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Quarta, 3 de março de 2010, 07h34

Jogo virtual, ganho real

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Maria Alice: Se você entrar no jogo próximo à uma loja H&M, por exemplo, na sua telinha aparecerá ofertas de peças virtuais da marca dentro do jogo
Maria Alice: "Se você entrar no jogo próximo à uma loja H&M, por exemplo, na sua telinha aparecerá ofertas de peças virtuais da marca dentro do jogo"

Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)

A novidade da semana nos Estados Unidos é a estratégia de marketing utilizada na campanha de lançamento de uma nova coleção de roupas da H&M: The Blues. A gigante do varejo internacional do origem sueca faz parcerias nada convencionais e virtuais para atrair consumidores às suas lojas.

Toda essa revolução só é possível graças ao aparelhinho desenvolvido pela Apple, o iPhone, lançado com a incumbência de revolucionar a sociedade. Parece que as previsões de Steve Jobs, seu mentor, estão se confirmando.

Explicando melhor, a popular empresa sueca Hennes & Mauritz, mais conhecida como H&M com aproximadamente duas mil lojas em trinta e cinco países (ausente na América Latina) em associação com uma empresa de entretenimento de massa, a Booyah, criadora do jogo MyTown, lançado em dezembro último para os usuários do iPhone e já é um sucesso com cerca de um milhão de usuários cadastrados.

O jogo MyTown é uma versão mais sofisticada do clássico Monopoly que você carrega gratuitamente dentro do seu celular iPhone, acessa quando lhe é conveniente, e joga com diversas pessoas que tem perfil no Facebook, por exemplo. Para esclarecer, o Monopoly ficou conhecido no Brasil com o nome de Banco Imobiliário, e se baseia no investimento em propriedades numa determinada cidade, na qual você compra, vende, aluga, etc., seguindo os princípios econômicos de uma moeda.

A grande inovação do MyTown (minha cidade, em inglês), é que a sua mobilidade real determina onde você pode investir virtualmente, pois o sinal do celular está integrado com o jogo, utilizando o princípio do GPS. Quanto mais você circula nos Estados Unidos (já que o jogo ainda não está disponível para outras localidades), mais chances você tem de conseguir barganhas e multiplicar a sua fortuna virtual.

Para se ter uma idéia do seu sucesso instantâneo, os usuários do MyTown utilizam cerca de 65 minutos por dia no aplicativo, enquanto que a média em outros jogos gira em torno de cinco minutos. Segundo Keith Lee, diretor da Booyah, as pessoas hoje tem pequenos intervalos de tempo, numa fila de lanchonete ou no portão de embarque, e um jogo que facilite a continuação posterior facilita o engajamento e atrai usuários.

Mas como o mundo real ainda é o que conta, uma parceria entre a agência de comunicação MediaCom e a appssavvy, empresa especialista em venda direta pela internet, em conectar potenciais consumidores por meio de redes sociais como Facebook, MySpace e Orkut e em anunciar marcas em páginas de acesso intenso como o Google, criou a estratégia para a coleção The Blues da H&M via MyTown.

Se você entrar no jogo próximo à uma loja H&M, por exemplo, na sua telinha aparecerá ofertas de peças virtuais da marca dentro do jogo, que ao negociá-las dentro da sua MyTown, é retorno certo de investimento, além do recebimento de bônus e prêmios. Mas o que importa é que as roupas podem ser efetivamente compradas e levadas para casa. Basta dobrar a esquina.

E é aí que começa uma mudança nos costumes. Até pouco tempo, a grande discussão da sociedade era focada nos limites entre o espaço público e o espaço privado das pessoas, quem ganhava e quem perdia com os avanços tecnológicos. Essa reflexão parece precisar ser ampliada por conta de uma campanha de moda, composta por produtos básicos e azuis, até triviais, para alguns. Mas são produtos de consumo de moda que interagem num universo paralelo.

Nesta estória, o menos importante parece ser a roupa em si, mas para quem conhece o significado do jeans no século 20, a coleção The Blues da H&M é apenas um prenúncio do que está para chegar.

Haverá limite entre o espaço real e o virtual?

Maria Alice Rocha é doutora em moda pela University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br

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