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Quinta, 25 de março de 2010, 09h27 Atualizada às 19h47

Havelange: Copa 2014 é trunfo eleitoral de Teixeira na Fifa

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João Havelange, decano do Comitê Olímpico Internacional, na Olimpíada de Inverno de 2010, no Canadá
João Havelange, decano do Comitê Olímpico Internacional, na Olimpíada de Inverno de 2010, no Canadá

Eliano Jorge
Do Rio de Janeiro

Figura marcante e polêmica do século 20, o cartola-símbolo João Havelange diz mais nas entrelinhas do que nas curvas que dão seus discursos. Mas, em entrevista exclusiva a Terra Magazine, mostra-se direto, ao confirmar que a organização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil é mais do que um projeto nacional tocado pelo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), seu ex-genro e pai de seus netos, Ricardo Teixeira. É seu principal trunfo eleitoral para alcançar a presidência da Federação Internacional de Futebol (Fifa).

O carioca Havelange discorreu sobre futebol, relações de poder, Mundiais passados e futuros, Olimpíada de 2016 e religião, durante 35 minutos espremidos na correria de sua agenda lotada, em conversa no seu imenso escritório, uma ilha de requinte suspensa no formigueiro do centro do Rio de Janeiro.

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Filho de belgas, Jean-Marie Faustin Godefroid Havelange, tornado mundialmente João, mas um João Alguém, talvez o de maior fama, consagrou-se como um dos mais proeminentes dirigentes esportivos. Havia sido nadador na Olimpíada de 1936, na alemã Berlim, sob o braço estendido de Adolf Hitler, e atleta de polo aquático em 1952, na finlandesa Helsinque.

Aos 93 anos, nada 1200 metros e pratica hidroginástica diariamente, além de alimentar seu suposto recorde de milhares de horas de voos internacionais. "Sou chamado, sou desejado, sou pedido", justifica seus compromissos.

Descrito por desafetos e críticos como autoritário, mafioso e a vaidosa esfinge que não se emociona, é laureado e bajulado no planeta inteiro.

Ele presidiu a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) durante a conquista dos três primeiros títulos mundiais da Seleção. Dali, saltou ao trono da Fifa. Entre 1974 e 1998, construiu um império da bola, de cifras bilionárias, de alcance global incomparável e de transformação do futebol em produto.

"Não há indústria, não há setor financeiro, não há nada no mundo que faça o que faz o futebol e tenha o poder do futebol", dimensiona sua influência. "O futebol dá de comer a um bilhão de pessoas, todos os dias", exemplifica, com estatísticas de aparência inflada.

Agora, Havelange acena com uma dinastia, emendada por seu ex-secretário-geral, o suíço Joseph Blatter, e, em 2015, por Ricardo Teixeira. "Tenho a impressão de que ele terá o apoio das associações nacionais, pelo que representa a administração que fez aqui na CBF". Sobre essas realizações, porém, expõem-se na vitrine os feitos da Seleção: "Deu dois títulos".

Acredita Havelange que Blatter, depois de revalidar seu mandato em 2011, "não vai se intrometer" na candidatura do brasileiro. Que não se ouse discordar do mais poderoso dirigente dos 146 anos do futebol.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - Quais são suas atividades desde o fim do mandato de presidente da Fifa?
João Havelange -
Depois de uma análise, decidi não mais prosseguir ou aceitar qualquer solicitação de reapresentação para presidente da Fifa. E, neste momento, fiz uma carta a todos os 24 membros do Comitê Executivo para que meu nome não fosse mais reapresentado. Já ia completar 24 anos de presidência. Acho que, na vida, o mais difícil não é chegar, é saber sair. O tempo vai passando. Fiz a carta, não me reapresentei e terminei meu mandato com a Copa do Mundo de 1998, na França, que indiscutivelmente foi um sucesso - lamentavelmente o Brasil não foi campeão, foi vice-campeão, o que não deixa de ser um título.
Cada um se apega ao cargo ou à posição em que está, quando deveria analisar e verificar que não mantemos as mesmas condições por toda uma vida. Há um momento em que começamos, eu diria, a descer as escadas. Quando senti que começava a descer as escadas, preferi retornar para casa e não me expor ou expor o cargo que eu ocupava.
De lá pra cá, foi eleito o senhor Blatter, que era meu secretário, um homem capaz. Tem sido indiscutivelmente um presidente de valor, um bom administrador, com todas as qualidades.

O senhor mantém a mesma influência que tinha quando presidia a Fifa, quando era um dos homens mais poderosos do mundo?
Bom, eu não sei que influência, eu tenho os amigos, procuro ter um contato com eles, mas nunca interferi. Tanto é que o presidente Blatter me pediu para assumir uma posição no Comitê Executivo, me mandou uma carta, e eu disse que ele me honrava muito, me sensibilizava e ia pegar um avião para ir a Zurique falar com ele. Disse a ele que, com o convite, eu teria direito a voz, mas não a voto, porque eu não era eleito. Para ter direito a voz e poder me definir sobre os temas em pauta, teria que entrar na administração debaixo da autoridade dele. Eu disse que isso eu não faria, não queria e não aceitei, por princípio.
Posteriormente, o senhor Dave, um homem muito poderoso, que comprava todos os direitos de televisão, me fez, um dia em que me encontrava em Paris, uma solicitação: que eu fosse presidente do conselho de administração de todas as suas empresas. Pedi três dias para lhe dar a resposta. Telefonei para o presidente Blatter, fui a Zurique e disse que recebi esse convite: "Se eu aceitar, nunca mais posso responder a uma pergunta, a uma dúvida que você tenha. Me honra muito o convite, mas vou dizer a ele que não quero. Quero continuar livre dele, quando você me solicitar ou me pedir uma opinião".
Cada um tem sua maneira de ser: não quis ser do Executivo porque daria impressão, como antigo presidente, de estar me intrometendo onde não devo; e também não quis ser membro de uma entidade poderosa e assim fiquei livre de poder, a qualquer momento, se solicitado, dar a ele as respostas que eu teria pelo sentimento e pela experiência adquiridos. Acho que é assim que se deve agir.

Para a candidatura brasileira à Olimpíada de 2016, o senhor tornou-se muito importante. Alguém foi mais decisivo para a vitória?
A presença do presidente da República (Lula) indiscutivelmente teve um valor inestimável. Depois, o governador (do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral), o prefeito (Eduardo Paes). A presença do (presidente do Comitê Olímpico brasileiro, Carlos Arthur) Nuzman, muito bem feita. Também não podemos esquecer quem fez uma exposição muito brilhante, muito aplaudido, o presidente do Banco Central, doutor (Henrique) Meirelles. Ele fez conhecer que a parte de recursos estaria garantida pelo Banco Central, e isso dava uma tranquilidade absoluta.
Fiz um discurso que achei que deveria. Fiz sentir à Assembleia - que são pessoas com quem tenho contato há muitos anos porque sou decano, vou completar quase 50 anos como membro eleito mais antigo do Comitê Olímpico (Internacional) - que, se minha cidade, o Rio de Janeiro, recebesse os Jogos Olímpicos, no momento em que se realizariam, se Deus me desse a possibilidade de estar presente, eu estaria completando 100 anos. Temos seis anos, vamos ver o que Deus faz.

Houve um peso pessoal porque o senhor enviou cartas individuais a cada eleitor e usou seu prestígio. Quantos votos estima ter conseguido?
Não, não é quanto. Votaram os 108 membros da Assembleia. Isso não é fácil porque a metade é de europeus, e havia uma cidade da Europa (como candidata, Madri). Cada um deve ter feito sua análise ou se sensibilizado, e o Brasil teve a felicidade de receber 66 votos contra 32 da Espanha. Acho que devemos aplaudir o trabalho que o presidente Nuzman desenvolveu e, naturalmente e indiscutivelmente, a presença do presidente da República foi de importância.

No seu País, o senhor ainda se sente pouco reconhecido?
Não, eu não faço nada para ser reconhecido. Faço pelo princípio de poder servir. Os cargos que tive foram por eleição, não por favor, e, como eleito, procurei atender, sempre que possível. Nunca me servi do esporte porque, na mesma empresa (Viação Cometa) em que cheguei ainda rapaz, como um advogado trabalhista, fiquei dois anos, depois mais dois como diretor e, em seguida, 58 anos como presidente. O senhor pode correr o Brasil, nunca ninguém ficou, no mesmo lugar, 62 anos. Então, tenho respeito pelas pessoas, pelo que faço. No esporte, se fiz alguma coisa, foi com um único sentido, o de servir ao meu País, ao meu Estado, ao desporto em geral e a uma juventude. E, se possível, servir de exemplo.

Quem foi mais importante para o futebol: o senhor ou Pelé?
Não, são duas coisas diferentes. Pelé é o jogador. Indiscutivelmente, um jogador inigualável. E eu fui um administrador, procurei modificar um problema que, primeiro, era financeiro e, depois, de estrutura. Depois, de conseguir pessoas de real valor em cada um dos setores, até chegarmos a poder dar ao Brasil, naquela época, três Copas do Mundo, as de 58, 62 e 70. Acho que cumpri com minha missão.

O senhor já assegurou que Ricardo Teixeira será presidente da Fifa. Como é possível garantir isso com tanta antecedência, se ele permanecerá na presidência da CBF até 2014?
Em 2015, haverá uma eleição. Termina a Copa do Mundo, ele se apresenta, e tenho a impressão de que ele terá o apoio das associações nacionais, pelo que representa a administração que ele fez aqui na CBF. Também já deu dois títulos (mundiais ao Brasil) e ainda terá duas Copas do Mundo, poderá dar o terceiro. Seriam seis, o que nenhum país conseguiu.

A organização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil seria, então, o principal trunfo para uma eleição dele?
Exato. E vai não ter nenhum... As 12 cidades que foram escolhidas vão premiar a Copa do Mundo, se ela chegar a cada uma delas. Cada uma vai fazer o seu estádio, sua instalação.

Para Ricardo Teixeira concorrer, significa que o atual presidente Joseph Blatter não disputará a eleição com ele em 2014, já que também pertence a seu grupo político?
Se o presidente Blatter levar em conta o meu exemplo, em 2015, estará atingindo 80 anos, está na hora de ir para casa, não vai contra ninguém nem se intrometer. Ele, tenho certeza, é um homem de equilíbrio, de grande capacidade de trabalho e de conhecimentos, e também de grande valor para o futebol, como tem demonstrado.

Quais são os segredos para um país sediar uma ótima Copa do Mundo?
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, já tem uma experiência, pelo tempo. Foi eleito pela primeira vez em 1988, foi para a Copa de 90. Depois, 94, 98, 2002, já fez a de 2006, vai fazer a de 2010. Acho que tem uma boa experiência, tem conhecimentos, é dedicado e tem mantido uma sequência de trabalhos de qualidade, de pessoas para atender em todos os setores. Eu acho que temos jogadores. Agora, o futebol não é o mesmo de há 50 anos. Cheguei à CBD em 55, como vice-presidente, e o mundo modificou-se, houve uma evolução tanto administrativa como técnica, sob todos os aspectos.
O Ricardo procura se dedicar a tudo o que pode fazer em benefício do futebol. E vamos ter os resultados, como sempre, positivos.

E terá o senhor como principal conselheiro, por ter participado de sete Copas do Mundo como presidente da Fifa...
Não. Eu acho que eu não estou aqui para ser conselheiro, eu acho que estou aqui para respeitar o trabalho de cada um. Se desejarem alguma coisa, me pedirem, pela experiência adquirida, se eu puder trazer um esclarecimento, eu faço, mas não me intrometo de maneira nenhuma. O máximo que eu faço é sair daqui, ir ao Congresso da Fifa, assistir à abertura, mais uns jogos, se possível à final, depois volto, mas não intervenho em nada.

Sobre essas mudanças dos últimos 50 anos que o senhor descreveu, não há um exagero do futebol-negócio, uma perda dos valores lúdicos, uma contaminação pelo dinheiro? A bilionária indústria do futebol não empobreceu o jogo propriamente dito?
Para o senhor ter uma ideia da força do futebol sobre aspectos financeiros, a Copa do Mundo na Argentina, em 1978, chegou ao valor de 78 milhões de dólares. Na Espanha, quatro anos depois, chegamos a 82 milhões de dólares. E, com as modificações que fizemos, nos aspectos administrativos, financeiros e outros, hoje uma Copa do Mundo chega a 5 bilhões de dólares. Acho que cumpri com a minha missão, houve uma evolução.
Há outro aspecto que muita gente não se dá conta ou ou não quer analisar: hoje em dia, um dos problemas do mundo é justamente o desemprego, e vivem do futebol 250 milhões de pessoas no mundo. Se o senhor puser numa família, dá um bilhão. Então, o futebol dá de comer a um bilhão de pessoas, todos os dias. Não há indústria, não há setor financeiro, não há nada no mundo que faça o que faz o futebol e tenha o poder do futebol. Acho que cumprimos com nossa missão, pudemos oferecer isso ao mundo em que estamos vivendo.

Na sua opinião, qual característica é sua principal qualidade?
A minha? Procurar não faltar aos princípios, aos compromissos e aos amigos.

E seu poder de convencimento, que é tão elogiado?
Se aceitam aquilo que eu exponho, fico feliz, é porque é baseado em coisas positivas e verdadeiras.

Qual é o segredo para, aos 93 anos, manter uma memória tão prodigiosa e tanta vitalidade?
Deve ser a bondade de Deus, sou católico, acho que Deus põe a mão em tudo o que faço. Estou com quase 94 anos, a memória continua boa, a parte física, tanto é que ainda hoje me levantei às seis, seis e quinze; às sete, estava dentro d'água, nado todo dia 1200 metros e depois faço 20 minutos de ginástica dentro d'água. Isso me faz bem, e não sei até quando isso pode seguir. Agora no dia 3 de maio, estou indo para a Europa. Tenho obrigações em Zurique, em Lausanne, depois tenho que ir a Londres, a Bruxelas, volto a Paris, de lá venho para a África do Sul para o Congresso da Fifa e assistir à abertura (da Copa), possivelmente fique até a final, não sei ainda, mas estarei ausente por mais de dois meses e meio. Se Deus me dá esta possibilidade, saúde e capacidade, só posso ficar agradecido.

Esses compromissos são todos esportivos ou também empresariais?
Eu sou presidente de honra da Fifa, sou chamado, sou desejado, sou pedido. E, no Comitê Olímpico, sou decano. Sempre que sou solicitado, procuro atender e levar, com a experiência adquirida, aquilo que eu possa aportar, tanto para um organismo como a Fifa ou o Comitê Olímpico Internacional, um valor, uma opinião, que tenha uma repercussão positiva para ambos.

Um relatório médico-psicológico indicou quatro jogadores para serem cortados da Copa do Mundo de 1958. Quem eram? Pelé, Garrincha...
Não, que eu me lembro, não. Quando cheguei à CBD, meu filho, para a Copa do Mundo, tinha um técnico, um médico, um massagista, um preparador físico e um roupeiro. Eu botei médicos na parte geral, como também na parte óssea; eu tinha um fisioterapeuta, um auxiliar de técnico, treinador de goleiro, um psicotécnico. Enfim, uma imensa comissão técnica, que foi criticada. (Disseram) que eu não entendia nada de futebol. Não vim para jogar futebol, vim para administrar o futebol. Fui criticado, maltratado, por toda a imprensa. O time se preparou, viajou e foi campeão.

Havia ainda um podólogo, o Geada...
Quando o coloquei, me disseram, na imprensa, que eu estava preparando um time de pederastas, de viados. A ferramenta do jogador é o pé, eles tinham unha encravada, calos, uma porção de coisas que não lhes deixavam jogar bem. Ele limpou os pés todos, encheu dois sacos imensos com material que retirou dos pés dos jogadores. Hoje em dia, todo mundo vai ao pedicure, todo mundo aplaude. Primeiro, fui maltratado, considerado - me perdoe a expressão - um imbecil, mas o Brasil foi três vezes campeão.

Na sua biografia, o senhor revelou sentir falta da União Soviética. Sente falta de mais o quê, no cenário geopolítico?
Não, a União Soviética foi indiscutivelmente um poder. O mal é que todo mundo quer fazer política, e eu nunca fiz porque não faço política, não tenho nada a ver com isso. Nunca me envolvi na política, se era boa, se era ruim. Eu sei que eu chegava, era bem recebido, com todo respeito, toda consideração, e o futebol lá sempre foi bem dirigido, orientado e respeitado. Isso que é o principal. E a União Soviética foi sempre um exemplo para mim, dentro de princípios e tudo.
E agora, ela (como Rússia) se apresenta para tentar realizar a Copa do Mundo de 2018. Tem Espanha e Portugal, Bélgica e Holanda, Inglaterra, enfim. Um desses será indicado. Se a Rússia tiver esta missão, fará com valor imenso pelas qualidades que tem, pela noção de responsabilidade, fará algo de muito positivo.

Essa pergunta é porque o senhor analisou, certa vez, que a União Soviética garantia um equilíbrio de poder e, agora, os EUA são a única potência. A China pode ocupar esta lacuna soviética? E qual será o papel do Brasil futuramente?
O senhor me perdoe, a sua pergunta é política, e eu não tenho por que me intrometer nisso. A China, como potência esportiva, é muito boa, os EUA também, o Brasil e também a União Soviética. Cada uma é respeitada e se apresenta da melhor maneira possível.

Quais serão as sedes das Copas de 2018 e 2022 na sua opinião?
2018 é na Europa e 2022 será na Ásia. Quem vai votar é o Comitê Executivo, não é mais o Congresso (da Fifa). Porque o Congresso é político. O Comitê Executivo é técnico, tem membros de todos os continentes, então ninguém se sente lesado, ludibriado ou afastado de qualquer coisa.

Alguma vez, desde que o senhor assumiu a presidência da Fifa, foi escolhida sede de Copa do Mundo uma candidata que não era a sua preferida?
Não. Quando cheguei em 1974, estava indicada (a Argentina para 1978), depois foram a Espanha, o México, a Itália, os EUA, a França, e eu vim para casa.

Em 1996, o senhor preferia o Japão, mas foi decidido que a Copa de 2002 seria dividida entre ele e a Coreia do Sul, não?
É que se apresentaram os dois, e eu não queria que... É meu princípio: quem preside não pode perder. Tive a impressão de que o Japão não ganharia, então fiz uma proposta e apresentei a decisão em dividindo a Copa do Mundo entre os dois. O Comitê se levantou, aplaudiu e marcaram. Foi a primeira vez, possivelmente poderá ser a última, mas não houve divisão dentro da Fifa, e acho que isso demonstra como se administra. Como um filho desta nação, acho que demonstrei equilíbrio e tranquilidade para decisões.

Neste exemplo de que o presidente não pode perder, o senhor confirma a preferência pelo Japão. As outras sedes vitoriosas também eram suas prediletas?
Não teve problema porque a maioria do Comitê Executivo era a favor, então não havia o que discutir.

Quais são os maiores riscos e dificuldades para o Brasil organizar a Copa em 2014?
O que o governo tem que ter em sua responsabilidade é, primeiro, verificar todos os aeroportos. São 12 cidades. Isto é uma obrigatoriedade, hoje dia, porque o País é imenso. Na Alemanha, o senhor vai de trem, vai de automóvel, não tem dificuldade alguma. Mas aqui, não. O senhor não pode ir daqui a Manaus de trem ou de automóvel, tem que ir de avião. Então, os aeroportos têm que estar em condições. A parte de segurança tem que estar muito bem organizada, hotelaria, a parte de hospitais para qualquer eventualidade. Mas nisso o Brasil sempre demonstrou resultados positivos e tem instalações de tudo para nada faltar.

Quais são os grandes benefícios que justificam a realização da Copa do Mundo e da Olimpíada no Brasil?
Primeiro, durante sete anos, o mundo fala do Brasil por causa da Copa do Mundo de 2014. Vou lhe dar um exemplo que vai definir sua pergunta. A Copa do Mundo de 1998 foi na França, (a escolha) foi decidida em 1992, quando normalmente iam a Paris 60 milhões de turistas. Se cada um gastar mil dólares (no país), são 60 bilhões de dólares. Depois da Copa do Mundo de 98, a França recebeu, nos anos seguintes, 70 milhões de turistas (anuais). Então foi o presente que o futebol deu à França: 10 milhões de pessoas. Portanto, a cada ano, 10 bilhões de dólares. Aqui, não virão 10 milhões de pessoas. Mas, hoje vêm um milhão ou dois milhões, e podem vir 5 milhões e isso seria de uma profundidade e de um valor inestimáveis para nossa nação.

O senhor afirma que não faz política, mas, ao longo dessas décadas, teve contato com quase todos os governos do planeta. E há os casos do afastamento da África do Sul devido ao apartheid e a reintegração da China após sua posse na Fifa. Nessas questões, lida-se com política...
Não. Eu apenas ia como presidente de uma entidade, não entrei em política. Na primeira vez que fui à China, no dia 4 de maio de 1975, fui recebido pelo presidente da federação (nacional de futebol), ainda era o tempo de Mao Tsé-Tung, um regime duro, difícil. Levamos cinco anos para encontrar a forma e trazer a China. Eu, nestes cinco anos, ia três, quatro vezes à China, para debater. Ninguém faz isso, ninguém tem esta paciência. Não fiz isso por política nem por nada porque não faço política, era o desejo de ter a nação mais populosa do mundo de volta ao futebol porque havia 25 anos que eles haviam se retirado, com o reconhecimento de Taipé. Hoje em dia, a China esportivamente é um valor.
Como é a União Soviética. Em 1985, houve um campeonato mundial de (atletas com até) 20 anos, a União Soviética havia pedido, eu dei, e ela não queria fazer porque a competição era (da marca) Fifa Coca-Cola, e ela não receberia a Coca-Cola. Eu digo: "Então, não tem competição". Depois mandaram dizer que ia ter. Tivemos a competição, foi um sucesso, e hoje a Coca-Cola, com a Adidas, é o patrocinador mais antigo que temos. Tem sido fantástico, e hoje a Coca-Cola está na China, na Rússia e nos países árabes, que diziam que ela era de judeus. Eu não tenho nada a ver com isso, sou católico e guardo a minha religião para mim. Vou a qualquer religião, a qualquer convite porque respeito. E quem não tiver esta possibilidade não deve aceitar o cargo (de presidente da Fifa).
Hoje em dia, veja o poder, a Coca-Cola vai completar 50 anos na Fifa. O senhor nunca viu um patrocinador ficar tanto tempo. Ou o futebol é muito bom, ou também a Coca-Cola é muito boa, como é a Adidas.

O senhor acabou de dizer que guarda para si sua religião, e isso é realmente uma instrução da Fifa. Mas a seleção brasileira vem sendo a que mais se manifesta religiosamente, como na final da Copa das Confederações de 2009. Como o senhor vê isso e que providências devem ser tomadas?
Bom, eu sou católico. Pra mim... Eu respeito, se eu tiver que ir a uma sinagoga, eu vou. Se tiver que ir a um templo muçulmano, não deixo de ir, como já fui a muitos. E acho que a gente tem é que respeitar os princípios de cada um. Não me cabe analisar nem definir, me cabe, sim, respeitar.

 

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