Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Xochiquetzal: Uma Princesa Asteca entre os Incas, Gerson Lodi-Ribeiro. São Paulo: Editora Draco, 2009, 144 páginas. Capa de Roko.
O engenheiro e astrofísico Gerson Lodi-Ribeiro faz parte do Fandom Moderno de Ficção Científica desde os seus primeiros anos, antes mesmo da fundação do Clube de Leitores de Ficção Científica, em 1985. Escreveu para fanzines como Boletim Antares e Somnium, publicou profissionalmente suas primeiras histórias nas revistas Antarès (francesa) e Isaac Asimov Magazine, e os primeiros livros de contos em Portugal. Antes associado à FC hard, ele rapidamente construiu para si - especialmente nas páginas do fanzine Megalon - a reputação de ser um dos principais proponentes da história alternativa no Brasil. Sua noveleta "A Ética da Traição" (1993), é um dos primeiros clássicos desse subgênero que tem como antecedente no Brasil o romance curto de José J. Veiga, A Casca da Serpente (1989).
Lodi-Ribeiro ainda está ligado à FC hard, já que elaborou as regras do universo ficcional do jogo Taikodom - e até publicou, também em 2009, uma coletânea de noveletas de space opera ambientadas nele, Taikodom: Crônicas (pela Devir). Na história alternativa, ele desenvolveu duas séries principais, uma sobre "vampiros científicos" num Brasil seiscentista; e a outra sobre uma heroína que testemunha uma realidade alternativa em que Portugal descobriu primeiro a América (batizando-a de Cabrália) e fez aliança com astecas e incas.
Essa segunda série, até então composta de duas ou três histórias, foi desenvolvida sob o pseudônimo de "Carla Cristina Pereira". Com o lançamento de Xochiquetzal pela Editora Draco, Lodi-Ribeiro assume o pseudônimo.
Este é um romance curto que, no formato narrativo e na diagramação interna, tenta evocar uma crônica histórica, com direito a um estilo arcaico e formas convencionada de tratamento e de descrição. Esse recurso é mais evocação que reconstrução, e não obstante (e de longe), constitui o ponto alto do livro.
A jornada narrada em primeira pessoa pela princesa asteca Xochiquetzal, casada com Vasco da Gama e cronista dos seus feitos, começa em Calicute, na Índia, para onde Vasco da Gama vai com uma esquadra em expedição punitiva. Tendo realizado a vingança do Rei de Portugal, a esquadra segue para outras missões e pelo caminho descobre a passagem para as Índias contornando o extremo sul da África. Enfim, o impiedoso almirante é convocado para retornar à Cabrália a fim de ajudar o imperador inca Atahualpa na sua guerra civil contra o irmão, Huáscar, quando da morte do antigo imperador, Huayna Capac. Nessa nova incumbência, Vasco da Gama e seus colegas portugueses e tropas astecas jogam o peso da superioridade bélica européia de maneira que, hoje, chamaríamos de totalmente desproporcional.
Xochiquetzal o acompanha fielmente, e mantém-se sempre dentro de um pragmatismo submisso, expresso apenas nos aposentos de Atahualpa, pelo irmão da princesa, Itzcoatl: "Adotem tão-somente as melhores dádivas de que são pródicos nossos suseranos, pero que lutem para preservar vosso valores intocados lá no fundo de vossas almas, tal como os ensinamentos de vossos antepassados. ... Sigam por esse caminho, ao menos enquanto estiverem a aprender a ser mais lusos do que os próprios lusos." O máximo que ela faz - assim como Atahualpa - é questionar em alguns momentos, a sede de sangue e a brutalidade desproporcional dos portugueses.
Xochiquetzal e Itzcoatl foram levados a Lisboa ainda crianças, e educados na cultura portuguesa. Talvez isso responda pelo fato da narrativa dramatizar tão pouco de um choque cultural. A acomodação anunciada na fala dirigida ao imperador inca é a tônica do romance, e para que ela se realize é preciso deixar de fora tanto sacerdotes astecas e incas, quanto os historicamente ubíquos padres portugueses. Toda a ação está nas mãos dos grandes navegadores e generais.
Meio que como ocorre com Os Dias da Peste, de Fábio Fernandes, este livro de Lodi-Ribeiro ressente-se das limitações do formato. Mesmo como testemunha direta das batalhas, a cronista Xochiquetzal não lhes imprime qualquer humanidade ou dramaticidade. A crônica histórica é direta, factual, e permite pouco em termos de mergulho interior ou cenas bem constituídas em que haja conflitos palpáveis entre os personagens. Tanto que, apesar de se articular em torno de batalhas, este é um livro sem antagonistas. A crônica de Xochiquetzal permite, por outro lado, que o autor desfile a sua preferência pelo texto explicativo e descritivo. De fato, o romance progride de infodump em infodump, com algum esboço de cena ou reflexão intercalando-se aqui e ali.
Fica, porém, um certo fascínio pela linguagem e pela sugestão de um outro continente americano e de uma outra história, que esta rara heroína de cor logrou suscitar.
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Reprodução
Xochiquetzal: Uma Princesa Asteca entre os Incas
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