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Sábado, 30 de janeiro de 2010, 07h56

Resenha: Steampunk

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo (SP)

Steampunk, Ann & Jeff VanderMeer. San Francisco: Tachyon Publications, 2008, 375 páginas.

No mundo de língua inglesa, o steampunk existe em diferentes estágios desde fins da década de 1960, mas há poucos anos é que foram publicadas as primeiras antologias montadas para chamar a atenção sobre o subgênero. Steampunk, pelo casal VanderMeer, é uma de duas dessas antologias. A outra é Extraordinary Engines, editada por Nick Givers, também de 2008, mas com histórias originais.

A antologia dos VanderMeer é retrospectiva e didática, incluindo três ensaios. O melhor deles é de longe o de Jess Nevins, altamente recomendado. Nevins afirma que "uma história correta do steampunk deve começar com os dime novels do século 19, pois é lá que estão as raízes do steampunk, e é contra os dime novels que a primeira geração de escritores steampunk reagia". Assim, ele puxa essa tradição para os Estados Unidos, quando antes o subgênero era mais associado à Inglaterra e França.

O primeiro texto ficcional é um excerto do romance The Warlord of the Air (1971), de Michael Moorcock, ainda dentro do Movimento New Wave inglês. Vamos examinar esse romance integralmente, em outra ocasião.

James P. Blaylock foi um dos autores steampunk da primeira geração, com Tim Powers e K. W. Jeter. Comparece com "Lord Kelvin's Machine" (1985), inspirada no conto clássico de Wells, "A Estrela" (1897): um cometa passará junto à Terra, e Ignacio Narbondo, um cientista louco, faz chantagem com a ameaça de lançar a Terra na trajetória dele, ao pôr em ignição uma cadeia de vulcões. Outro experimento de "ciência louca" (conceito-chave steampunk) pretende anular a gravidade, desligando o magnetosfera da Terra - é a máquina de Lord Kelvin (1824-1907). Contra os dois está um terceiro cientista inglês, Langdon St Ives, que usa capangas violentos para alcançar seus fins.

Essa noveleta nos lembra que esse tipo de FC já foi chamado de "gonzo", textos que usam personagens e situações reais para fins satíricos. Aqui, três cientistas megalomaníacos num texto denso, linguagem pomposa mas elíptica, e ambiência noturna que contribuem para um clima de pesadelo. Nada de tecnologia alternativa no dia-a-dia, porém.

Por outro lado, o enigmático "The Giving Mouth" (1991), de Ian R. MacLeod acontece num mundo secundário que lembra a transição do feudalismo e a Revolução Industrial, mas com um toque mágico. A ambientação é rural e distópica, poluída e esquálida. O narrador é filho de um lorde, ordenado por uma sua rainha a enfrentar uma ameaça ao reino, depois que ele a ofende durante um banquete. A ameaça é conhecida como "Blight", criatura que aliena os indivíduos da vida com uma felicidade que esse mundo não pode oferecer. É muito bem escrito.

"A Sun in the Attic" (1985), de Mary Gentle, também se passa num aparente mundo secundário com dirigíveis e planadores, e descreve outra sociedade aristocrática onde as mulheres se casam, cada uma, com dois homens. O conflito é entre duas "casas" comerciais. Sem muita contextualização, não é um conto marcante.

De Jay Lake, "The God-Clown is Near" (2007) é uma das histórias do livro que emprega o mito judaico do Golem como tecnologia alternativa. Também ambientado num mundo semelhante mas diverso do nosso, acompanha um inescrupuloso criador desses seres artificiais, metido num jogo duplo entre um movimento religioso e um grupo que deseja abortar o seu esforço de criação de uma espécie de golem-messias. Outro conto sem muito impacto, mas de imagens perturbadoras.

O título de "The Steam-Man of the Prairie and the Dark Rider Get Down: A Dime Novel" (1999), de Joe R. Lansdale, já entrega o seu diálogo com a tradição dos dime novels de FC do século 19, do tipo Frank Reade mas subvertendo, com a intrusão do tema do vampiro, a cara juvenil dessa e de outras séries. Essa novela também dialoga com A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells, ao imaginar um Viajante do Tempo enlouquecido, transformado em torturador necrófilo que criou um império de terror morlock no oeste selvagem. Lansdale é uma espécie de Tibor Moricz (o brasileiro autor de Fome) americano, combinando a ultraviolência de Cormac McCarthy em Meridiano Sangrento (republicado no Brasil ano passado) com a história americana das guerrilhas de Quantrill e outros assassinos em massa. Um grupo de vigilantes tripulando um robô gigante movido a vapor enfrenta as hostes do Viajante do Tempo, com direito a empalamentos e a uma luta contra um congênere feito de madeira e movido pelas pedaladas dos morlocks.

Molly Brown contribui com outro diálogo intertextual com obras clássicas do século 19. Seu "The Selene Gardening Society" (2005) continua, no mesmo tom de comédia, situações de Da Terra à Lua (resenhado aqui) e À Roda da Lua, pelo ponto de vista das esposas de todos aqueles magnatas da indústria bélica (os livros de Verne não citam nenhuma mulher). Há até mesmo um clube de jardinagem servindo de espelho feminista ao Gun Club, e é nesse clube que a esposa de J. T. Maston, o "Sancho Pança" dos dois romances, reclama que ele não está feliz sem ter o que disparar. Logo a industriosa presidente do clube, Fiona Wicke, bola um plano de reviver o canhão lunar, agora para disparar o lixo orgânico de Baltimore e terraformizar a Lua com compostagem. Absolutamente delicioso.

"Seventy-Two Letters" (2000) é uma novela do multipremiado Ted Chiang, em que, na Inglaterra do século 19, a principal tecnologia é a do golem. Genial, o texto se concentra brilhantemente na ciência da programação do golem, chamada "nomenclatura" - o uso de palavras mágicas do hebraico. O herói, Robert Stratton, é um jovem nomenclator de tendências socialistas, envolvido com um projeto secreto de produção de homúnculos para escapar de um antecipado apocalipse reprodutivo da humanidade. A narrativa é movimentada, mas o que realmente intriga é a tecnologia alternativa bem imaginada e ajustada às implicações sociais e políticas do século 19. Chiang dá uma nova torção ao seu costumeiro interesse pela lingüística. Fabuloso. Deve ser o melhor texto do livro.

Já a novela "Victoria" (1991) fez parte do livro Steampunk Trilogy (1995), de Paul DiFilippo, e se dedica a superar no fator gonzo tudo o que já foi escrito. Os personagens têm nomes absurdos como Cosmo Cowperthwait, o herói, um cientista louco que liquidou a família com uma explosão atômica no século 19 (outro leitmotif recorrente do steampunk), e que engendrou, a partir de uma salamandra, uma mulher que tem os traços da Rainha Vitória, e que é usada para substituir a jovem monarca quando ela deserta para "prestar serviços" em um prostíbulo londrino. Gonzo por inverter a sexualidade vitoriana e por ridicularizar figuras e hábitos históricos, mas apesar da linguagem divertida, há um momento que o leitor deixa de se envolver.

"The Martian Agent, A Planetary Romance", de Michael Chabon (2003), tem elementos de dime novel e aventura verniana, com direito a dirigível e tudo, e uma linguagem que emula o estilo do século 19. Mas o drama de um garoto que pertence a uma família revolucionária, tornado órfão e levado por um tio cientista que promete transportá-lo a Marte (a novela é a primeira parte de um seriado), não comparece com nenhum efeito mais expressivo.

O conto "Reflected Light", de Rachel E. Pollock, traz situações básicas do steampunk, como artesanato de metal e couro, uma mão mecânica e alusões à divisão social. Narrado como um registro gravado, soa super-elborado em relação à vacuidade do assunto.

"Minutes of the Last Meeting" (1998) é outra noveleta gonzo, que brinca com a retrociência steampunk, ao imaginar que vários desenvolvimentos que ainda nem se consumaram no nosso presente estariam em operação por volta de 1910:

nanotecnologia, realidade virtual e a conspícua bomba atômica. Tudo girando em torno de uma família Romanov alternativa, às voltas com a doença do herdeiro Alexei, ataques de anarquistas, uma polícia política que age como o Grande Irmão orweliano, a guerra mundial. O texto, que não se preocupa em justificar as extrapolações nem em caracterizar os personagens, é movimentado e rápido, levando a um final surpresa efetivo mas que não salva a narrativa de um absurdismo estiloso e sem grande substância.

Há ainda uma história de Neil Stephenson, autor de Nevasca (Snowcrash) , ambientada no universo do seu romance The Diamond Age (1995), e ensaios sobre o steampunk na cultura popular e nos quadrinhos.

A visão do subgênero, fornecida por esta antologia, enfatiza a imaginação desenfreada e sarcástica da ficção científica gonzo e os leitmotifs steampunks como elementos de renovação estilística de temáticas costumeiras, mas aliviadas apenas pelo que tais leitmotifs podem trazer como estranhamento e atitude pós-modernista.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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