
Atualizada às 09h27 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
No dia 23 de fevereiro, chegou ao meu conhecimento que Walter Martins, escritor da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira e membro do Primeiro Fandom, faleceu em 12 de janeiro deste ano.
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O leitor desta coluna talvez se recorde que publicamos aqui o conto dele, "De Trunfas e Fanfruinhas", em 19 de dezembro de 2009. Esse texto acabou sendo o último de Walter Martins, publicado em vida.
Se a memória não falha, o primeiro contato que tive com José Walter Martins foi por volta de 1991, quando recebi dele um conto de ficção científica para o projeto frustrado de uma antologia. Seu contemporâneo Nilson D. Martello teria me passado o contato dele.
Walter publicou um conto na antologia pioneira, Além do Tempo e do Espaço 1965, que saiu pela EdArt em 1965. O conto se chamou "Tuj", e foi publicado também na revista francesa Antarès - Science Fiction sans Frontieres N.º 18, na década de 1980. Walter publicou ainda no Magazine de Ficção Científica N.º 3 (1970), com "A Volta de Adalbeu". No editorial, Jerônymo Monteiro, o editor do Magazine, comentou: "O conto nacional é de Walter Martins o qual, que nos lembremos, só não juntou o cômico à tragédia em sua história 'Tuj' .... Em outras como 'OhmmmmmmI', 'O Forte' ou 'O Olho', o autor tira das situações embaraçosas em que vivem suas personagens, uma deliciosa comicidade irônica. Neste conto, 'A Volta de Adalbeu', ele deixa a FC e se diverte no mundo da fantasia, fazendo o diabo com o pobre diabo Adalbeu."
O humor parece ter sido uma característica pessoal, de Walter, que aos sete anos de idade sofreu um acidente na praia que resultou em uma osteomielite. A doença afetou o crescimento de suas pernas, mas nem por isso ele deixou de se formar em engenharia química, com pós-graduação nos Estados Unidos, na Universidade de Illinois e com bolsa Fulbright, entre 1960 e 62. Retornando ao Brasil, trabalhou no Instituto de Química e foi professor da UNICAMP por mais de vinte e cinco anos, até sua aposentadoria em 1995.
Ao que parece, Walter, que esteve na NyCon3, a 25.ª Convenção Mundial de Ficção Científica em 1967, descobriu o fandom brasileiro por volta de 1965. Monteiro escreveu em seu diário, naquele ano, em 3 março: "Ney Morais, a esposa Bety e o Walter estiveram aqui na segunda-feira. Ney e Walter têm o programa da Convenção de Ficção Científica quase pronto. Conversamos muito. Eles pegaram parte da conversa da noite, mas retiraram-se logo depois da meia-noite."
A convenção mencionada foi a I Convenção Brasileira de Ficção Científica, que aconteceu de 12 a 18 de setembro de 1965, no Auditório das "Folhas" em São Paulo. Walter fez parte da comissão organizadora, com os escritores Clóvis Garcia, Ney Moraes, Nilson Martello e com o genro de Monteiro, Ladislau Deutsch (falecido ano passado). Teve o apoio da Livraria 4 Artes, redundando em uma antologia de contos, só com autores estrangeiros, Imaginação Iltda., publicada pela 4 Artes como "Lançamento comemorativo da 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica". Ney Moraes e Walter Martins fizeram a seleção dos contos, que foram traduzidos por eles e por Elisabeth Moraes. Os autores foram Arthur C. Clarke, Robert Sheckley, Alan Bloch, Frederik Pohl, Anthony Boucher, Henry Kutner, Isaac Asimov e Fredric Brown. Na introdução, Nilson Martello escreveu, definindo o fandom brasileiro para sempre: "Reúnam-se três leitores de ficção científica e teremos uma discussão; reúnam-se cinco leitores, e a impressão será a de uma câmara de deputados em pleno funcionamento; reúnam-se duzentos leitores de Ficção Científica e a Ordem Pública estará ameaçada!" Em sua coluna "Admirável Mundo Novo" de 19 de setembro, Monteiro escreveu que o público "superou o que se esperava".
A convenção contou com participações de Flávio Pereira, Léo Godoy Otero (que em 1987 publicaria Introdução a uma História da Ficção Científica) André Carneiro, Clóvis Garcia, e contou com a encenação de uma adaptação do conto "O Pedestre", de Ray Bradbury, pelo Grupo de Teatro Amador de Santo André. Filmes foram exibidos e livros expostos. Nilson Martello editou O Cobra, "Órgão Interno da 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica", também o primeiro fanzine brasileiro de que se tem notícia.
Nesse evento também foi fundada a Associação Brasileira de Ficção Científica, que marcou época e publicou o Dr. Robô, o seu boletim, também editado por Martello. Antes da ABFC existiu um clube informal em São Paulo, capitaneado por Jerônymo Monteiro, provavelmente a primeira organização do fandom brasileiro.
Em junho de 1997, Walter Martins me enviou boa parte desse material, mudando a visão que temos do que foi a década de 1960 em termos das atividades de fãs. "Guardei até hoje sem saber o que fazer, mas já que existe novamente um grupo interessado em FC, que esse grupo fique com esse material", ele escreveu.
Em 9 de novembro daquele ano, organizei O Primeiro Encontro do Primeiro Fandom, dentro da 5.ª InteriorCon - a Convenção de Ficção Científica do Interior de São Paulo. Participaram da troca de reminiscências Walter, Nilson Martello, André Carneiro, Therezinha Monteiro Deutsch (a filha de Jerônymo) e Luiz Marcos da Fonseca.
Walter Martins foi uma pessoa de inegável generosidade e paixão pela ficção científica, e que participou de alguns dos seus momentos mais intensos, no Brasil. Como autor e fã ele esteve presente no Simpósio de FC de 1969, viajando ao Rio com Jerônymo Monteiro e outros. Fez uma série de minientrevistas com algumas das mais importantes personalidades presentes (veja a tradução dessas minientrevistas aqui), e foi ainda o responsável pela primeira comunicação do fandom brasileiro ao norte-americano, com a "São Paulo Letter", uma discussão da FC e da situação do gênero no Brasil, publicada na revista Amazing Stories de setembro de 1968.
Faleceu de uma embolia pulmonar, seguido de uma cirurgia renal, aos 77 anos. Deixa a esposa Maria Helena Pires Martins, e a irmã Maria Nadir Martins Patti.
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