Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Em março de 1969, entre os dias 24 e 30, o tradutor e fã de ficção científica José Sanz organizou, em promoção do Instituto Nacional do Cinema, do Ministério da Educação e Cultura e da Secretaria de Turismo do então Estado da Guanabara, o "Simpósio de FC", evento integrante do II Festival Internacional do Filme no Rio de Janeiro.
Assessorado por Fred Madersbacher, Wilson Cunha e Monica Leib, Sanz trouxe para o Rio de Janeiro um número de sumidades internacionais desse gênero na literatura e no cinema. Dos Estados Unidos, vieram Forrest J. Ackerman, Karen e Poul Anderson, Alfred Bester, Robert Bloch, Leigh Chapman, Roger Corman, Carol e Ed Emshwiller, Harlan Ellison, Philip José Farmer, Harry Harrison, Robert A. Heinlein, Damon Knight e Kate Wilhelm, George Pal, Frederik Pohl, Robert Sheckley e A. E. van Vogt. Da Espanha veio Luis Gasga. Da França vieram Jacques Baratier, Robert Benayoun, Michel Cae e Jacques Sadoul. Da Inglaterra, Brian W. Aldiss, J. G. Ballard, John Brunner, Val Guest e Rolf Rilla. Do Uruguai veio Marcial Souto. E Um outro inglês, Arthur C. Clarke, também esteve lá para ser homenageado com o troféu "Monólito Negro".
Do Brasil estiveram presentes André Carneiro, Clóvis Garcia, Ruy Jungman, Álvaro Malheiros, Walter Martins e Jerônymo Monteiro. Martins, que falava inglês, fez estas minientrevistas com alguns dos principais nomes presentes no Simpósio, para a coluna semanal de Jerônymo Monteiro, na Folha de S. Paulo.
Por alguma razão (Martins cita a doença de Monteiro, que viria a falecer em 1970), elas nunca foram publicadas - até agora, depois que Martins as enviou para mim em 1.º de outubro de 2009.
É interessante como as questões formuladas por Martins em 1969 antecipavam debates que floresceriam na década de 1980, ou até mesmo agora. Suas questões quanto a uma FC de país desenvolvido, comparada à de um país subdesenvolvido, só voltariam a ser formuladas na década de 1980, com o Movimento Antropofágico da FC Brasileira, iniciado por Ivan Carlos Regina. Walter me contou que essa questão era uma ansiedade dele, mas que foi conversada com outros da Geração GRD, embora não tenha levado a uma discussão maior. De modo semelhante, a questão final, feita a Frederik Pohl, está na ordem do dia hoje, quando jovens fãs e autores se perguntam se estratégias pulp não seriam a melhor maneira de conquistar o grande público.
Brian Aldiss
1. Qual é a diferença entre a velha guarda e a vanguarda na Inglaterra? Até onde você aprova ou desaprova a vanguarda? Por quê?
Os velhos tendem a escrever sobre engenharia, os jovens sobre metafísica. Ambos têm o seu lugar. Eu escrevo sobre amor e ódio, miséria e riso. Eles também existirão no mundo do amanhã.
2. Você diria que as suas histórias expressam uma filosofia ou ponto de vista consistente? Eles têm mudado ao longo dos anos (ou estão mudando)?
Eu não sei. Certamente as minhas histórias - suas estruturas, seus conteúdos - têm se alterado grandemente ao longo dos anos: e eu creio que elas estejam se alterando dinamicamente de um modo que será afetado por esta visita ao Rio. Embora eu seja um homem de muitas inconsistências, acredito que os críticos encontrarão ao menos a consistência do complexo padrão de minha vida, no meu trabalho.
3. Deveria haver uma diferença na FC publicada em um país desenvolvido, se comparada a um país subdesenvolvido? Você acha que haveria problemas diferentes envolvendo a criação de temas, ambientação e heróis?
Uma pergunta boa e profunda. Nós reconhecemos na FC um dos novos idiomas internacionais, mas ele certamente deve falar, vez ou outra, de casos particulares: o problema do crescente abismo entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos é, afinal, motivo de grande pesar internacional. Eu já disse isto antes: "O desafio de hoje não é o espaço, mas as pessoas." Uso o caso particular da Índia em várias das minhas histórias mais recentes, e adapto meus temas para caberem nesse caso grave de esperanças partidas. Eu também gostaria de usar ambientações brasileiras (mais complexas que as indianas), mas talvez isso devesse ser deixado aos gênios locais como André Carneiro. Talvez!
Poul Anderson
1. Deveria haver uma diferença na FC publicada em países desenvolvidos, se comparada a um país subdesenvolvido? Temas e assuntos poderiam ser os mesmos, com facilidade?
Provavelmente não. Afinal, as pessoas de maior educação em todos os países são realmente muito parecidas. É claro, possivelmente temas de pioneirismo, aventura, avanços tecnológicos, etc., podem ser mais populares em países que sejam menos urbanizados - mas provavelmente todos os temas encontrarão seus leitores em todos os países.
2. Você diria que suas histórias têm uma filosofia ou ponto de vista consistente? Elas mudaram ao longo dos anos (ou estão mudando)? É difícil para um escritor julgar o seu próprio trabalho, mas eu acho que tenho expressado uma filosofia razoavelmente consistente - uma que, eu gosto de acreditar, é humana e libertariana, a favor da ciência e da tecnologia, mas contra o seu uso abusivo. É verdade que ao longo dos anos eu me tornei mais conservador politicamente do que antes, mas eu espero que isso seja mais resultado do estudo e da observação, do que resultado de qualquer mudança básica de caráter.
John Brunner
1. Deveria haver uma diferença na FC publicada em um país desenvolvido, se comparada a um país subdesenvolvido? Você acha que haveria problemas diferentes envolvendo a criação de temas, ambientação e heróis?
Inevitavelmente, os temas que terão apelo junto aos escritores de FC num país avançado irão diferir daqueles que parecem aos escritores num país subdesenvolvido como sendo importantes. Problemas de lazer excessivo, por exemplo, dificilmente fornecerão material para histórias em um país onde o dia médio de trabalho é de 12 horas! Eu sinto, contudo, que escritores de FC em um país "subdesenvolvido" não deveriam restringir deliberadamente a sua escolha de tema a assuntos relevantes e próximos. É uma das grandes vantagens da FC que seus escritores possam extrair seus assuntos de qualquer lugar do universo!
Harlan Ellison
1. Você acha que os filmes de FC deveriam seguir mais cuidadosamente as histórias das quais são adaptados? Se a resposta for sim, por que; e se for não, por quê?
Tendo trabalhando extensivamente em Hollywood, tanto em cinema quanto em televisão, minha resposta teria de ser absolutamente sim. Muito freqüentemente tenho visto histórias e romances enormemente originais serem assumidas por escritores menos talentosos, e visto essa propriedade ser corrompida, simplificada e rebaixada até que não seja nada melhor do que uma enxurrada sem fim de filmes de "formigas gigantes" que foram praga tanto no cinema quanto na ficção científica do começo da década de 1950.
O fato simples da questão é que aqueles que trabalham com o meio visual estão pelo menos trinta e cinco anos (possivelmente mais) atrás das tendências atuais da ficção científica. Lidando essencialmente com tópicos de expressão contemporânea, esses homens não têm nem o tempo nem a inclinação para acompanhar o pensamento mais recente da ficção científica. Por causa do seu quase-anafalbetismo relativo ao gênero, eles postulam que esse tipo de falta de familiaridade prevalece em todos os freqüentadores de cinema. Eles pré-censuram o trabalho, cheios do medo e timidez de todos aqueles que adaptam e não criam genuinamente, de que os conceitos estejam muito acima do alcance do freqüentador mediano. Na realidade, não há tal criatura, o "freqüentador mediano", e se - impossivelmente - existisse tal criatura, ele certamente teria mais em termos de mentalidade do que os adaptadores acreditam que ele tenha. Mas por causa desta pré-censura, essa reação exagerada de anti-intelectualismo, os adaptadores diluem os conceitos, e apresentam as coisas de maneira simplificada, não mais exigente para um adulto do que uma história em quadrinhos.
Os próximos dez anos verão mais e mais escritores de ficção científica da "new wave" indo para o meio visual. Além de mim mesmo, Norman Spinrad, Theodore Sturgeon, Richard Matheson, Jerome Bixby, Arthur C. Clarke e outros estão se dando conta de que o escritor de hoje não pode se concentrar meramente na palavra impressa. A experiência de mistura de mídias, o "romance cinético", o script, essas são formas de arte válidas. E se desejamos ver o nosso trabalho feito corretamente, devemos fazê-lo nós mesmos.
Robert A. Heinlein
1. Deveria haver uma diferença na FC publicada em países desenvolvidos, se comparada a um país subdesenvolvido? Temas e assuntos poderiam ser os mesmos, com facilidade?
Eu não consigo ver por que "desenvolvido" versos "subdesenvolvido" devesse ser um critério neste caso. Se você fala dos nossos dois países, certamente os Estados Unidos do Brasil são pelo menos tão sofisticados como os Estados Unidos da América (do Norte); a diferença é apenas de uma população menor para um território que é aproximadamente o mesmo. E quando eu era garoto, meu país tinha uma população menor do que o seu tem agora... e o nosso autor de ficção científica favorito e mais popular era H. G. Wells. (Quod est demosntrandum - não?)
2. Você diria que suas histórias têm uma filosofia ou ponto de vista consistente? Elas mudaram ao longo dos anos (ou estão mudando)? Acho que minhas histórias têm demonstrado uma filosofia consistente ao longo dos anos - id est, a dignidade do homem, a importância da liberdade, a maravilha que é o nosso universo. Mas eu espero que a minha filosofia tenha amadurecido e se tornado mais clara ao longo dos anos.
Damon Knight
1. Qual é a melhor abordagem de um crítico, para auxiliar o desenvolvimento da FC em um país com poucos escritores e com uma tradição jovem de FC? Eles deveriam julgar suas histórias pelos padrões mais elevados dos escritores americanos e ingleses?
Essa é uma pergunta difícil. Se as histórias não corresponderem a esses padrões, e se você diz isso repetidamente e em público, parece provável que irá desencorajar os escritores e editores, e talvez abortar o crescimento da FC. Mas resenhas hipotéticas são inúteis, ou pelos menos eu sempre acreditei nisso. Acho que é possível encontrar um meio-termo, ao se elogiar o que quer que possa ser elogiado, e apontar gentilmente na direção de como poderia melhorar. Estou feliz de que eu não tenha mais que encarar esse problema. Como resenhador de livros, por nove anos eu usei uma vara para tocar o burro; agora, como editor, eu uso uma cenoura, e acho isso muito mais efetivo e satisfatório em todos os aspectos. Sr. Martins, lamento que tenhamos tido tão pouca oportunidade de conversar com você e com outros escritores brasileiros. Se formos convidados novamente, espero que tenhamos tempo para sessões formais e informais, nas quais possamos nos conhecer melhor. Enquanto isso, tento formar a minha própria opinião da FC brasileira. Tenho vários contos, e estou avançando através deles, mas é um trabalho lento.
Frederik Pohl
1. Um editor brasileiro deveria baixar o padrão das suas histórias, na tentativa de alcançar um público maior neste país onde poucas pessoas lêem tal material? Que desafios diferentes um editor enfrenta nestas circunstâncias?
Se eu fosse um editor brasileiro, acho que eu tentaria recapitular a história do desenvolvimento da ficção científica nos Estados Unidos e Inglaterra. Primeiro eu publicaria as histórias bem simplistas (mas excelentes e, no seu tempo, espantosamente inovadoras) do tipo escrito por H. G. Wells e Edgar Rice Burroughs, juntamente com aquelas de escritores posteriores como John Wyndham (O Dia das Trífides, por exemplo), que escreveu histórias bem similares. Depois eu tentaria publicar algo da "space opera" do fim dos anos 20 - Edward E. Smith, as primeiras histórias de John W. Campbell, etc. - e seguir então com trabalhos de Stanley G. Weinbaum, o começo de van Vogt, etc. Finalmente eu imprimiria as histórias de Robert A. Heinlein, L. Sprague de Camp, Lester del Rey e assim por diante... e só então eu levaria em consideração a questão de "padrões".
A razão para isso é que a ficção científica moderna é altamente sofisticada; é preciso um background deste tipo, para apreciá-la plenamente. É preciso especialmente, eu acho, possuir este background para conseguir escrevê-la bem, pois todos nós ativos no campo atualmente aprendemos o nosso ofício lendo histórias desse tipo.
O grande desafio para um editor nessas condições é encontrar e desenvolver escritores locais. O mundo precisa muito mais de bons escritores de ficção científica do que ele tem agora; eu antecipo o dia em que escritores brasileiros serão tão conhecidos pelos leitores americanos e ingleses, quanto Asimov, Clarke e Bradbury.
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