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Sexta, 12 de março de 2010, 07h54

O desafio das máquinas de camisinha

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma


No Brasil, desde 2008 o ministério da Saúde mandou instalar dispensadores
de camisinhas nas escolas de vários estados.
(FOTO: Fabrício Escandiuzzi/Especial para Terra)

Mais uma vez, a Itália está dividida, mas neste caso o Berlusconi não é o pivô. O Vaticano já expressou sua grande preocupação, enquanto jovens, pais e professores de tendência laica falam de um sinal de coragem: a escola pública Kepler de Roma foi a primeira na Itália que instalou máquinas de camisinha no banheiro dos estudantes.

O cardeal Agostino Vallini - que é vigário do Papa na diocese de Roma - criticou a decisão, que definiu como um modo para "banalizar a sexualidade". O diretor do Keplero se defendeu, convidando outros colegas da capital italiana a seguirem o seu exemplo.

Segundo a União dos estudantes, só na Itália um fato do gênero pode provocar tanta polêmica. Em muitos países europeus e nos Estados Unidos nas escolas de segundo grau se distribuem preservativos - no liceu francês de Roma, por exemplo, a direção tomou a iniciativa em 2001. No Brasil, desde 2008 o ministério da Saúde mandou instalar dispensadores de camisinhas nas escolas de vários estados.

Na Itália, o baixo índice de fertilidade demonstra que muitos casais usam anticoncepcionais. Mas apesar disso, o preconceito contra eles ainda é grande. 40 por cento das adolescentes não usa nada, e 20 por cento aposta na abstinência sexual para não correr perigo. Não foi só o Vaticano a criticar a decisão do diretor do Keplero. Mario Falconi, presidente da associação dos médicos romanos também não gostou, comentando: "É como reconhecer que se pode fazer sexo nas escolas. Não gosto da presença dos preservativos nas escolas desta maneira, especialmente considerando que não é difícil comprar camisinha em todo o país".

Na máquina da escola Keplero, um pacote de três preservativos custa 2 euros (pouco menos de 5 reais) - quer dizer, a metade do que custa nas farmácias e supermercados.

Mas o Vaticano promete tomar providências. Desde 1968, quando foi publicada a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI, a igreja católica condena oficialmente qualquer ação para impedir a gravidez antes, durante ou depois de uma relação sexual. E mesmo diante do Aids Bento XVI confirmou que, para a Santa Sé, camisinha nem pensar.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


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