Terra Magazine

 

Terça, 9 de fevereiro de 2010, 07h53 Atualizada às 20h36

Cid: "Ficar viúvo é uma tragédia. A sociedade não deixa"

Claudio Leal/Terra Magazine
O historiador Cid Teixeira: Os piores são os mulatos metidos a branco. Quando eu entrei pra Academia de Letras (BA), houve uma campanha de um cidadão ...
O historiador Cid Teixeira: "Os piores são os mulatos metidos a branco. Quando eu entrei pra Academia de Letras (BA), houve uma campanha de um cidadão mulatíssimo contra mim"

Claudio Leal e Roberto Albergaria
De Salvador (BA)

Confira a segunda parte da entrevista com o historiador Cid Teixeira.

Terra Magazine - Câmara Cascudo escreveu um livrinho chamado "Made in Bahia", que não teve repercussão. Mas, nesse livro, ele diz que a herança africana, no Nordeste - ele não gosta muito da Bahia, tinha aquele ciúme...
Cid Teixeira - E havia um caso pessoal dele. Começou a estudar Medicina na Bahia e eu nunca soube exatamente por que, mas houve um caso pessoal.

Veja também:
» Cid Teixeira: "O certo seria criar o Dia da Consciência Mulata"
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Ele dizia que na Bahia se superestimava a cultura africana em detrimento da herança lusitana e da indígena. Tanto que Câmara Cascudo dá muita ênfase à herança lusitana e à indígena, enquanto aqui na Bahia os folcloristas fazem um trabalho inverso. Por que na Bahia é diferente?
Porque a predominância negra, na Bahia, foi maior do que em Pernambuco. Não se esqueça que o Brasil é o único lugar do mundo onde não existe Leste. Onde é o Leste do Brasil? Botaram a Bahia no Nordeste.

Mas ela não já foi posta no Leste?
Agora a Bahia fica no Nordeste.

Antigamente era tudo um Norte genérico, onde a Bahia estava no Norte, correto?
A Bahia estava no Norte na colônia. De São Paulo pra cima era Norte. Depois houve Norte, Sul, Leste, Oeste. Depois acabou o Leste, a Bahia virou Nordeste.

Como foi a integração da Bahia ao Nordeste?
Eu não sinto, eventualmente (hoje menos, porque a saúde e a idade não permitem), mas quando eu ia à Paraíba, era outro mundo, era outro Nordeste. Não tinha nada a ver. Maranhão era Nordeste, a Bahia era Leste. Hoje a Bahia é Nordeste, o que é uma falsidade sociológica.

Quando você fala que a herança africana era mais forte na Bahia, por conta até da...
Quantidade, demografia.

Está se referindo ao Recôncavo, né?
Sim, a "Bahia" é o Recôncavo. Porque Candomblé, negritude, essas coisas, em Barreiras, Xique-Xique (no sertão baiano), não existem.

De Feira de Santana em diante...
Era outra conversa. Estamos falando de Salvador e arredores.

De qualquer forma, por mais que Jorge Amado tenha romanceado e Carybé estetizado o negro, tornando a negritude uma coisa pitoresca, e Odorico tenha exportado a baianidade, isso tinha a ver com a realidade, tirando os exageros. E hoje, ainda existe? Ainda se vê isso?
Não tem. A negritude baiana apropriou-se de si própria. Quando a negritude apropriou-se de si própria, criando o Ilê Aiyê, o Malê Debalê, essas organizações todas, para reivindicar para os negros a sua identidade, a sua direção, a sua autenticidade, as coisas mudaram muito, né? Hoje, você não entraria pra desfilar nos Filhos de Gandhy. Tem condições étnicas?

Os filhos de Gandhy se abriram muito, dá pra desfilar. O Ilê Aiyê criou um bloco pra aceitar brancos.
Sim...

Isso foi na última quadra do século 20, um tipo de afro-baianidade muito marcado pelo modelo americano.
Quem foi menos negro neste mundo foi Gandhi. (risos) Gandhi não tem nada a ver com negritude.

Mas se reivindica uma África imaginária como uma coisa baiana: a Bahia seria essencialmente africana, as raízes mais profundas da baianidade estariam nisso. Não é um pouco forçado, não?
É forçado. Há uma presença negra dominante, muito forte, mas que não chega a ter a densidade que alguns movimentos querem dar. Já pensou o que seria da Bahia se os brancos baianos resolvessem fazer o Dia da Consciência Branca? Já pensou? Teria tumulto na rua. O certo e verdadeiro seria o Dia da Consciência Mulata (risos) Aí estaríamos falando a verdade, mesmo.

Por que as pessoas relutam tanto em admitir que são mestiças, mulatas?
Não sei. Eu não rejeito.

Aqui na Bahia, só você e Caetano se dizem mulatos.
Eu e Caetano? (risos)

Por que essa rejeição à mestiçagem? Hoje os europeus falam tanto da beleza dos mestiços, e só você e Caetano...
Só eu e Caetano somos os mulatos da Bahia...

Nos meios sociais em que senhor convive, como é vista a mulatice?
A mulatice é rejeitada pelo branco e pelo negro.

Na cabeça das elites, há como um sentimento de culpa pela mistura...?
Por que culpa?

Porque havia a expressão "melhorar a raça".
Limpar a raça. Havia aquele negócio de barriga suja, barriga limpa. Quando o menino nascia mulato, se saía dominantemente mulato, a mãe tinha barriga suja. Se o menino nascia dominantemente branco, a mãe tinha a barriga limpa. Tinha essa conversa...

No meio intelectual, você assumia sua mulatitude e criava um silêncio incomodativo...
Era.

Você sempre foi um pouquinho marginal, um pé dentro e um pé fora, tanto na universidade, que não lhe reconheceu em nada, porque você nunca abriu as pernas pra universidade...
Exatamente...

Na alta cultura. Essa gente tolerava você, lhe achava exótico?
Os piores são os mulatos metidos a branco (risos) É. Os piores. Quando eu entrei pra Academia de Letras, na história da Academia de Letras de 1917 até hoje quem entrou com menor número de votos fui eu. Eu entrei com um voto só que decidiu o ingresso. Houve uma campanha contra mim patrocinada, não vou dizer o nome aqui, por um cidadão mulatíssimo. Médico baiano mulatíssimo que patrocinou o veto a Cid.

Qual era o argumento?
Inconveniente, boquirroto, mulato... Todas as características do mulato.

E havia aquela elite do Recôncavo, descendente de senhores de Engenho, com muitos mulatos na família, mas com aquela pompa de brancos...
Sim, o mulato filho do barão era tolerado. O Barão de Belém teve filho como diabo com todas as escravas. Teve alguns aí...

O Barão de Belém era de onde?
Santo Amaro.

Que família é?
Calmon (risos) (N.R.: família tradicional na Bahia)

Como era ser filho de padre?
Normalíssimo. O livro de Cândido da Costa e Silva ("Os Segadores e a Messe: O Clero oitocentista na Bahia") arrola filhos de padre. Era normal.

Não havia resistência social?
Não. Havia muito filho de padre. E digo mais: filhos de padres que os padres não rejeitaram, botaram pra estudar. Teodoro Sampaio é um clássico exemplo. Mas ao lado de Teodoro há outros. E o filho do dono da casa, do dono do engenho.

A bastardia vinha do fato de que pra ser macho, na Bahia, você tinha que ter uma segunda família?
Era fatal.

Esses filhos das segundas famílias, a famosa matriz filial, eram aceitos?
Era aceitos, sim. Tenho casos dentro da minha estrutura. As mães, não. As mães eram inimigas entre si. Mas, os meninos? Se misturavam...

A briga vinha na hora do testamento...
Quando morria o pai, aí tem que ver o que ele deixou.

Numa sociedade patriarcal, machista, todo mundo tem que casar. Quando se comprava um apartamento, tinha que passar por um estágio probatório para as pessoas saberem se era viado ou tarado. Quem não casava era suspeito. Os viados se casavam? Como era isso?
Era a boca pequena. Discrição. "Não, não é verdade...". Desmentia, salvo casos como Evandro de Castro Lima (1920-1985, figurinista), que era notório. Esses faziam questão. Eles se orgulhavam...

E a homossexualidade em Salvador? Me parece, por relatos, que toda a cidade sabia quem era homossexual, os casos notórios.
As famílias "B", digamos assim, não eram tão recusadas. No aniversário de um menino da família A, os meninos da família B compareciam, comiam toucinho...

O fuxico baiano está se perdendo? Era tão criativo, como se estivessem criano histórias. Todos eram um Jorge Amado ordinário. A Bahia está perdendo a oralidade?
Está. A cidade que está aqui, na Pituba, não tem nada a ver com aquela cidade do começo do século 20. Eu não sei o nome do homem que mora ali defronte. Se eu o encontrar na rua, não o cumprimento por ignorância.

As feministas sempre falam da opressão da mulher, do salão dos homens, mas mulheres tinham as suas manhas...
Tinham, tinham.

Eram sonsas?
Eram.

Santinhas do pau oco?
É. Claro que tinham aquelas Hildergardes (Viana, folclorista baiana que morreu virgem)... (risos)

E os casamentos arranjados pra viúvos?
Ah, ficar viúvo... É uma tragédia. Porque o que existe de gente querendo arranjar noiva, namorada e casamento pra viúvo... Sou viúvo hoje. É um negócio terrível... "Ah, você está sozinho, tem que casar, arrumar alguém..." E esse alguém já está programado pra tomar o lugar da finada. É isso daí.

Antigamente, se um viúvo com 70 anos quisesse se casar com uma mocinha, uma formosa sem dote...
Isso era objeto de escândalo.

Escândalo ou murmuração?
Murmuração... Ninguém ia empatar ninguém. Mas há uma tendência na sociedade de não deixar que o viúvo fique viúvo e nem que a viúva fique viúva. Há uma preocupação social de arrumar um segundo par para o viúvo ou a viúva.

O senhor falou das famílias tradicionais e me lembro de vê-lo falar sobre o familismo na política. O senhor escreveu que, na Bahia, houve poucas exceções à famílias políticas, como o ex-governador Lomanto Júnior. Juracy Magalhães é listado como dos Acioly do Ceará. Quais são as exceções de políticos sem o amparo de uma tradição familiar? Você dava uma aula inteira sobre a política dos genros.
Sim, você vê que a estrutura partidária da República Velha era essencialmente uma estrutura familiar. Virgílio Damásio era parente de Ruy Barbosa. Aqueles todos lá. Até chegar a Frederico Costa, todo mundo tinha a filha que casou com o sobrinho do primo... De 1930 pra cá, as coisas mudaram pouco, pouco, pouco. A chegada de Juracy não tem nada a ver com o "aciolismo" do Ceará, ele era tenente ligado a Juarez (Távora), mas repare que até hoje tem Jutahy, Jutahy Júnior... Luis Viana, Luis Viana Filho e Luis Viana Neto, que saiu da política e foi cuidar dos negócios.

Mesmo Lomanto acabou tendo seguidores...
Lomanto tem Lomanto neto, filho...

Você dizia que essa estrutura da política dos genros, com a exceção de Antonio Carlos Magalhães, que era um outsider, vai até o governador Roberto Santos.
Era filho de Edgard Santos (ex-reitor da Universidade da Bahia).

Waldir Pires?
Francisco Waldir Pires de Souza. Esse é solitário.

Como o senhor avalia a passagem de Antonio Carlos Magalhães pela política?
Vou fazer uma comparação que você vai achar maluca. Foi uma passagem de Napoleão pela França (risos)

Por quê?
Ele chegou, ele fez, ele arrumou, ele acabou, ele morreu, politicamente morreu. Pronto.

Você estranhou que no enterro dele houvesse tão pouca gente?
Tão pouca gente! Ele não era querido, era temido. Bastou perdeu o poder.

Isso aconteceu com Juracy Magalhães?
Eu me lembro da existência da Associação dos Amigos de Juracy Magalhães.

E tinha também a missa de Seabra.
A missa de Seabra e de Juracy. No dia 4 de agosto, aniversário de Juracy, o jornal A Tarde publicava, sistematicamente, o convite pra missa com três signatários. E que eram os três líderes do juracisismo. De ano pra ano, mudam os signatários. Quando está no poder, é um. Quando está fora do poder, é outro. (risos) Veja isso nos jornais antigos!

O senhor teve experiências com Antonio Carlos?
Não, fomos bons amigos, ele foi do meu tempo de ginásio, convivemos juntos, fui amigo do irmão dele, Zezito. Nunca ocupei nenhum cargo, nada. Relacionamento cordial e nada mais que isso.

Mas, fazendo um balanço da gestão, ele foi bom gestor, modernizou a Bahia?
Ele modernizou, marcou. Mas com o temperamento dele, exclusivo, conseguiu não ser querido, e sim ser temido.

Qual a relação dele com as tradicionais famílias baianas? Ele que acelera a decadência?
Também. Porque não os indicou, como era de praxe, para os cargos essenciais da administração pública.

Aí entram os técnicos...
Os tecnocratas. Acaba com aquele negócio de o sujeito nascer sabendo que vai ser diretor de banco.

Quais eram os bons lugares? Trabalhar no Estado, no Banco Econômico...
E na prefeitura (de Salvador). E na Magalhães & Cia.

O golpe de 1964 alterou as relações políticas?
Não, não houve. É como na Revolução de 1930. Não havia revolucionários em 30. Quando a Revolução ganhou, acabou-se o estoque de pano vermelho nas lojas. Porque todo mundo estava de lenço vermelho nos pescoços, todos viraram revolucionários. Nada se parece mais com um conservador do que um liberal no poder. A frase não é minha, não, mas é verdadeira. Isso é aplicável a todos os outros movimentos.

O vira-casaquismo.
O vira-casaquismo é normal.

Isso aconteceu com o governador Jaques Wagner (PT). Ele entrou e todo mundo virou a casaca.
É, mas sabe que não o conheço pessoalmente? Nunca o vi.

Aquele negócio de Paulo Mercadante, de José Honório Rodrigues, de que no Brasil sempre houve uma tradição de combinação pelo alto, é uma regra na Bahia? Se Geddel tomar o poder...
Todo mundo é geddelista. (risos)

Os cristãos-novos, na Bahia, se integraram logo, né?
Logo. Foram ser donos de mobiliaria no Desterro. (risos)

E os espanhois?
Não se meteram nisso. Se contentaram em ficar donos de armazéns, ou morrer ricos, ou morrer pobres. Ficaram fora do processo (político).

Vamos falar no corpo, porque está muito na moda falar no corpo...
Cada tempo tem seu padrão. E agora há esse padrão... Não havia essa psicose da magreza e também não havia a psicose da gordura.

E as mulheres eram desejáveis por serem...?
Repolhudas!

 

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