Terra Magazine

› Terra Magazine › Política

Terça, 16 de março de 2010, 15h39 Atualizada às 16h36

Presídios e contradições do Brasil chocam plateia na ONU

Conectas Direitos Humanos/Divulgação
Painel sobre violações dos direitos humanos no sistema prisional do Espírito Santo
Painel sobre violações dos direitos humanos no sistema prisional do Espírito Santo

Ana Carolina Moreno
Especial para Terra Magazine

O único evento paralelo organizado pelo Brasil na 13ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, durou apenas duas horas, nesta segunda-feira, 15/3, mas foi o suficiente para fazer o Governo do Espírito Santo reconhecer pela primeira vez que em seu sistema prisional se cometem delitos contra os direitos humanos.

As ONGs Justiça Global e Conectas Direitos Humanos atribuem o êxito do painel, em grande parte, à reação da plateia. "Nossa apresentação chocou as pessoas", contou a Terra Magazine o presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos capixaba, Bruno Alves de Souza.

- Nem tivemos tempo de responder a todas as perguntas delas, o debate foi muito bom. As perguntas foram muito fortes, questionaram se não é contraditório que, no Brasil, que quer atuar agora como líder, ainda existam essas questões - atestou, pouco depois do evento.

Veja também:
» Advogada da Justiça Global: Presídios nascerão superlotados
» Tortura de presos no ES será discutida na Suíça
» ES reconhece na ONU problemas no sistema carcerário
» Siga Bob Fernandes no twitter

Em uma sala com mais de 100 pessoas, entre membros das delegações oficiais de diversos países, ONGs internacionais e funcionários das Nações Unidas, o Secretário de Justiça do Espírito Santo, Ângelo Roncalli, começou seu discurso admitindo que a situação de tortura e maus tratos aos detentos nos presídios capixabas é real e preocupante.

Ele esteve acompanhado por André Almeida e Cunha, Diretor de Políticas Penitenciárias, do Ministério da Justiça, e pelo juiz Erivaldo Ribeiro dos Santos, do Conselho Nacional de Justiça.

"Realmente nos causou bastante surpresa o fato de o governo reconhecer tudo o que nós havíamos dito", afirmou Souza, que denuncia os problemas no sistema carcerário capixaba há anos e já teve suas críticas ignoradas publicamente diversas vezes por Roncalli.

Ainda assim, ele afirma que agora volta ao Brasil otimista de que a nova postura se traduza em ações concretas para devolver a dignidade aos detentos e a credibilidade ao sistema.

- Não nos causou surpresa a saída que o governo pretende dar, que é a construção de vagas. Desde que a gente denuncia, eles só falam em criar vagas, como se esse fosse o problema. O problema é muito maior. Mas quando eles reconhecem a situação eles têm uma responsabilidade muito maior de enfrentá-la. Agora não dá para voltar para o Espírito Santo e permanecer omisso - explica Souza.

Negativamente exemplar

O caso do Espírito Santo não é o único atualmente sob acompanhamento das ONGs, mas foi escolhido para o evento paralelo porque é um dos que está melhor documentado.

O dossiê apresentado revelou uma série de crimes de tortura e submissão dos presos a situações desumanas, como manter pessoas em contêineres de metal onde a temperatura ascende a 50 graus. Um dos exemplos mais simbólicos é o da delegacia de Vila Velha, onde uma cadeia com capacidade para 36 pessoas chegou a conter, em fevereiro, 235 detentos.

O Espírito Santo também carrega outras estatísticas que surpreenderam a comunidade internacional: todo mês, 250 pessoas em média ingressam no sistema prisional, enquanto o número das que o deixam é cinco vezes menor. Além disso, 70% dos detentos estão encarcerados em prisão provisória, ou seja, ainda não foram julgadas em definitivo.

Essa porcentagem exorbitante de uma alternativa que deveria ser excepcional, segundo os especialistas, transgride a Constituição brasileira e acordos internacionais. Entre as consequências da superpopulação estão a perda do controle das prisões, as constantes rebeliões, a forma degradante como se tratam os presos e um alto índice de mortes brutais que o governo não explica e pelas quais também não se responsabiliza.

O Brasil ainda teve que se explicar para a ONU por que ainda não implantou o sistema de prevenção de tortura previsto no Protocolo Facultativo da Convenção da ONU Contra a Tortura, assinado pelo País em 2007.

Visibilidade

Advogada da Justiça Global e também debatedor do evento, Tamara Melo explicou que esse não foi o primeiro nem o maior constrangimento pelo qual o Brasil passou por causa dos abusos cometidos no sistema prisional, mas que o evento foi bem sucedido no sentido de chamar a atenção dos meios de comunicação e da opinião pública dentro e fora do Brasil.

- Mas foi preocupante porque ficou muito claro que a gente não conseguiu uma resposta do Estado. Diante de tudo o que a gente apresentou ele não apresentou respostas. Continuou com o mesmo discurso - afirmou ela.

A advogada explica que, apesar de o grupo de ativistas ter conseguido o reconhecimento público da gravidade da situação por parte do Estado, a postura do governo de Paulo Hartung (PMDB) continua sendo a de combater a superpopulação nos presídios por meio do aumento de vagas no sistema carcerário.

- Quem trabalha com o sistema prisional sabe que isso não resolve o problema. O que a gente vê de forma muito clara é uma política de encarceramento em massa. A superpopulação é um resultado dessa política - analisa.

» Leia entrevista com a advogada Tamara Melo

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol