Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Os Dias da Peste, Fábio Fernandes. São Paulo: Tarja Editorial, 2009, 184 páginas. Capa de Marcelo Tonidandel & Verena Peres. Introdução de Adriana Amaral. Texto de orelha de João de Fernandes Teixeira.
O carioca Fábio Fernandes é uma das figuras da Segunda Onda que começaram escrevendo para fanzines na década de 1980, e que, assim como Gerson Lodi-Ribeiro e Carlos Orsi, ganharam relevo com sua ligação com o "Grupo da Renovação" surgido por volta de 2007, capitaneado por Octávio Aragão e o seu projeto Intempol©. Em anos recentes, a Internet valorizou muito a atuação direcionadora de Fernandes sobre a Terceira Onda, e o seu status de especialista brasileiro em cibercultura: ele é autor de A Construção do Imaginário Cyber: William Gibson, Criador da Cibercultura (Editora Anhembi Morumbi; 2004).
É por isso que optei por adquirir o novo livro pela Internet. Acho que fui um dos primeiros a fazer o pedido. Os Dias da Peste chegou em perfeitas condições, com um exemplar de Sob a Luz do Abajur, de Richard Diegues, como brinde. Não obstante, assim que abri o pacote senti uma certa decepção. Durante a FantastiCon 2009, os editores da Tarja deram a entender que fariam um esforço promocional em torno do primeiro romance de Fábio Fernandes, que sugeria que a editora também se preparava para um salto maior de distribuição e marketing. O livro, porém, não traz a mesma qualidade e o espírito inovador na apresentação visual e na diagramação, que vem caracterizando a Tarja desde o seu surgimento.
Mas o romance propriamente dito é inovador em vários aspectos: seu assunto é a singularidade, a suposta arrancada digital que nos levaria a perder o pé das transformações tecnológicas, que iriam adquirir algum nível de autonomia em relação aos seus criadores. No formato, este romance-curto pretende ser uma obra redescoberta em 2109, cem anos no futuro, quando as nossas referências culturais estariam quase que irreconhecíveis. Mais que isso, tenta invocar os formatos do blog e do podcast e o seu contexto social, fundindo essas expressões da era digital à especulação da ficção científica. Notas de rodapé da editora de 2109 respondem pelas tentativas de humor (que eu pulei sem dó), ao comentar referências que para nós são triviais, mas a partir do ponto de vista da comentadora do futuro e da enorme distância cultural que a acompanha.
Blogs e podcasts freqüentemente possuem um caráter de expressão pessoal, perto da crônica ou da confissão. Daí que Os Dias da Peste acaba sendo mistura de ensaio, confissão e ficção. Seu protagonista, Artur Mattos, é um sujeito muito parecido com o autor - um professor universitário voltado à cibercultura e um fã de ficção científica, que, na ficção, é também técnico de computadores. Dez ou doze anos mais jovem do que Fernandes, está numa posição vantajosa para testemunhar as vastas transformações que mundo sofre, a partir do estranho comportamento - exasperado, ofensivo, desconexo - dos PCs que Artur tenta, em vão, consertar.
Conforme esses comportamentos estranhos vão aumentando de freqüência, a narrativa muda de um "diário híbrido" para um blog, e, após a singularidade, para um podcast. O exato momento da "virada", porém, é pouco explorado - talvez um erro estratégico do romance, que, de resto, não investiga muito do mundo transformado pelas inteligências artificiais (ou "inteligências construídas", como o autor escolheu chamar). Mesmo quando uma praga de loucura ou vampirismo é introduzida no romance, aparentemente causada pela convivência entre humanos e ICs, a ação e a dramaticidade são interrompidas pelo retorno à confissão intimista. A mudança é referida constantemente, mas as mudanças que o leitor enxerga não vão muito além daquelas experimentadas pelo memorialista/blogueiro/podecaster Artur Matos. Ao final do livro, a proximidade com Artur prepara efetivamente o leitor para o envolvimento com o dilema pessoal que ele sofre, tendo as duas "pessoas" mais próximas dele em choque: a namorada e colega de trabalho Anna, e Angel 45, a "sua" IC.
Se Artur é o centro, há um número de personagens secundários que nunca ganham vida própria (especialmente as inteligências construídas), e situações repetitivas de um cotidiano circunscrito à vida de Artur. A situação mais revista é a dos encontros com o personagem Sant'Ana em um café, onde os dois reencenam sempre o mesmo diálogo. (Sant'Ana é provavelmente uma homenagem a Sérgio Sant'Ana, o renomado autor mainstream.)
O peso do cotidiano sobrevive até à tentativa de uma prosa cyberpunk no início da terceira parte, e se harmoniza com a voz onipresente do protagonista-narrador, e com a própria estrutura do romance. Nisso, Fernandes contribui para o que parece ser uma tendência atual da ficção especulativa brasileira, de empregar aspectos autobiográficos ou pessoais/profissionais dos seus autores, tendência indicada por romances como O Vampiro da Mata Atlântica, de Martha Argel, e Kaori: Perfume de Vampira, de Giulia Moon, ambos de 2009. Os Dias da Peste concentra a atenção sobre a personalidade do protagonista, que é alter ego do autor.
Particularmente interessante para as discussões da ficção científica, é a data para a qual Fernandes projeta a singularidade - 2010, este ano mesmo que estamos vivendo. O que isso nos diz quanto à sempre levantada questão de uma obra de ficção científica ser ou não datada?
O fato é que esse sempre foi um argumento débil: ficção é obra de imaginação e construção literária; não tem prazo de validade porque, por exemplo, a Inglaterra não se tornou um estado totalitário em 1984 - e embora não faltem estados totalitários por aí. O que Fábio Fernandes pode estar sugerindo é que a pulsão da mudança já se faz sentir em nosso agora. Eu suspeito que ela não levará ao tipo de mudança que ele narra em seu romance, mas isso não o torna menos válido como especulação. O próprio Fernandes põe na boca de um de seus personagens: "Ser datado não é ser fútil."
Como literatura de ficção científica, fica o desafio de onde situá-lo dentro do atual leque de retóricas críticas em circulação. O meu palpite é de que Os Dias da Peste se situa dentro da proposta de confluência de mainstream literário e FC, a bandeira atual de Nelson de Oliveira. Afinal, o neurótico e exasperado Artur não é um protagonista típico da FC, e o romance faz um esforço claro no sentido de abrir mão da intriga e do enredo, em favor da mistura de gêneros - o ensaio, a confissão, a crônica e, talvez por último, a ficção científica.
O seu maior problema está na estrutura e na carência de uma dramatização substancial das transformações radicais que propõe, submetida ao apelo do cotidiano na caracterização de Artur. O leitor não sente a presença institucional, política, que deveria estar debruçada sobre a questão das inteligências construídas, nem o seu impacto social na vida das pessoas. Logo de início sente-se que o autor apanhou suas anotações acadêmicas e os textos de seu blog para montar um romance de estrutura inovadora mas incerta, e a falta de uma melhor amarração das transições de uma parte à outra só confirma essa impressão. Por fim, o recurso aparece expresso no próprio romance, numa das várias conversas de Artur com Sant'Ana: "Por que é que você não aproveita que você anda com um terminal pendurado no pescoço e sai ditando tuas experiências pela rua? Aquele teu diário que você escrevia quando a gente se conheceu ainda existe?"
Não obstante, Os Dias da Peste é talvez um livro como nenhum outro dentro da ficção científica brasileira, obra que busca na mistura de gêneros e na caracterização da cibercultura, a sua inserção na literatura pós-modernista atual.
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Reprodução
Os Dias da Peste, Fábio Fernandes. São Paulo: Tarja Editorial, 2009
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