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Terça, 26 de janeiro de 2010, 07h56 Atualizada às 11h39

O homem das mulheres

Paulo Rebêlo/Reprodução
Crônica de Paulo Rebêlo: Você passa dos 30, dos 40, mas continua sentando no bar com aqueles antigos homens das mulheres. Pouca coisa mudou na vida ...
Crônica de Paulo Rebêlo: "Você passa dos 30, dos 40, mas continua sentando no bar com aqueles antigos homens das mulheres. Pouca coisa mudou na vida deles"

Paulo Rebêlo
De Brasília (DF)

Alguns homens nascem virados para a lua, outros para a mesa de bar.

Desde muito jovem, nunca entendi como era possível existir homens os quais as mulheres sempre corriam atrás, enlouquecidas, como se eles fossem a última coca-cola no deserto ou a bala que matou Kennedy.

Eles não precisam falar nada, não são os mais bonitos e nem os mais inteligentes. Apenas nasceram virados para lua ou com o gene do Zé Mayer.

Para os demais mortais, nós, restava apenas um pouco de inveja. Afinal, mulheres lindas são sempre mulheres lindas, por mais bem casado que você esteja e por mais linda que seja a sua fofinha.

Esses caras abençoados conquistam as mulheres mais lindas sem o menor esforço. Tanto faz se eles são advogados ricos ou bandidos, com ou sem redundância. Elas parecem não se importar.

E o que dá mais raiva é que eles nem precisam fingir que gostam de teatro, artes plásticas e comédias românticas.

Nossa única vantagem é que não precisamos mais do que três doses de uísque para transformar em alívio toda a inveja universal.

Você senta ao lado de um homem das mulheres para, antes da terceira dose, perceber como é tecnicamente impossível estabelecer um diálogo concatenado, minimamente coeso.

A conversa se restringe geralmente a apenas quatro assuntos: futebol, mulheres bonitas, pensão alimentícia e esposas ingênuas. Por terem nascido virados para a lua, aparentemente só eles ainda acreditam em esposas ingênuas.

Nenhum dos quatro assuntos nos interessa.

O único futebol que a gente entende é o de botão.

Mulher bonita a gente nem lembra quando foi a última vez que saiu com uma. Aliás, a gente prefere não lembrar sequer da última mulher com quem saímos, porque quando lembramos parece filme de terror.

Pensão alimentícia a gente não sabe o que é porque não perdeu tanto tempo da vida fingindo que gosta de teatro e artes plásticas para elas acharem que somos cultos e inteligentes.

E esposas ingênuas, ah, de tanto virar a noite no bar a gente termina encontrando com várias dessas esposas ingênuas que adoram nos preparar café da manhã no dia seguinte quando o marido está viajando.

E o café da rua nunca é igual ao café de casa, você sabe.

Na juventude, enquanto a gente e enchia a cara de Rum Montilla e Coca-Cola na praia, numa época na qual ninguém falava em protetor solar ou câncer de pele, esses homens das mulheres estavam nas festinhas, nos clubes e nos bailinhos treinando a arte da conquista. No máximo, aceitavam um copo de cerveja para fazer pose.

Eles chegavam em casa crentes de que poderiam escolher, entre várias opções, a companhia para o final de semana seguinte. O problema é que a companhia do final de semana, nove meses depois, se tornava a companhia para o resto da vida.

Enquanto nós, coitados, chegávamos em casa cientes de que ficaríamos o dia seguinte todo de ressaca tomando refresco de maracujá e remédio para dor de cabeça para conseguir jogar sinuca à tarde.

Um cartunista, certa vez, disse que aos 18 anos você se pergunta quem é que está dormindo com todas essas mulheres lindas, solteiras e disponíveis. Depois dos 30 anos, você percebe que é você que está dormindo com elas e ainda não se deu conta.

É mais ou menos por aí.

Você passa dos 30, dos 40, mas continua sentando no bar com aqueles antigos homens das mulheres. Pouca coisa mudou na vida deles. Continuam sem ter sequer uma história interessante para contar. Uma viagem, um experimento, uma invenção, uma demissão por ideologia, às vezes nem um acidente de bicicleta os caras têm.

Com o tempo, a gente começa a entender que nós, os patetas, é quem fazemos o mundo girar.

Se não fosse a gente para ir aonde ninguém vai (sem trocadilhos), sem se preocupar em ter emprego fixo, perder a barriga, pagar pensão e cuidar da pele, as pessoas teriam muito menos histórias para ler, as mulheres feias teriam muito menos histórias para ouvir e as esposas ingênuas teriam muito menos motivos para beber quando o marido viaja.

A gente só lamenta ter esperado tanto para entender que todas aquelas mulheres estavam ali, sempre estiveram, ao nosso alcance.

Só a gente não sabia, preocupados demais em saber o segredo de como chegar até elas. Porque, diferentemente dos conquistadores das mulheres, tudo que a gente precisava fazer era abrir a boca. Para falar. Conversar qualquer coisa.

Passa universidade, trabalho, mestrado, doutorado, o escambau, a gente olha para as mulheres ao nosso redor e aquelas mais lindas continuam lindas, as burras continuam burras, as interessantes continuam interessantes. Com um pouco mais de rugas, claro. De resto, tudo igual.

E aí você não sente mais inveja de ninguém, só acha ruim ainda não ter aprendido a (fingir) gostar de teatro, artes plásticas e comédia romântica.

E talvez do Sex and the City também.


Paulo Rebêlo é jornalista, cronista e consultor.Para saber mais sobre ele, clique aqui . Para ler as crônicas antigas da Hipopocaranga, clique aqui .


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