Marcelo Carneiro da Cunha
de São Paulo (SP)
Pois estimados leitores, a bomba da semana, ao menos pra quem dá alguma atenção para o mundinho literário, foi a notícia dada pela Folha de São Paulo de que o motivo da separação entre o escritor Rubem Fonseca e a editora Cia das Letras tem cabeça, tronco e membros, e atende pelo terno nome de Paula Parisot.
Eu sei que todo mundo está mais atento ao que acontece com a Sandra Bullock, com o Adriano e a noiva que não leva desaforo pro barraco e arma barraco, com o pessoal do BBB que não consegue assumir o amor que sentem uns pelos outros. Mas, para quem curte literatura, isso é coisa grande, minha gente. Se separar da editora em que você publicou, cresceu, se deu bem no mundo e virou autor consagrado? Isso é sério, e, nos últimos tempos o mundinho literário fez zum zum perguntando uma abelhinha para a outra qual a causa afinal da ruptura em uma relação tão bem sucedida?
Agora se sabe, e tudo faz sentido, se as coisas se passaram como conta a reportagem. Rubem Fonseca queria que a Cia das Letras publicasse o romance da moça, e a Cia disse não. Rubem Fonseca, o divino escritor de contos inacreditavelmente bons, parece ter simplesmente se comportado como qualquer homem se comporta diante de qualquer mágoa da mulher de quem ele goste. Parece que Rubem Fonseca gosta da literatura da Paula, e, portanto, ele vai lá e faz o que precisar fazer para que o mundo a reconheça. Se alguém insiste em não reconhecer, azar do alguém.
Pois nós, homens, somos nobres e cavalheiros, e não há nada que não façamos pelas donzelas que escolhemos - todos nós Quixotes, todas elas Dulcinéias, especialmente se já passamos ou nos aproximamos dos 80. Há quem pense que a gente, ao envelhecer, perca o bom senso e comece de novo a agir como os meninos que nunca deixamos de ser. Nada disso: simplesmente nos tornamos ainda mais cavalheirescos, mais capazes de tudo fazer, de tudo dar.
Um antepassado meu, pego na botija aos 86 dando um apartamento para a namorada de 32, por exemplo. Alguém pode achar que a moça estivesse agindo por interesse, mas meu antepassado garantia que nada disso, que ela o amava de verdade, mesmo que ela tendesse a esquecer o nome dele algumas vezes por dia, muitas vezes por noite, memória péssima, tadinha.
Nobres somos, mais nobres ficamos. As mulheres talvez não percebam toda a nossa devoção a elas, mas isso é coisa que não tem limite. Goethe, por exemplo. Aos 73, o que naquela época equivalia a uns cento e vinte, nos dias de hoje, se apaixonou perdidamente pela lindinha Ulrique, na flor dos 18, e propôs casamento, que é o que um rapaz sério faz, claro. Ulrique, estranhamente, não aceitou a proposta, e Goethe então foi lá e compôs o Elegia de Marienbad, beleza de poema, chorou um teco, e morreu, pedindo luz, mais luz. Bons tempos.
Rubem Fonseca escreveu A Força Humana, Placebo, Feliz Ano Novo, entre outros dos maiores contos do século 20. Ele pode fazer o que bem entender, gostar de quem bem entender, brigar com quem bem entender, e o faz. O que eu sinto por ele? Admiração, da mais pura. Escrever daquele jeito e depois se comportar bobamente como qualquer mortal, é uma benção. Que ele aproveite, que a Paula se dê super bem, é o que eu espero, desde que não precise ler a moça. Algo me diz que me faltam uns, hummm, vinte e tantos anos, para que eu finalmente comece a perceber toda a beleza da sua literatura. Melhor assim.
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