Terra Magazine

 

Segunda, 8 de março de 2010, 07h48

A dívida feminina

Paulo Rebêlo/Terra Magazine
Para cronista, homem aprende a trair e amar com as mulheres
Para cronista, homem aprende a trair e amar com as mulheres

Paulo Rebêlo
De Brasília (DF)

Não sei a quem devo mais: às mulheres que um dia passaram pela minha vida ou ao Banco do Brasil.

A diferença é que, um dia, talvez eu consiga quitar minha dívida com o banco.

Com as mulheres, vamos morrer em débito.

Com elas aprendemos a amar e a trair. E que às vezes amar é trair. E trair nem sempre é exatamente falta de amar.

Mas, na vida de um bruto, o maior legado das mulheres é ensinar que amar também é deixar ir embora.

Porque mais difícil do que ir embora do presente, é ir embora do seu futuro.

E ninguém sabe fazer isso tão bem quanto elas.

Somem como fumaça e montam uma nova vida como um passe de mágica. Enquanto o seu único abracadabra são noites insones a esperar que ela bata na porta de madrugada.

Demora muito, às vezes uma vida inteira, até você aprender que não se trata somente de deixar ir embora.

Trata-se, principalmente, de deixá-la ir embora e torcer para que ela tenha toda a felicidade que você sempre quis dar e não conseguiu.

Não importa se por incompetência, inércia, conformismo ou pouca fé. Ela iria embora independente das causas.

Até para sonhar e fazer planos a gente aprende com as mulheres. Logo elas, tão sonhadoras, mas ao mesmo tempo com mais pés no chão do que nós.

Abrir mão de um conforto conhecido e comprovado, por uma vida sem planos definidos e rodeada de incertezas, é algo que os homens não costumam fazer. Só elas.

Porque somente elas têm coragem de realmente jogar tudo para o alto por uma trilha sem luz no fim do túnel. Apenas por acreditar. E quando elas descobrem que é um beco sem saída, voltam até o início e continuam a procurar, como se nada tivesse acontecido.

Via de regra, quando somos nós a chegar a um beco sem saída, ficamos sentados esperando chegar alguém para explodir com dinamite aqueles tijolos.

Da parte delas, pode ser imaturidade, pode ser impulsividade. Mas também pode ser sabedoria. Quando você descobrir a resposta, certamente será tarde demais.

Brutos

Devo muito às mulheres que amei, mas talvez deva mais ainda às mulheres que me amaram.

Se hoje ainda sou o bruto que sou, é porque não aprendi o suficiente.

Do pouco que aprendi, sei que poderia ser um bruto ainda maior se não fosse por elas.

Se não fosse por elas, eu estaria batendo com força numa Olivetti até hoje e guardando meus rabiscos para ninguém ver. E nunca teria adquirido hábitos estranhos de escrever pedaços em folhas perdidas no bolso da calça ou em guardanapos de restaurante.

Ao fim de tudo, se não fosse por elas a gente não teria feito metade do que fizemos na vida.

Ainda temos um longo e árduo caminho pela frente, é verdade. Mas se não fosse por elas, não teríamos sequer um caminho para começar.

Difícil mesmo é aprender a não olhar para trás. Uma pena que isso nem sempre a gente consiga aprender, por mais que elas tentem nos ensinar.


Paulo Rebêlo é jornalista, cronista e consultor.Para saber mais sobre ele, clique aqui . Para ler as crônicas antigas da Hipopocaranga, clique aqui .


Fale com Paulo Rebêlo: hipopocaranga@terra.com.br

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