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Reprodução
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Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Avatar é o primeiro filme do diretor James Cameron, depois do megassucesso de 1997, e o seu retorno à ficção científica depois de vários anos dedicados a documentários e pesquisas científicas (e algumas não tão científicas, como The Lost Tomb of Jesus, de 2007, dirigido por Simcha Jacovici).
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O filme nem havia sido lançado ainda, e já vieram as acusações de plágio ou apropriações indevidas de conhecidos escritores de FC. Fãs americanos já haviam notado a semelhança entre o filme e a obra de Poul Anderson, "Call me Joe" (1957; veja a resenha dessa novela aqui), em que um paraplégico vive aventuras em Júpiter, ao se conectar telepaticamente como uma criatura semelhante a um centauro. Outros notaram a semelhança com a formidável novela de Ursula K. Le Guin, Floresta é o Nome do Mundo, ganhadora do Hugo 1973, na qual terrestres com um implacável projeto mercantilista chegam a um planeta com uma espécie inteligente capaz de comunhão mental com uma dimensão onírica de existência. Enfim, o mais recente candidato a plagiado seria o romance The World of Noon, dos russos Arkady & Boris Strugatsky.
Cameron já havia se envolvido em polêmica semelhante. O escritor Harlan Ellison conseguiu na justiça reconhecer o seu "Demônio da Mão de Vidro", um script levado ao lar na série de TV Quinta Dimensão e disponível no Brasil como uma adaptação em quadrinhos feita por Marshall Rogers, como inspiração para O Exterminador do Futuro. Mas a julgar pela pilha de acusações de plágio em Avatar, ou Cameron realmente fez uma composição de situações dessas e de outras influências - ou, o leitor pode pensar, um autor plagiou o outro! (Se ele plagiou alguém em Avatar, com certeza Ellison vai dar todas as dicas aos colegas, sobre como processar com sucesso o diretor de Titanic.) Avatar chegou aos cinemas precedido de uma campanha publicitária de dimensões globais. Uma revolução tecnológica para o cinema do século 21, o futuro da tecnologia 3D no cinema, etc., etc. Mas confesso que toda a conversa de revoluções tecnológicas em Hollywood nunca me impressionou. A revolução das imagens geradas por computador já está em andamento há décadas (e Cameron contribuiu para ela). Seu resultado mais conspícuo foi fazer Hollywood adotar a estética dos videogames para levar mais adolescentes ao cinema e promover ainda mais o merchandising. Eu temia que Avatar fosse apenas um demo dos vários estágios da versão videogame do filme. Só me passei a me interessar quando saiu o trailer estendido e tive uma noção de que existia uma história por trás, por mais cheia de clichês ou de plágios ela possa ser.
Cameron sempre foi um cineasta interessante para a FC não pela inovação da linguagem cinematográfica ou da narrativa, mas por sua disposição em tratar o gênero com respeito e solidez. O Exterminador do Futuro (1984) revitalizou a combinação FC + ação (levando a mais de uma dúzia de filmecos sem o mesmo nível de interesse), mas nem por isso deixa de ser uma estimulante história de paradoxo temporal. Aliens: A Missão (1986) é inteligente fusão de FC e ficção militar, e O Segredo do Abismo (1989) é sólida FC hard de primeiro contato com alienígenas, de dimensão humana e implicações políticas.
A maior parte desses filmes foram escritos por Cameron, que demonstra conhecimento profundo do gênero. Quando estudante do ensino médio no Canadá, ele costumava ler um livro de FC a cada dois dias, e isso transparece na sua produção dentro do gênero, concentrada na década de 1980.
No cinema da década de 1970, era comum uma crítica dirigida ao "sistema" ou ao "governo". Até em um faroeste como Josey Wales, o Fora-da-Lei (1976), podemos ver o herói discutindo com um guerreiro comanche o que "o governo não pode fazer por nós". Na década de 1980, a crítica vai para a Grande Corporação.
Na FC, a Grande Corporação aparece em Scanners (1981), de David Cronnenberg, como a empresa de segurança ConSec, que manipula crianças para serem usadas como armas paranormais. Em Outland: Comando Titânio (1981), é a Consolidated-Amalgamated que sacrifica trabalhadores em Io, lua de Júpiter, para aumentar a produtividade. Em Looker (1981), de Michael Crichton, a empresa de entretenimento Digital Matrix usa técnicas subliminares para dominar consumidores. No clássico Blade Runner (1982), a Tyrell fabrica humanos artificiais para a guerra e o entretenimento. Em O Exterminador do Futuro, a Cyberdyne, empresa de tecnologia e defesa, cria a rede de computadores que decide exterminar a humanidade. Em Aliens, a companhia Weyland-Yutani envia colonos inocentes no caminho dos devastadores alienígenas. Em Robocop: O Policial do Futuro (1987), a Omni Consumer Products privatiza a polícia de Detroit. A grande corporação maligna aparece também no recente Lunar (2009), de Duncan Jones: a Lunar Industries e o seu plano insidioso para economizar nos custos trabalhistas.
Eram os anos da Era Reagan de forte liberalização econômica, e fiel aos seus anos de formação, em Avatar Cameron apresenta mais uma empresa de perfil sombrio: Resources Development Administration.
A RDA está em Pandora, lua de um gigante gasoso em Alfa Centauri, o sistema solar mais próximo do nosso, a 4,5 anos-luz de distância. É o tempo exato que o herói, Jake Sully (Sam Worthington) leva em sono criogênico para chegar lá. Ele fora recrutado na Terra pela RDA, para substituir um irmão gêmeo que trabalhava para um grupo de xenólogos (um antropólogo que estuda alienígenas) em Pandora.
Sully é um ex-Marine Recon, a tropa de elite dos Marines americanos. Ferido num conflito na Venezuela, está confinado a uma cadeira de rodas. A primeira objeção que ouvi foi a de que, num futuro de supertecnologia, ninguém estaria preso a uma cadeira de rodas - a evolução da ciência médica, os tratamentos de célula tronco... Mas o fato é que mesmo hoje um número enorme de pessoas não consegue uma aspirina, se precisar. A objeção é logo resolvida por Sully, que funciona como narrador da aventura, quando nos informa de que não há tratamento para ele: "Não com a minha pensão, não nesta economia..."
Em Pandora se utiliza uma tecnologia de elo mental com criaturas produzidas com uma mistura de DNA humano, e DNA dos na'vi, a espécie inteligente que vem se opondo à atividade mineradora da RDA. A empresa precisa de Sully para substituir o seu irmão xenólogo, que "tripulava" um desses avatares geneticamente engendrados, que funcionam como emissários e diplomatas junto aos na'vi.
A RDA está em Pandora para explorar um mineral chamado unobtanium - palavra que lembra "unobtainable", ou "não-obtível", "inconquistável", em inglês. O unobtanium funciona como um supercondutor natural, que, diz a empresa, poderia resolver a crise energética na Terra (em Lunar, é o Hélio-3, minerado da Lua, a substância que vai mudar o mundo).
Assim que chega ao planeta, Sully é recebido pelo Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), o chefe do exército de mercenários contratado pela RDA. Quaritch logo coopta o ex-cabo dos Marine Recon para fazer justamente um reconhecimento militar (daí o "recon", no nome dessa força especial) dos na'vi. Conta a Sully que ele mesmo esteve em combate na Nigéria. E é bom lembrar que a Venezuela e a Nigéria são dois países importantes por sua atual produção de petróleo. A idéia do conflito armado em razão de recursos naturais energéticos fica bem firmada.
Alguns dizem que até demais. De fato, se a RDA é um clichê da FC cinematográfica da década de 1980, neste contexto em que vivemos, da arte que reflete a vida e a vida que imita a arte, o clichê parece revitalizado pelos escândalos em torno de empresas como Halliburton (vinculada ao ex-vice presidente americano Dick Cheney) e Blackwater, que operavam no Iraque.
Afinal, a rejeição ao clichê é apenas uma convenção literária. Na vida real, sempre há gente ansiosa para se comportarem como estereótipos: políticos corruptos, policiais violentos, intelectuais alienados da vida cotidiana. O mesmo se pode dizer da idéia de que o vilão deve ter nuances. Quaritch seria implacável demais, contra os na'vi. Sem dúvida, "Black Jack" Jean Schramme deve ter sido muito bom para familiares, cachorros e passarinhos em sua fazenda em Rondonópolis, onde morreu em 1988, um respeitado empresário do agronegócio. Mas como mercenário no Congo, ele e seu chapa Mad Mike Hoare não foram tão bonzinhos assim com a população. No seu lugar de atuação, essas figuras - e outras que no passado inspiraram o Coronel Kurtz de Coração das Trevas - levaram terror e tirania aos nativos.
Os na'vi são caracterizados como um povo pré-industrial, que valoriza a comunidade e a natureza. Com três metros de altura e pele azul, lembram os marcianos da série Barsoon, de Edgar Rice Burroughs - salvo por não terem três pares de membros, só dois. As outras criaturas de Pandora, porém, têm seis membros, e aí se percebe a influência, reconhecida por Cameron, do romance planetário de Burroughs. Pandora é misto de Barsoon e Pelucidar (o mundo subterrâneo de Burroughs), um planeta selvático e violento, em que o pai (ou mãe) de família tem que matar um dinossauro por dia.
Os na'vi são ao mesmo tempo os índios que os americanos deslocaram e confinaram em reservas para poder controlar a terra e os recursos naturais; a guerrilha do Vietnã enfrentando o poderio militar americano (certas armas e veículos de Avatar vieram diretamente dos saldões dessa guerra); e os iraquianos que tiveram de enfrentar a política de "choque e espanto" dos bombardeios da guerra. O que Cameron parece dizer - e é bom lembrar que ele é canadense - é que há uma continuidade entre os anos de formação dos EUA com as Guerras Índias, e as essas guerras posteriores por prestígio político mundial ou por recursos naturais. Clichê ou não, o crítico literário se interessa por esse trajeto de um argumento de crítica política, como ele pode ser recuperado e redirecionado a um novo contexto. A sacada de Avatar é que nele o próprio trajeto parece estar incorporado.
Logo em sua primeira missão na pele do seu avatar na'vi, Sully se separa dos outros, é atacado por criaturas enormes e ferozes, e vai parar nos braços (por assim dizer) da princesa na'vi, Neytiri (Zoë Saldana). Embora ela inicialmente o trate como um retardado, o enredo é o de Pocahontas. Mais adiante, conforme Sully vai se encantando mais com a cultura na'vi, passa a ser o de O Último Samurai.
O mesmo clichê pode não funcionar (como em O Último Samurai) ou funcionar, dependendo do envolvimento que o filme gera. Avatar funcionou para mim por diversas razões: o débito às idéias alheias, que tantos condenam, assume a forma de um jogo de referências (tão cultuado em Hollywood) específico da FC, tornando um prazer reconhecer os cumprimentos a Burroughs, Le Guin, Robert A. Heinlein, Anne McCaffrey e outros; a minuciosa construção de mundo o torna uma das melhores representações do subgênero romance planetário, já vista no cinema; e Sam Worthington tem um talento especial em transmitir uma discreta dimensão interior, aguardando para ser desperta - e isso dá credibilidade à sua trajetória entre os na'vi.
Também porque tenho uma queda por mensagens ecológicas e pela mistura de FC hard e de uma caracterização do alienígena que incorpora algo da cosmogonia da outra cultura. Formam sempre o tipo mais interessante de choque de visões de mundo. No caso de Avatar, esse choque está expresso até mesmo em seu título, e o que ele representa ao longo do filme - a palavra "avatar" vem da cultura hindu e indica um deus ou um aspecto de um deus que encarna para realizar uma tarefa no mundo; na nossa cultura digital, indica um símbolo ou uma animação que representa o usuário afastado. O avatar de Sully começa como essa versão diminuída da palavra, para alcançar a sua dimensão maior, no final do filme.
Enfim, Avatar é uma ficção científica que coloca o sentido do maravilhoso em primeiro lugar. Mesmo que também se disponha à tarefa crítica de apontar o dedo.