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Quinta, 28 de janeiro de 2010, 08h29 Atualizada às 13h53

Maga diva

Ceci Alves
Salvador (BA)


Margareth Menezes (foto: Onofre Veras/AgNews)

Com a proximidade do Carnaval, esta coluna também ganha um aspecto festivo. E, como eu estou na Bahia, falarei (inescapavelmente) nesta e nas próximas colunas até o fim do reinado de Momo, de artistas e assuntos concernentes à folia baiana. Para começar, um perfil da cantora e compositora Margareth Menezes, que começa assim:

A cantora baiana Margareth Menezes é uma diva da folia. E, como toda diva que se preza, está sempre envolta num charme misterioso, numa atmosfera esconder-mostrar da qual raramente ela sai para se expor. Não porque seja metida a besta. Tímida aos extremos, mas poderosamente talentosa - e ciente deste talento - Margareth, ou Maga, como a imprensa baiana se acostumou a chamá-la, está sempre envolvida com alguma coisa inovadora, interessante e/ou de vanguarda. Pode reparar.

Foi, na década de 90, a pioneira do que se conhece hoje como ensaio das bandas baianas para o Carnaval. Descoberta por David Byrne nos anos 80, foi se apresentar no EUA antes de a música baiana virar este produto for export de hoje.

Com o bloco Os Mascarados, propôs a primeira reviravolta no Carnaval pago da Bahia - aquele, em que o folião disputa espaço entre as cordas de bloco e as paredes dos camarotes. Os Mascarados nasceu em 1999 como uma brincadeira que evocava o passado dos bailes de máscaras, em um desfile na rua que começou pago e com cordas, mas depois virou um cordão onde bastava estar fantasiado para entrar. Ela buscava, assim, brincando, uma solução para a folia cidadã.

Há seis anos criou o Movimento Afropopbrasileiro, que pretende reunir todas bandas afro-baianas sob o mesmo guarda-chuva, em um bloco que traz ela e entidades como Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy, entre outras, em cima do mesmo trio. Antes de o filão axé music se esgotar, Maga já embarcava na MPB com CDs como Pra Você, no qual foi fotografada pelo saudoso Mário Cravo Neto, um dos fotógrafos baianos mais importantes e completos da atualidade.

Participou, ainda que perifericamente, do álbum Tribalistas, com Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes, projeto de vendagem recorde: um milhão de cópias - e uma espécie de divisor de águas da MPB.

Ano passado, quando o pagode baiano ficou ainda mais sexista e vazio de conteúdo, Maga, em uma das raras vezes em que se expôs a ponto de criar polêmica, saiu em defesa da qualidade da música e foi mal-interpretada. "Não quero mexer mais nisso, falei e as pessoas não me entenderam e foi muito chato", resguarda-se Margareth, de voz mansa, porém firme - tal como a alterna nos palcos, de vozeirão para aveludada.

"Mas, para mim, a baixa qualidade é uma coisa tão visível, que as pessoas percebem", segue a cantora e compositora. "Existe a confusão entre o popular e a baixa qualidade. O mau gosto é o limite e as pessoas podem perceber o que é uma grosseria. Não quero mais falar sobre isso, porque os grupos estão aí, aproveitando a oportunidade deles. Mas, quem faz música tem que ter a sua consciência", sentencia, chamando os compositores, "não só os baianos, os brasileiros, que estejam perdendo sua qualidade lírica, como os do funk, por exemplo", à razão e à responsabilidade.

Carnaval 2010

E ela fez tudo isso sem estardalhaço. E sempre com aquele ar de mistério disfarçado em sorriso. Por essa forma de se conduzir, os desavisados dizem que Maga não estoura nunca, que não sabe gerir sua carreira. Engano. Ela está sempre inventando e reinventando. Para o Carnaval 2010, por exemplo, que será o das efemérides - 60 anos de trio elétrico e 25 de axé music -, a cantora voltou a fazer ensaios de verão, para o Movimento Afropopbrasileiro. Hoje mesmo é dia: para quem estiver em Salvador, vale a pena dar um pulo à noite no Cais Dourado (Comércio), onde Margareth Menezes receberá Elba Ramalho, Moraes Moreira, Armandinho, Saulo Fernandes, o grupo afro-baiano Muzenza e o grupo Micro-Trio. Desde que foi lançado o ensaio, o lugar sempre lota. Nada mal para quem nunca estourou.

"O conceito dele (do ensaio) é a cultura", sentencia Maga, em entrevista exclusiva que concedeu por telefone, no Aeroporto de Salvador, enquanto esperava embarcar para um de seus compromissos profissionais. "O ensaio, enquanto fórmula, sofreu um desgaste, e também não é uma coisa barata de se fazer. Por isso, dei uma suspirada para voltar agora. Gostei muito de dar essa parada, e quis voltar trazendo uma coisa diferenciada".

Além disso, Maga decidiu se retirar do projeto Os Mascarados que, segundo ela, "já caminha com as próprias pernas". "Encerrei o trabalho que fiz durante dez anos, que foi muito bacana. Não tem nenhum afastamento, é uma questão de visão artística minha", coloca, já que o projeto vira uma franquia de seus negócios, e será administrado por dois de seus braços direitos: as sócias Jaqueline Azevedo e Rita Martins.

À frente da folia que arrebanha quatro mil foliões pelo circuito Barra-Ondina, estará uma banda que leva o mesmo nome do trio independente: Os Mascarados. "A quinta-feira de Carnaval se transformou num dia de fantasia. E ele vai continuar sem mim. Neste momento, estarei dedicada ao Afropop (que sai domingo, segunda e terça-feira de Carnaval, no mesmo circuito)".

E, para finalizar a maratona momesca de 2010, Margareth Menezes toca, pela primeira vez, numa das festas 'bacantes' típicas do verão baiano: as feijoadas. Ela fará o som da Feijoada da Dadá - famosa quituteira soteropolitana -, que acontece no dia 07 de fevereiro, das 14h às 20h, no Bahia Café Hall.

"Vai ser um repertório alegre, mesmo, como ela, que é super alegre, pra cima". Além de suas músicas referenciais, como Dandalunda, Elegibô - seu primeiro grande sucesso -, e mais o carro-chefe deste ano, "Saudação ao Caboclo, de Gilson Quirino. Tá tocando bem, o povo tá gostando, tá muito bacana", declara Maga, com a mesma timidez que lhe é característica. Para encerrar a entrevista corrida, é pedida uma mensagem de parabéns às seis décadas da invenção de Dodô e Osmar. Ela proclama: "Vida longa ao trio elétrico!", e se despede educadamente. Maga é assim. Assim são as divas.


Ceci Alves, é cineasta e jornalista. Atualmente faz mestrado em Cultura e Sociedade - linha de pesquisa Cultura e Identidade, na Universidade Federal da Bahia.

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