Atualizada às 08h29 Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Ouço narrações de jogos de futebol desde sempre, por várias razões. Uma delas, acho, é puro saudosismo. Falante de um dialeto italiano na infância, e falando, obviamente, o português que decorria do contato entre as duas línguas (um português italianado, digamos), foi ouvindo narradores e outras locuções de rádio que tive meu primeiro contato direto com o português propriamente dito (que os linguistas não me leiam!). Ouvia muito Fiori Gilgliotti, que era meio parnasiano, e lia a Revista do Esporte, que, ao lado do Correio Riograndense, um jornal dos capuchinhos de Caxias do Sul que o vigário fazia os fiéis assinarem, eram minha "biblioteca". Foi assim que aprendi português (e não estudando gramática...).
(Uma observação importante: o tal português italianado a que me referi informalmente não tinha - e continua não tendo - nada a ver com "falar de qualquer jeito": tudo era (e é) perfeitamente regulado, regrado, gramaticalizado - na cabeça dos falantes. Tanto que todos o falavam (e falam) seguindo as mesmas regras).
Mas eu dizia que ouço narradores por vários motivos. Alguns porque são razoavelmente inventivos, outros simplesmente porque me contam como está um jogo que me interessa. Às vezes, implico com os narradores do futebol mostrado pela TV que pensam que estão no rádio - que os ouvintes não estão vendo. "Vejo" jogos com um livro ou revista ou jornal na mão: vou lendo e, quanto o locutor acelera, dou uma espiada para ver como termina a jogada mais aguda, que às vezes nem é tanto. Efeito dos "melhores momentos"? Pode ser. Mas acho que estou também com uma capacidade cada vez menor de suportar chatice.
E os comentaristas? Eu preferiria não ouvir, mas, como não dá para apagar o que dizem... Para eles, o jogo deveria desenvolver-se numa prancheta. Não haveria erros, falhas, os técnicos fariam suas figurinhas ocupar todos os espaços. As defesas nunca sofreriam gols, mas, paradoxalmente, os atacantes marcariam muitos. As taxas sobem quando comentaristas são ex-jogadores que perderem muitos gols ou foram muito driblados ou vazados.
São três as coisas que mais me espantam (chego enfim a meu assunto). Pela ordem: Há um narrador que exclama "com muita força" sempre que uma bola sobe muito, mesmo que seja com pouca velocidade, isto é, que tenha sido chutada com pouca força. "Muita força" quer sempre dizer 'muito alto'. O jogador avança, chuta ou cruza, mas a bola passa sobre o travessão ou sobre todos, na área. E ele: chutou "com muita força". Mas quando a bola, violentamente chutada, mas rasteira, passa pelo goleiro e entra, ou se vai pela linha de fundo, ou mesmo se um passe é forte demais e por isso o destinatário não alcança a bola, ele nunca diz que foi "com muita força". Só quando a bola sobe, mesmo que fraquinha...
Minha segunda implicância: um atacante baixo faz um gol de cabeça, golpeando a bola a um metro ou um metro e meio de altura, num espaço por alguma razão vazio (os comentaristas sempre dizem, antão, que algum defensor falhou), e os narradores se espantam porque um baixinho fez um gol de cabeça numa defesa de gigantes. Mas os gigantes estavam longe e a bola estava BAIXA!
A terceira: um zagueiro é coberto pela bola e atrás dele um adversário cabeceia e faz um gol (vale também para bolas rasteiras que alcançam um atacante num espaço vazio). Explicação do comentarista: o zagueiro olhou a bola e não olhou o jogador. Se tivesse olhado o jogador, este não teria feito o gol, diz ele, sempre! Mas eu digo que ele olhou MAL a bola ou que esta foi muito BEM colocada pelo adversário, exatamente onde o defensor não poderia alcançá-la. Lembro perfeitamente de ter lido, naqueles tempos, que Amaral era um excelente zagueiro, e, ademais, não violento, exatamente porque seu segredo era olhar a bola. Ele queria interceptar a bola, e não partir ao meio um atacante. Por isso, olhava a bola e sempre chegava antes do atacante (sempre não, só quando conseguia... mas conseguia muitas vezes). No jogo contra a Espanha na Copa de 78, ele impediu a entrada da bola no gol do Brasil duas vezes, em cima da linha (o Leão já era!), exatamente porque olhava a bola (quem viu viu, quem não viu, azar! Quem manda ser jovem!). Goleiros que olham o jogador sempre erram o canto nos pênaltis (vide Rogério Ceni diante de Neymar). Zagueiros que olham para o atacante levam dribles de corpo. Eles deveriam olhar a bola.
Não estou dizendo que as descrições devam ser literais (chamem a bola de gorduchinha, o ângulo do gol de lugar em que a coruja dorme, até mesmo o chute forte de tiro). Ela não pode ser boba.
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Um senhor explica ao repórter que é impossível prever se Cabañas voltará a jogar. Mais ou menos repetitivamente, diz que sobreviver ao tiro na cabeça já é um milagre. Se voltar a jogar, será evidentemente um milagre maior. Impossível prever, repete três ou quatro vezes - o que é normal. E então vem a outra pergunta do repórter: "Faltam quatro meses para a Copa. O senhor acha que até lá ele vai poder se recuperar?". Mas o cara não tinha acabado de repetir quase cansativamente que salvar-se já foi um milagre, que prever qualquer coisa impossível?
No caso, eu podia mudar de canal. E mudei.
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Agência Lance
O linguista Sírio Possenti conta quais são as manias de locutores de futebol que mais lhe irritam
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