Roberto de Sousa Causo
De São Paulo (SP)
Da Terra à Lua (De la Terre à la Lune), Júlio Verne. Barcelona: RBA Coleccionables, 2003 1865, 287 palavras. Ilustrado por Henri de Montaut.
Neste que foi um dos mais interessantes romances de viagem interplanetária do século 19, Verne imagina que, sem ter muito o que fazer depois do fim da Guerra da Secessão (1861-1865), os membros do Gun Club de Baltimore, liderados pelo industrioso Impey Barbicane, decidem construir um supercanhão e disparar um projétil contra a Lua.
Como na maior parte da venerada coleção Voyages Extraordinaires desenvolvida por Verne para o editor Pierre-Jules Hetzel (1814-1886) e publicados como folhetins na revista de Hetzel, Magasin d¿éducation et de récréation (e depois em livro), neste romance há uma evidente preocupação didática. "Educação e diversão", constavam do nome da revista, e além de incorporar o didatismo sobre a Lua, sobre balística e geografia, De la Terre à la Lune é uma divertida comédia. Os membros do Gun Club são descritos como um bando de obcecados industriais e artilheiros sobreviventes da guerra civil, a maioria faltando uma perna, mão, olhou ou braço. Há humor também no modo como o projeto de construir o canhão e dispará-lo contra a Lua galvaniza a população americana e leva os estados do Texas e da Flórida a uma disputa pelo local da construção.
Ocorre que esses dois estados possuem território no Latitude 27°, mais próxima do Equador e por isso facilitando os lançamentos orbitais. O fato de os membros do Gun Club terem escolhido a Flórida antecipa a construção do complexo do Centro Espacial Kennedy, cuja construção começou em 1962, quase cem anos depois das situações narradas no romance.
Verne foi ainda mais profético quando surge em cena o extravagante aventureiro francês Michel ("Miguel", na tradução aportuguesante) Ardan, propondo que o projétil transporte um explorador humano em seu interior. A proposta causa novo furor e oportunidades para discursos visionários. A cápsula terá três "tripulantes" - como ocorreu com o Projeto Apollo, na década de 1960, culminando como a Apollo 11 pousando na Lua em 1969. O que não bate com a crônica da conquista espacial é a montanha de bugigangas, armas, cães e galinhas que o projétil do Gun Club transporta - na imaginação de Verne, a exploração espacial não era muito diferente das explorações geográficas à nascente do Rio Nilo ou às áreas polares da Terra, imensamente populares no século 19.
Verne, na maior parte da sua obra, nos fornece um testemunho da globalização do século 19 (o termo já aparece no Manifesto Comunista de Karl Marx & Friedrich Engels, em 1848). Não é à toa que o escritor francês influenciou Bruce Sterling, o motor intelectual do Movimento Cyberpunk. Em Da Terra à Lua, os cabeça do projeto captam recursos por meio de doações que vêm do mundo todo, fomentada pela insaciável curiosidade da imprensa pela empreitada. Há elaboradas listas de somas, instituições bancárias e moedas vindas dos mais diversos países (as doações do Brasil foram captadas pelo Banco Mauá), e uma espetada bem humorada nos ingleses, eternos desafetos dos franceses (e vice-versa): "Os ingleses têm todos uma só e mesma alma para todos os vinte e cinco milhões de habitantes que povoam a Grã-Bretanha. Deram a entender que o empreendimento do Gun Club era contrário ao ¿princípio de não intervenção¿ e nem com um centil concorreram."
O enredo ainda prevê uma bem-humorada oposição ao projeto Barbicane, na pessoa do seu rival e oposto simétrico, o fabricante de couraças navais, o Capitão Nicholl - com direito a apostas contrárias a cada etapa do projeto, e, finalmente, a um duelo com Barbicane, num bosque da Flórida.
Verne se esforça, apesar do tom humorístico, em fundamentar a noção de se disparar um projétil tripulado rumo à Lua. Ele é essencialmente aquilo que muito depois seria chamado de escritor de "ficção científica hard" - leva a sério as suas especulações técnicas e científicas. Na história, o Gun Club recebe assessoria do Observatório de Cambridge, a toda a balística descrita é bem pesquisada, assim como as questões de mecânica celeste, de acordo com o que, supõe-se, era sabido na época. A cápsula/projétil é feita de alumínio. Ele também pensa em como absorver o impacto da aceleração do projétil, sobre os tripulantes, na produção química de uma atmosfera respirável, e nas provisões para a viagem. Hoje se sabe que o ser humano, com o equipamento correto de proteção, pode suportar cerca de 40 Gs de força. Verne, contudo, não alude a esse equipamento, e a ciência moderna não admite que - mesmo se suportasse o calor gerado no cano ou o nível de ruído da explosão - os tripulantes sobreviveriam a um disparo que os levasse de 0 à velocidade de escape da gravidade terrestre (cerca de 11 quilômetros por segundo), em um segundo. Ainda mais problemático seria o resultado impacto sobre a superfície da lua, problema dispensado por Verne com um gracejo de Arden: "A queda há-de ser seis vezes menos rápida do que o seria na superfície da Terra, visto que a gravidade é seis vezes menos na superfície da Lua." Mais abaixo, a bem da verdade, ele diz: "E quem é que me há-de impedir de retardar a queda por meio de foguetes convenientemente dispostos e inflamados em ocasião oportuna?" O que é exatamente o que se faz, mas esta é o único momento do romance em que retrofoguetes são mencionados. (Enfim, Verne também não nos diz o que fazer com os dejetos caninos em microgravidade...)
A brincadeira de listar o que o autor de FC acertou ou errou em termos das suas "antecipações" tecnológicas é sempre problemática e, frequentemente, improdutiva. Verne se comportava como autor de FC hard, até mesmo quando criticou H. G. Wells, em Os Primeiros Homens na Lua (The First Men on the Moon; 1901), por não ser científico o bastante. No romance de Wells, um cientista chega a uma invenção revolucionária, que o leva, com um amigo, incógnitos à Lua. A partir de Wells, tornou-se comum histórias nas revistas populares do começo do século 20 com cientistas solitários inventando naves interplanetárias, máquinas do tempo ou de trânsito interdimensional. Mas em meados do século 20 uma FC mais sofisticada retoma a situação de Verne, da iniciativa privada - embora a agremiação social do Gun Club mascare o vínculo dos seus membros com a indústria - realizando abertamente o avanço tecnológico revolucionário. O governo americano nem é citado no romance de Verne, e mais tarde, com Robert A. Heinlein (1907-1988) e outros, a empresa privada é o grande agente da conquista espacial. No Brasil, o futuro da Trilogia Padrões de Contato (2009), de Jorge Luiz Calife, é dividido entre dois grandes conglomerados. Quando Verne louvou o empreendedorismo americano em Da Terra à Lua, mesmo que o gozando simultaneamente, ele acertou na mosca do que seria a tônica da FC americana no século 20 - um sonho de iniciativa privada que se realizou quando do pouso da Apollo 11, mas que será realidade apenas com as naves como o SpaceShipTwo da Virgin Galactic de Richard Branson & Burt Rutan, se e quando ele entrar em atividade. É também curioso especular que Verne acertou ao associar o projeto espacial do Gun Club à indústria bélica americana, a uma ociosidade que precisava ter outra forma de expressão. A noção de um "complexo militar-industrial" com força política e tecnológica se firmou nos Estados Unidos ao final da Segunda Grande Guerra. O início do programa espacial americano foi conduzido pela Força Aérea, e a NASA foi constituída em parte para "desmilitarizar" a imagem desse programa.
O destino dos heróis de Da Terra à Lua só é revelado em À Roda da Lua (Autour de la lune) , publicado cinco anos depois. Esse livro também foi distribuído no Brasil pela RBA Coleccionables, com tradução de Henrique de Macedo (o tradutor de Da Terra à Lua não é creditado). As duas edições têm como destaque as admiráveis ilustrações originais de Henri de Montaut (c1840-c1905), divertidas, corretas e capazes de situar o leitor no movimentado século 19.