Claudio Leal
Na fogueira do debate sobre o projeto de uma ponte bilionária, a Ilha de Itaparica volta a registrar crimes neste verão. Numa carta dirigida ao governo da Bahia, as associações comerciais dos dois municípios situados na ilha relataram assaltos e cobraram ações do Estado para conter a violência.
Localizada a 50 metros da delegacia de Vera Cruz, uma agência do Banco do Brasil foi assaltada no fim-de-semana. "Durante a madrugada, ladrões, usando de 'meios sofisticados', roubaram R$ 500.000,00 dos caixas eletrônicos do banco do Brasil que fica em frente à 24ª. Delegacia de polícia de Vera Cruz, ao lado da carceragem e muito próximo a 5ª CIPM", diz a carta assinada por entidades da área comercial e hoteleira. Ainda não houve resposta do secretário de Segurança Pública, César Nunes.
Leia também:
» João Ubaldo: "Bahia tem descaso horroroso com patrimônio"
» João Leão: Escritores estão de um lado, o povo está de outro
» "Adeus, Itaparica", por João Ubaldo Ribeiro
» Emanoel Araújo propõe tombamento da Baía de Todos-os-Santos
» Siga Bob Fernandes no twitter
"Na mesma noite, 4 homens em motocicletas, fizeram um verdadeiro 'arrastão' nas localidades de Coroa, Taipoca e Barra do Gil. Sem qualquer intervenção policial", prossegue o relato. Em novembro de 2009, a pousada Privilege foi invadida por assaltantes. O turista francês Emile Etunon terminou esfaqueado no peito e teve a orelha direita decepada. O dono da pousada, espancado.
Nascido na Ilha, o romancista João Ubaldo Ribeiro denunciou o crescimento da violência e, há duas semanas, atacou a ideia de construir a ponte Salvador-Itaparica, que poderá agravar a preservação do paraíso ecológico e degradar ainda mais a segurança. Presidente da Associação Comercial de Vera Cruz, a empresária Lenise Ferreira critica a inação dos governos municipais e estadual:
- Nós estamos a 13 km de Salvador, mas vivemos um período de total abandono. Estou na Ilha há 20 anos e posso garantir que não tivemos um único investimento em faculdades, emprego e renda. Até temos faculdades, mas poucos são aqueles que têm condições de participar. O ensino fundamental é precário. Não tem trabalho. Sou uma das poucas que ofereço emprego - diz a Terra Magazine, por telefone.
Dona de uma loja de material de construção e de uma corretora de seguros, Lenise emprega 84 pessoas. Defende o projeto da ponte, mas ressalta o desprezo dos órgãos oficiais às reivindicações dos moradores da maior ilha marítima do Brasil.
- A violência vem crescendo nos últimos cinco anos. Nenhum dos pontos de entrada na Ilha, e são poucos (Ponte do Funiel e nos terminais marítimos), tem fiscalização. Pedimos câmeras nos terminais, seria uma forma de inibir. Os marginais entram e saem tranquilamente. Cortaram a orelha do francês e se deram ao luxo de ir pelo ferryboat. Um deles já fugiu da delegacia - lamenta.
Segundo as associações, fundamentadas em dados da Secretaria de Segurança Pública, durante o verão cerca de 28% da população de Salvador migra para a Ilha. Na tarde desta terça-feira, ninguém atendeu ao telefone na delegacia de Vera Cruz. Lenise Ferreira avalia o debate sobre a ponte nesse torvelinho:
- Interpretaram errado as palavras de João Ubaldo. Conversei com ele. Sou muito a favor da ponte, acredito que virá muitas oportunidades, mas temos que sentar, discutir, ver como será. Como diz Ubaldo, enquanto a ponte não vem, nós vamos continuar nessa situação de abandono? Essa é a posição de João Ubaldo. Isso vai servir de palco pras eleições. Vamos continuar sem segurança, saúde, educação e transporte?
O interior da Bahia também viveu um fim de semana de terror. A cidade de Amargosa (a 118 km de Salvador e próxima de Itaparica) assistiu a um saque comandado por vinte homens com fuzis. Foram roubadas as agências do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, uma casa lotérica e uma loja de móveis.
» Relator da Lei Geral: Governadores é que podem agilizar liberação de cerveja na Copa
» Dom Odilo e o aborto de anencefálicos
» Representante da OAB-SP: Lei Seca agora é só para desavisados