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Sexta, 12 de fevereiro de 2010, 08h07

Quem é o pai de Forza Italia?

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

Forza Italia, o primeiro partido que Silvio Berlusconi fundou, em 1993, seria o resultado de uma negociata entre o Estado italiano e a máfia siciliana, pouco depois dos atentados que assassinaram os juizes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, em 1992. É uma das afirmações mais bombásticas de Massimo Ciancimino, filho de um ex-prefeito mafioso de Palermo, durante um longo depoimento no tribunal da capital siciliana.

As declarações de Ciancimino ocorreram no processo contra o general Mario Mori e o coronel Mauro Obinu, acusados de não ter preso o chefão de Cosa Nostra, Bernardo Provenzano, embora soubessem muito bem onde era seu esconderijo.

Para comprovar suas revelações, Ciancimino citou um dos "pizzini" (bilhetinhos) que Provenzano escrevia para comunicar com seus homens, neste caso dirigido a Marcello Dell'Utri e Silvio Berlusconi, fundadores de Forza Italia. Ele mesmo teria entregue o bilhete ao pai, Vito Ciancimino - que na época dos atentados estava preso. O recado de Provenzano dizia: "quero dar minha contribuição, que não será inútil, para que este triste evento não aconteça, e estou convencido que Berlusconi poderá colocar à disposição seus canais de televisão".

O "triste evento" - segundo Massimo Ciancimino - de que falava o chefe de Cosa Nostra era a ameaça de sequestro de um dos cinco filhos do atual primeiro ministro italiano.

- Meu pai me disse que, com essa mensagem, Provenzano queria chamar a atenção de Berlusconi e Dell'Utri, para que se comportassem bem. E me disse que o partido Forza Italia nasceu graças a uma negociação e que Berlusconi era fruto de todos esses acordos.

O advogado de Berlusconi, Niccolò Ghedini, responde que as acusações de Ciancimino não têm o menor fundamento, ameaçando uma queixa-crime por difamação. O filho do ex-prefeito - considerado uma testemunha credível pelos magistrados de Palermo Antonio Ingroia e Nino Di Matteo (sucessores de Falcone e Borsellino) - revelou que nos últimos dias recebeu novas ameaças, inclusive um bilhete posto no parabrisas de seu carro que dizia: "Nem os juizes de Palermo vão te salvar".

A reação dos direitistas italianos foi dura. Um dos acusados, o senador Marcello Dell'Utri, tachou de loucura o depoimento de Massimo Ciancimino:

- Na época nós não éramos o Estado. Não tínhamos condições para tomar parte desta negociação, se é que houve realmente um contato entre o Estado e a máfia - afirmou o senador, amigo pessoal de Berlusconi, que acrescentou que, por trás das declarações de Ciancimino, "há um plano criminoso" e que os responsáveis são os juizes de Palermo. O ataque de Dell'Utri aos juizes sicilianos abre um novo capítulo da eterna guerra de Berlusconi e de seus homens contra o poder judiciário na Itália. Dell'Utri tem boas razões para atacar: em 2004, ele foi condenado pelo tribunal de Palermo a 9 anos de prisão por "associação criminosa de tipo mafioso", que no Brasil corresponde a crime de quadrilha.

No caso do partido Forza Italia, a mãe, como sempre, é certa. Mas o pai é um assunto meio misterioso.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


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EFE
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