Antonio Corrêa de Lacerda
De São Paulo
A ampliação dos investimentos representa o próximo importante desafio para a economia brasileira. É preciso criar condições de ampliação, tanto da capacidade produtiva, quanto da infraestrutura, para dar suporte á expansão do consumo. Isso é o que vai garantir que a oferta se amplie sempre à frente da demanda, evitando pressões inflacionarias futuras.
A reação da economia brasileira depois da crise tem sido impulsionada pelo retomada do mercado de consumo doméstico. Ela foi incrementada com as reduções de impostos (veículos, eletrodomésticos e construção civil, principalmente) e também pela atuação dos bancos públicos ampliando a oferta de crédito. A ação dos bancos públicos compensou a retração do mercado financeiro privado, muito afetado pela paralização das linhas externas e também pela crise de confiança nas relações interbancárias.
O crescimento da massa salarial também foi importante. Como foram gerados cerca de um milhão de empregos formais no ano passado e os acordos salariais garantiram a reposição da inflação e mais um aumento real, compatível com os ganhos de produtividade, isso sustentou o aumento da massa salarial, que cresceu 4% reais - nada mal em tempos de crise.
Os indicadores de crescimento do comércio ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, denotam um crescimento anual da ordem de 8%. Portanto, as condições para a retomada do consumo, em bases razoavelmente sólidas, estão basicamente dadas para o ano em curso, o que propiciará um crescimento expressivo do PIB (Produto Interno Bruto).
Há quem considere exagerado desse movimento, o que abriria espaço para o crescimento da inflação. No entanto, uma analise mais pormenorizada dos dados disponíveis não apontam nessa direção, muito pelo contrário.
Embora haja uma clara retomada da produção industrial, o fechamento do ano de 2009 representou uma queda de 7,4% comparativamente ao ano anterior. O nível de ocupação da capacidade instalada rapidamente retoma o nível pré-crise, de cerca de 82%, mas isso precisa ser visto com cautela. Isso poderia nos induzir a uma conclusão equivocada de que a capacidade produtiva estaria perto do seu limite. No entanto, é preciso levar em conta que as indústrias têm grande flexibilidade de ampliar a sua produção, em um primeiro momento sem novos projetos de ampliação, mediante a utilização de novos turnos de produção, ou adaptações na sua linha de produção.
Também é preciso levar em conta que varias empresas estão retomando seus projetos de investimentos, o que representará, em um futuro breve, aumento da capacidade de produção. Este é um movimento geral, mas especialmente perceptível em setores, como o energético, petróleo e gás, papel e celulose, indústria química, automobilística, entre outros, que tem projetos já em andamento, assim como anunciado novos investimentos.
Portanto, a pior decisão que o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central poderia tomar nos próximos meses é elevar as taxas de juros básicas, pois isso seria um péssimo sinalizador justamente para o fator determinante do atendimento da demanda, que é a retomada dos investimentos. A elevação da inflação observada neste inicio de ano está diretamente associada a fatores localizados e sazonais, não necessariamente revelam uma tendência para os meses vindouros.
Assim, deveríamos afastar a possibilidade de aumento dos juros, mesmo porque eles continuam a ser os mais elevados do mundo - 4% real ao ano. Da mesma forma deveríamos deslocar para os investimentos os incentivos de desoneração tributária de bens de consumo, uma vez que estes já cumpriram o seu objetivo de catapultar a demanda. O momento é de fomentar o investimento, o que não significa desestimular o consumo.
No Brasil há alternativas importantes de financiamento do investimento, como o mercado de capitais, com grande potencial de crescimento, mas também um importante instrumento público - o BNDES - que oferece linhas de financiamento em condições mais vantajosas comparativamente às disponíveis no mercado doméstico.
No entanto, apesar disso, o custo de financiamento do investimento no Brasil, mesmo de fontes públicas, ainda é elevado relativamente aos nossos concorrentes internacionais - especialmente a China e a Coréia do Sul, para destacar os principais - que praticam juros zero para investimentos, além de adotaram outros incentivos.
O que motiva o investimento privado é uma expectativa firme de crescimento da demanda e clima de negócios, condições de financiamento favoráveis e uma certa garantia que o investimento público cumprirá a sua parte. O desafio é expandir a atividade, não apenas este ano, mas no longo prazo. Somente a elevação do nível geral de investimentos vai garantir a sustentabilidade intertemporal do crescimento econômico.
Fale com Antonio Corrêa de Lacerda: alacerda@terra.com.br
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