música do meu EP, uma mistura de samba de roda com samba de caboclo, como a gente chama aqui na Bahia. A música já nasceu assim, não foi só um arranjo meu. Muito bacana porque tenho muito respeito à manifestação, não só ao ritmo. O samba de umbigada tem a capacidade de agregar e igualar as pessoas. Nossa samba tem essa diferença, que é a roda. Todo mundo pode entrar, pode sambar. No Rio, eles sentam e ao redor vai criando a roda dos espectadores. Aqui, claro que tem uma hierarquia das senhoras, das mães, que têm que sambar primeiro. Mas, a partir daí, se ela deu uma umbigada, meu amigo, entre pra sambar! Isso faz parte do repertório. No show de teatro, não tem, mas no show de verão eu faço uma homenagem. No final da minha apresentação, eu tenho 15, 20 minutos só de samba de roda. Faz uma roda enoooorme.

E disco gravado?
Gravei um só, um EP. Gravei outras coisas, mas não com o nome "Juliana Ribeiro". Gravei as Filhas de Gandhy. Juliana Ribeiro gravou um EP, são seis canções. Inicialmente, era promocional, mas existiu uma demanda grande do público. "Quero comprar...". As pessoas me cobravam demais. Participei de todos os editais, pra gravar um CD...

Como isso circula?
Acabei comercializando a preço popular. Porque as pessoas me pediam. Tudo tem seu tempo. O tempo de Juliana Ribeiro, em 2009, era lançar o EP. Era o viável, o possível, com o apoio de Wesley Rangel, da WR. Ele me deu um apoio genial. Tem que ser falado porque é um grande cara, tem um coração muito grande.

As rádios tocam?
A gente tá crescendo bastante nisso. Temos a Educadora, que é uma grande parceira. A Educadora e a TVE são parceironas. Tem o trabalho de divulgar a cultura no Estado que é genial. Começa com eles, que nos divulgam, e a partir daí tá crescendo, ganhando visibilidade. As outras rádios, de caráter privado, têm me pedido muito material. Não vou me submeter a certas coisas. Isso vem por conta do público.

Na Bahia, tem havido diversificação musical nos últimos anos?
Vejo, sabia? Por exemplo, vou fazer o Carnaval. Tenho feito há três anos. Essa possibilidade de fazer o Carnaval vem muito por conta do pensamento de diversidade. Isso é novo. Não vou entrar em questão de partido, mas isso é um mérito. Pensar na diversidade, o PT tem feito isso, e agregar ao carnaval. É uma festa linda, eu não tenho absolutamente nada contra o carnaval. Mas fica muita coisa de fora. Isso é um pecado para a Bahia, que tem tantas manifestações culturais. Quero ver um carnaval que tenha terno de reis, como a gente já teve. Nesse sentido, a Fundação Cultural abre os editais e tem passado muita coisa bacana. Ano passado, nós tivemos os Novos Baianos. Tem que abrir. O pensamento tem que ser esse, o mundo é diverso.

Em seus últimos shows, você divide o palco com os compositores. Como é esse projeto?
O projeto é "Cantando com os compositores". Idealizei quando percebi que havia uma falta de identificação do público, de uma maneira geral, com as canções que fazem sucesso e o compositor. As pessoas associam a canção ao intérprete, sempre. Não conseguem perceber que existe um compositor por trás. O compositor passa despercebido. A ideia não era eu cantar a música desses compositores, mas dar o palco pra esses caras, para que as pessoas associassem a imagem do compositor à canção de sucesso. Um caminho direto. Pensei nesse projeto como uma relação identitária. Walmir Lima já está chegando aos 80 anos. Tem que ter esse cuidado com a memória. No Brasil, as pessoas só são homenageadas quando morrem. Não quero fazer homenagem póstuma. Quero fazer homenagem em vida. Batatinha era um gênio. Hoje ele é um mito na Bahia, mas morreu com dificuldades financeiras. Vamos dar espaço, trazer esses caras para o palco. Eu tive J. Velloso e Reginaldo Souza. Na segunda noite, Walmir Lima e Walter Queiroz. Nesta sexta, Edil Pacheco e Mateus Aleluia. Na última noite, tenho Roque Ferreira e Gal do Beco, que não é compositora, mas eu fiz questão de ter em meu projeto. Porque o Beco de Gal é o espaço onde as composições desses casas são divulgadas. Gal merece isso. Se não tivesse o espaço de Gal, quem iria conhecer as canções de Nelson Rufino? Vamos juntar isso aí. Graças a Deus, o "Cantando com os compositores" tem tido uma repercussão ótima. Fico feliz de fazer com que essa mensagem chegue ao público.

 

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