André Setaro
De Salvador (BA)
Geralmente, quando se escreve sobre determinado livro é no sentido de resenhá-lo porque um lançamento, mas, no caso aqui, trata-se de falar de uma publicação que já foi lançada há duas décadas. Refiro-me a "O Cinema dos Anos 80", que, ao relê-lo recentemente, fiquei impressionado com a excelência de seus textos, a qualidade de suas exegeses. Sim, a obra contém uma série de ensaios que não poderiam ser inclusos na categoria de críticas, porque verdadeiras análises perfuratrizes dos filmes abordados. E, além de interpretá-los, os articulistas os oferecem aos leitores numa bandeja de prata, como queria André Bazin, para o prazer do conhecimento e da leitura (os textos, sobre serem muito bem escritos, proporcionam uma leitura fluente e agradável - a obscuridade não serve, aqui, como sinônimo de profundidade, como a maioria dos escritos sobre a análise fílmica). "O Cinema dos Anos 80", dei uma busca na internet para saber, pode ser comprado facilmente no espaço virtual (os preços variam entre 50,00 e 30,00 reais: Estante Virtual, Portal de Livros etc).
Publicado em 1991 pela Brasiliense, "O Cinema dos Anos 80" reúne os filmes considerados paradigmáticos desta década e a organização é de Amir Labaki, autor do texto introdutório do qual retiro aqui um pequeno trecho: "Como tudo, a história se acelerou, criando um vácuo apressadamente interpretado como seu fim. A massificação do "home video", a concretização da aldeia global graças à CNN (1980), ao fax e aos micros, a espetacularização da notícia, encolheram o mundo e, paradoxalmente, dele afastaram o homem. Olhar, e não interagir, tornou-se o verbo em voga. Consumidor e não cidadão, espectador ao invés de sujeito, isolacionista em vez de gregário, o passageiro típico dos anos 80 acompanhou a mais veloz das décadas sem sair de casa ou de sua única extensão segura, o shopping center."
Escrito há vinte anos, o texto de Labaki, premonitório, já anuncia a grande "depressão" do processo civilizatório que iria se concretizar no terceiro milênio, com o isolamento cada vez mais terrível do homem em sua solidão informática. E, como diz muito bem, o cidadão de outrora virou mero consumidor, havendo uma cada vez patente ausência de humanidade, de humanismo, nos filmes, a aniquilar o sujeito em função do consumidor de filmes, com os complexos de cinemas se transformando em verdadeiros parques de diversões e os filmes em "montanhas-russas" em terceira dimensão.
Sem ordem de importância, os filmes que foram considerados os mais representativos dessa década do "olhar" são os seguintes: o tríptico "Indiana Jones", que compreende "Os Caçadores da Arca Perdida" ("Raiders of the Lost Ark", 1981), "Indiana Jones e o Templo da Perdição" ("Indiana Jones and the Temple of Doom", 1984), e "Indiana Jones e a Última Cruzada" ("Indiana Jones and the Last Crusade", 1989), todos os três dirigidos por Steven Spielberg, o Rei Midas de Hollywood e analisado com extremado rigor por Labaki (o curador do festival Tudo é Verdade e que tem, atualmente, um programa de documentários com este nome no Canal Brasil).
E, em seguida: "Corpos ardentes" ("Body heat", 1981), de Lawrence Kadan, com Kathleen Turner e William Hurt, releitura do "film noir" em pleno calor dos "eighteen" feita por Carlos Pinheiro Jr. "Blade Runner - O Caçador de Andróides" ("Blade Runner", 1982) traz uma análise erudita de Carlos Eduardo Lins da Silva. Não que a de Pinheiro não a seja, valendo ressaltar, como já foi dito, que a excelência analítica, exegética, é geral neste livro importante e imprescindível.
José Geraldo Couto procede, no exame de "O Fundo do Coração" ("One from the Heart" 1982), de Francis Ford Coppola, a uma exegese reveladora (a melhor coisa já escrita sobre este filme), revelando a sua exata compreensão do cinema como "forma" que dá sentido ao "conteúdo". E, neste particular, vale lembrar as palavras de Claude Chabrol e Eric Rohmer sobre a mise-en-scène de Hitchcock: "No cinema de Hitchcock, o conteúdo é a forma" ("Le Cinema selon Hitchcock"). Couto toca na "ferida", por assim dizer, quando escreve: "Num certo sentido, "O Fundo do Coração" choca-se frontalmente com todo o cinema narrativo hollywoodiano baseado na decupagem clássica e no seu mecanismo de representação e identificação - e isso talvez ajude a explicar o seu fracasso comercial. Ao revelar-se a cada momento como construção fictícia, destrói a "invisibilidade" da representação. "A cenografia e a iluminação anti-realistas denunciam a inexistência de um "verdadeiro real" a ser captado pela câmera."
Coppola, aliás, já tinha dito há quase vinte anos atrás: "Creio que hoje o cinema mundial não vale nada., É um zero. E quando uma forma de arte passa a não valer nada, a ocasião é perfeita para que surja um renascimento." O que diria, hoje, o realizador de "O Poderoso Chefão" sobre a crise contemporânea que assola como um tsunami a arte do filme?
O espaço está chegando ao fim e ainda faltam inúmeros filmes. Aimar Labaki escreve sobre dois filmes: "O Selvagem da Motocicleta"/"Rumble Fish", de Coppola, e "O Reencontro"/"The Big Chill", de Lawrence Kasdan (cineasta que prometia muito na década focalizada, mas que entrou em um incompreensível processo de decadência e mesmo de desaparecimento). Carlos Eduardo Lins da Silva tem outro texto, desta vez sobre "A Força do amor"/"Breathless", 1983, de Jim McBridge, refilmagem de "Acossado" ("A Bout de Souffle"), de Godard, com Richard Gere. Robert Stam, em parceria com Ella Shohat, verifica a "escrita" do extraordinário "Zelig", de Woody Allen. E Antonio Querino Neto analisa "Paris, Texas", de Wim Wenders, obra emblemática dos anos 80 e cuja influência foi avassaladora (acho "Central do Brasil", de Walter Salles, mais influenciado pelo "on the road wenderiano" do que pelos postulados cinemanovistas).
Mais: Luiz Nazário contempla, com seu habitual rigor, "A Hora do Pesadelo"/"Nightmare on Elm Street", Maria Rita Kehl, "Nove e Meia Semanas de Amor"/"9 ½ Weeks", de Adrian Lyne. Amir volta para ver de perto e, com um "olhar" decifrador, o magistral "Ran", do mestre Akira Kurosawa. Marcelo Coelho, atual colunista da "Folha de S.Paulo" registra suas impressões sobre "A Rosa Púrpura do Cairo", de Woody Allen. E Otávio Frias Filho decifra "Peggy Sue, Seu Passado a Espera"/"Peggy Sue got married", de Francis Ford Copolla.
"E "last but not least", Eugenio Bucci (exegese exemplar de "Os Intocáveis"/"The Untouchables", 1987, de Brian De Palma); Aimar (não confundir com seu irmão Amir) Labaki, Sammy & Rose", de Stephen Frears; Bernardo Carvalho ("Sangue Ruim"/"Mauvais Sang, 1987, de Leos Carax, e "O Raio Verde"/"Le Rayon Vert, de Eric Rohmer); Fernão Ramos (um grande teórico do cinema), "A Dama do Cine Shangai", de Guilherme de Almeida Prado; Humberto Saccomandi, "Cinema Paradiso"/"Nuevo Cinema Paradiso, 1989; e Nelson Brissac Peixoto, "Sexo, mentiras e videotaipe", de Steven Soderbergh.
Alguns dos ensaístas de "O cinema dos Anos 80" não são considerados críticos de cinema ou assim não são reconhecidos, mas, a julgar pelas suas análises, entendem profundamente do "riscado" e, principalmente, são pessoas cultas, lidas, inteligentes. É importante que se leia o livro para se ter uma compreensão do cinema feito na década de 80, mas, e mais importante, compreendê-la nas suas coordenadas essenciais.
Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br
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Reprodução
"A Rosa Púrpura do Cairo", de Woody Allen
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