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Sábado, 13 de março de 2010, 08h04 Atualizada às 20h58

Resenha: Embrião de avatar?

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Com toda a polêmica em torno de Avatar e em quais obras de ficção científica o seu diretor, James Cameron, teria se inspirado (ou plagiado, segundo alguns), acabei descobrindo que tinha uma dessas obras em minha biblioteca. É a novela "Call Me Joe" (1957), de Poul Anderson, compilada por Ben Bova na antologia Science Fiction Hall of Fame: The Novellas Book 1. Herdei de Rubens Teixeira Scavone os três volumes que compõem essa reunião de novelas votadas como as mais significativas até 1965, quando a Science Fiction and Fantasy Writers of America (então sem o "Fantasy") passou a dar prêmios anuais para romances, novelas, noveletas e contos de FC. No formato paperback ou livro de bolso, um único volume em capa-dura foi dividido em três. Neste Book 1, além de "Call Me Joe", estão "Who Goes There?", de John W. Campbell, Jr. (sob o pseudônimo de Don A. Stuart), e "Nerves", de Lester del Rey. A história de Campbell é de 1938 e a de del Rey de 1942.

Edward Anglesey é o herói de "Call Me Joe". Ele é um paraplégico que trabalha num projeto de investigação científica da superfície de Júpiter. Investigação científica mesmo - não há nada do mercantilismo explícito de Avatar, e o pessoal envolvido na pesquisa de Júpiter parece motivado exclusivamente pelo desenvolvimento da ciência, embora também com um espírito pioneiro bastante explícito.

Em Avatar, não me parece que fique claro qual é o meio de telepresença que permite que Jake Scully e os outros controlem seus avatares engendrados geneticamente. Scully entra em um sarcófago digital, sua mente desperta no corpo gigante de um na'vi. A certa altura ele e os outros heróis vão a uma região do planeta Pandora com um vórtice energético que afeta as comunicações de rádio - mas não o comando dos avatares. Por sua vez, "Call me Joe" fala de raios "psiônicos", supõe-se que responsáveis pela telepatia e outros efeitos de paranormalidade que deviam ser discutidos nas páginas da revista Astounding Science Fiction, onde essa novela apareceu primeiro (na edição de abril de 1957). Inclusive, Anglesey é tratado como "homem psi", o que sugere que ele teria algum poder parapsicológico intrínseco, que o habilitaria a trabalhar como "jóquei" de Joe, o "pseudojoviano" - como Anderson chama os centauros enviados a Júpiter. Isso, porém, não fica claro no texto.

A situação básica da novela de Anderson é bem distinta daquela do filme de Cameron. Há momentos em que Anglesey perde o controle sobre Joe e o projetor de raios psiônicos explode. Jan Cornelius, um especialista em psiônica, é enviado à estação orbital Jupiter V, para analisar o caso. Lá ele conhece o chefe do projeto, o físico Arne Viken, e o próprio Anglesey, que, apesar de confinado a um misto de cadeira de rodas automática e instalação de suporte de vida, tem personalidade forte. Anglesey está muito envolvido com o projeto, e pouca atenção dá a Cornelius - porque na superfície do planeta gigante as coisas são bem movimentadas, especialmente depois que uma espécie de predador social (como os nossos lobos) descobre o acampamento do pseudojoviano, e o ataca. Como em Avatar, Joe só pode agir como um ser inteligente, por intermédio da mente de Anglesey.

Em Júpiter, não há espécies sencientes como nós. Anglesey imagina que, além de construir abrigos e ferramentas, ele poderá mais tarde domesticar esses animais. Viken e os outros planejam, assim que Cornelius tiver resolvido a dificuldade técnica, enviar um novo grupo de pseudojovianos, com fêmeas entre eles. Os humanos serão os jovianos do futuro.

Mas Cornelius logo vem com a hipótese de que não se trata de um problema técnico - seria o subconsciente de Anglesey afetando o funcionamento da máquina. Sobre o homem psi, Cornelius conclui que nele há "uma mente que reagiu à sua deficiência física desenvolvendo tamanha energia, tamanho poder sobre-humano de concentração, que quase me assusta". Mais tarde, o especialista em psiônica conclui que o pseudojoviano é uma forma de vida quase perfeita, e que essa perfeição física e neurológica está mudando a personalidade de Anglesey, ao ponto de tornar-se a face dominante.

O final da novela dramatiza um diálogo telepático entre Cornelius e Joe/Anglesey. Depois disso Anglesey entra em coma - Joe tomou posse total de sua mente. Mas o fecho admite que o homem na verdade rendeu-se à personalidade indômita do pseudojoviano, deixando para trás o seu corpo aleijado e assumindo para sempre a potência e o futuro pleno de aventuras, que Joe promete. A história é muito interessante por vários aspectos, especialmente a sua especulação psicológica. Na década de 1960, um certo psicologismo freudiano se tornou uma das características mais salientes da New Wave, mas a história de Anderson foi publicada em 1957. E, ao contrário da tendência da New Wave para condenar a exploração espacial, aqui o argumento psicológico se harmoniza com o espírito pioneiro e a celebração não do lado sombrio da mente humana - o seu "esquício reptiliano" como Brian W. Aldiss diria -, mas do seu lado mais vital e potente, que Anderson também identifica com a energia primitiva do animal humano.

Em Avatar, o humano aleijado Jack Scully morre, para renascer como na'vi em um corpo mais poderoso, e numa existência mais vital e aventuresca.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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