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Sábado, 30 de janeiro de 2010, 08h00

Balanço 2009: Ficção científica e o século 19

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo (SP)

A ficção científica do século 19 e o século 19 na ficção científica fizeram parte de uma das principais tendências do gênero em 2009.

Em primeiro lugar, vimos a obra de Jules Verne (1828-1905), um dos pais da FC, disponibilizada nas bancas e livrarias brasileira como a Biblioteca Júlio Verne, em belas edições da editora espanhola RBA Coleccionables, de Barcelona. Os livros têm um formato diferentes a cada edição, mas sempre em capa-dura, com fita marcadora e fac-símiles das ilustrações originais. Verne publicou a maior parte da sua obra como a Coleção Histórias Extraordinárias de romances de aventura, uma boa parte constituída de títulos importantes para a FC, como Viagem ao Centro da Terra (1864), Vinte Mil Léguas Submarinas (1869) e A Ilha Misteriosa (1874), Da Terra à Lua (1865) e À Roda da Lua (1870). Os outros títulos da coleção - que incluem A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873), Miguel Strogoff (1876) e A Escola dos Robinsons (1882) - pertenceriam mais ao gênero da aventura, mas com um elemento ou outro de FC.

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Essa tendência de uma FC do século 19 presente no mercado editorial brasileiro foi engrossada - ou meramente temperada, já que é um livro de tiragem e distribuição mínimas - por O Povo da Névoa (1894), de H. Rider Haggard (1856-1925), romance de mundo perdido e também de aventura colonial. É ambientado na África, como a maioria das obras de Haggard, que foi influência sobre autores brasileiros do começo do século 20 que escreveram sobre raças e cidades perdidas, como Gastão Cruls (1888-1959), Menotti del Picchia (1892-1988) e Jerônymo Monteiro (1908-1970). O Povo da Névoa saiu pelas Edições GRD, e representa, ainda que modestamente, o retorno à ficção científica do importante editor Gumercindo Rocha Dorea, responsável pelas maiores realizações da Primeira Onda da FC Brasileira nos anos 1960.

É interessante lembrar que vivemos um momento editorial tão variado e dinâmico que, aparte qualquer discussão de Segunda Onda (a partir de 1982) vs Terceira Onda (a partir de 2004, na Internet), podemos encontrar disponíveis até mesmo obras do Período Pioneiro (de meados do século 19 a meados do século 20). Um exemplo é o romance de 1899, A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas (1855-1908), livro tido como o primeiro romance fantástico brasileiro, redescoberto por acadêmicos. A última edição é de 2003, pela Editora Mulheres de Santa Cruz do Sul, RS (http://www.editoramulheres.com.br), num formato muito simpático e com um tratamento editorial e crítico por Constância Lima Duarte, uma Doutora em Literatura Brasileira pela USP. O romance combina mundo perdido e sociedade secreta, mais uma postura feminista pré-revolução sexual.

O outro lado dessa tendência bastante atual é a de refletir a estética e a imagética da FC do século 19, na FC do século 21. Eu falo da corrente steampunk, um tipo de ficção científica recursiva com alguma ocorrência anterior no Brasil, mas que teve a bandeira levantada com a publicação da antologia Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (Tarja Editorial), organizada por Gianpaolo Celli. O livro traz histórias de Celli, Claudio Villa, Jacques Barcia, Romeu Martins, Flávio Medeiros, Fábio Fernandes, Alexandre Lancaster, Roberto de Sousa Causo e Antonio Luiz M. C. Costa, além de uma capa muito boa de Marcelo Tonidandel. Antologia pioneira, tem despertado bons comentários de blogs e da comunidade steampunk nacional e internacional.

Anno Dracula, romance de Kim Newman lançado em fins de 2009pela Editora Aleph, de São Paulo, também se enquadra dentro da tendência recursiva, embora seja um romance sobrenatural: "Conde Drácula não sucumbiu diante de Van Helsing e seus destemidos companheiros", diz o texto da quarta-capa. "Ao contrário. O Rei dos Vampiros derrotou-os, desposou a Rainha Vitória, nomeou discípulos para funções burocráticas no Império e espalhou sua linhagem sombria por toda a Inglaterra. E no coração da Londres vitoriana, um assassino está mutilando jovens vampiras e ameaçando a estabilidade do novo regime. Seu nome, Jack, o Estripador."

A tendência tende a continuar em 2010. Recentemente, a mesma Aleph anunciou que publicará o romance steampunk The Difference Engine, de William Gibson & Bruce Sterling, a "bíblia" desse subgênero da FC. E a Editora Draco (http://editoradraco.com), também de São Paulo, anunciou a publicação da antologia Vaporpunk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro. A Tarja Editorial (http://tarjaeditorial.com.br/tarja) poderá voltar a contribuir, com uma nova antologia dentro do steampunk, engrossando um rol de lançamentos que vai garantir que essa tendência continue a chamar a atenção em 2010.

De onde vem todo esse interesse pelo século 19? A FC se estabeleceu como gênero em fins dos 1800, então é natural que ela se volte às suas origens para rever sua trajetória e identificar as suas transformações. Política, científica e socialmente, com a industrialização e a urbanização, o século 19 foi a base da sociedade em que vivemos hoje, e retornar a ele também permite rever algo de atitudes que ainda repercutem sobre nós.

O século 21 foi um dos "limiares do futuro", na ficção científica dos séculos 19 e 20. Vivemos o futuro, literalmente, mas bastante diverso daquele imaginado pelos antigos autores de FC. Nessas circunstâncias, é interessante olhar para trás e reimaginar a nossa trajetória, com as obras steampunk que virão em 2010.

E é claro, a Biblioteca Júlio Verne continua chegando às bancas, trazendo mais FC do século 19, ao século 21.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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