Vera Gonçalves de Araújo
De Roma
Para poder declarar definitivamente a política italiana um grande circo, só está faltando o toldo. A última novidade é que as eleições nas duas principais regiões (equivalentes aos estados brasileiros) do país - o Lácio, capital Roma, e a Lombardia, capital Milão - deverão acontecer em 28 de março próximo sem os candidatos direitistas, no Lácio, e sem a lista de apoio ao candidato a governador direitista da Lombardia.
A trapalhada que o PDL - partido inventado por Berlusconi em 2008 e que é o mais forte no parlamento italiano - fez em Roma é digna de um bom festival de esquetes. A lista dos candidatos do partido foi entregue com 45 minutos de atraso porque o encarregado da tarefa estava com fome, e foi comer um sanduíche num bar perto do tribunal eleitoral.
Em Milão, os trapalhões bagunçaram a lista de apoio ao candidato governador, Roberto Formigoni, que pela quinta vez concorre para a cadeira. Na papelada, faltavam carimbos, endereços, datas, assinaturas, tanto que os fiscais declararam nulas 514 assinaturas dos 3.500 eleitores que - por lei - são necessários para apresentar uma candidatura regional.
Os dois candidatos - Formigoni na Lombardia e Roberta Polverini no Lácio - já anunciaram apelação mas nos dois casos será difícil dar um jeitinho. Os italianos são mestres no jeitinho, mas neste caso o problema parece bastante complicado. Mesmo porque os dois, evidentemente, são vítimas de fogo amigo.
O caso de Roberta Polverini é exemplar. A explicação que circula nos bastidores da política romana é que a candidata do PDL está sofrendo boicote do lado berlusconiano do seu partido - ela é uma ex-sindicalista ligada à antiga Aliança Nacional, e sua candidatura não agradou ao pessoal de Forza Italia, o outro partido que formou o PDL. O sanduíche fatal seria uma manobra para se livrar de uma mulher incômoda, que nunca foi e promete não ser dócil e cordata diante do poderoso primeiro ministro italiano.
O problema com a lista de Formigoni parece depender principalmente da incompetência do pessoal do PDL, mas a satisfação dos aliados da Liga do Norte - que não digeriram bem a quinta candidatura do governador e pretendiam apresentar um representante do seu partido para a chefia da região em que são mais fortes - é suspeita.
Já está reunido um "comitê do jeitinho" para estudar um decreto, uma lei, uma mutreta qualquer para resolver o impasse. Mas vai ser difícil, porque as eleições só podem ser adiadas por motivos de emergência nacional, terremotos, enchentes, gafanhotos, coisas assim.
Nesta situação, a confusa esquerda italiana corre o risco de ganhar as eleições por ausência do principal adversário. Mas - pelo menos no Lácio - a esquerda parece decidida a confirmar sua vocação para o masoquismo. A candidata Emma Bonino há duas semanas está fazendo greve de fome e de sede para protestar contra a falta de espaço que tem nos programas de TV. Resultado: uma mulher pálida, de uma magreza doentia, com os lábios crispados e rachados, que não tem forças para relançar sua campanha eleitoral no momento em que a rival está em dificuldade.
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Guido Montani/EFE
Renata Polverini, uma das candidatas da lista que não foi entregue a tempo porque o encarregado da tarefa foi comer um sanduiche
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