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Terça, 30 de março de 2010, 15h24 Atualizada às 15h58

Um evento 'lamentável' a leste de Jerusalém

Noam Chomsky
Do The New York Times

Mais uma vez o ponto de ignição é Jerusalém Oriental, tomada por Israel na guerra de 1967 - desta vez, a questão gira em torno de um condomínio de 1.600 apartamentos na vizinhança de Ramat Shlomo. E mais uma vez o resultado foi a morte de palestinos por israelenses.

No dia 9 de março, o Ministro do Interior de Israel anunciou um novo projeto durante a visita do vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph R. Biden, a terras israelenses. O Presidente Barack Obama havia pedido que fosse refreada a expansão de assentamentos em território ocupado.

A reação foi intensa e imediata. O Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pediu desculpas publicamente pela 'lamentável' ocasião, mas insistiu que Israel poderia construir livremente em Jerusalém Oriental e em outros pontos dos territórios que deseja anexar.

Biden teve uma conversa fechada com Netanyahu, invocando as preocupações das forças armadas norte-americanas com o fracasso em resolver a questão do conflito entre Israel e Palestina, segundo relata a imprensa Israelense.

"O que você está fazendo prejudica a segurança de nossas tropas que estão no Iraque, Afeganistão e Paquistão", teria dito Biden a Netanyahu. "Isso é uma ameaça para nós e para a paz na região."

No dia 16 de março, o general David H. Petraeus, chefe do Comando Central americano, levantou essas preocupações para o Comitê das Forças Armadas no Senado: "O conflito fomenta o sentimento antiamericano, pois suscita um suposto favoritismo a Israel."

Uma semana mais tarde, Netanyahu e Obama encontraram-se na Casa Branca para uma conversa mais tarde denominada de "litigiosa".

Netanyahu mantém uma posição firme com relação aos assentamentos. E ele não faz questão de reconhecer a viabilidade de um estado palestino. Essa intransigência afeta de forma negativa a credibilidade dos Estados Unidos.

Ocorreu um contratempo parecido, há 20 anos, também envolvendo os assentamentos, que levou o então presidente George H.W. Bush a impor sanções limitadas a Israel, em resposta ao comportamento petulante e insultuoso do Primeiro Ministro Yitzhak Shamir, que foi rapidamente substituído. A questão continua se a administração Obama está disposta a tomar medidas, mesmo que mais abrandadas, como fez Bush pai.

A situação agora é mais séria. Com Israel, os setores ultranacionalistas e religiosos emergem com uma perspectiva estreita e limitada. E as forças armadas dos EUA têm no histórico algumas guerras pouco populares na região.

Em maio passado, em Washington, Obama encontrou-se com Netanyahu e Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina. Os encontros, juntamente com o discurso de Obama no Cairo em junho, foram interpretados como um divisor de águas para a política norte-americana com relação ao Oriente Médio.

Se olharmos mais de perto, há algumas reservas.

A interação entre os EUA e Israel - com Abbas deixado de lado - gerou duas expressões: "Estado palestino" e "crescimento natural de assentamentos." Vamos atentar a elas individualmente.

Obama, não há dúvidas, pronunciou as palavras "estado palestino", ecoando o discurso do presidente George W. Bush. Em contraste, a plataforma (não revisada) de 1999 do partido de situação em Israel, o Likud de Netanyahu, "rejeita ostensivamente o estado árabe palestino a oeste do rio Jordão".

É importante também lembrar que o governo de Netanyahu em 1996 foi o primeiro em Israel a utilizar a expressão "estado palestino". O governo concordara que os palestinos tinham o direito de chamar de "estado" os fragmentos da Palestina que lhes sobraram se assim desejassem - ou poderiam chamar também de "frango frito".

Em maio passado, a posição de Washington fora apresentada de forma mais impositiva com a declaração da Secretária de Estado, Hillary Clinton, rejeitando as "expectativas de crescimento natural" para a política oficial americana que se opunha à criação de novos assentamentos.

Netanyahu e quase todos os políticos israelenses insistem em permitir o dito "crescimento natural", reclamando que os Estados Unidos não estão honrando a palavra de Bush que autorizou essa expansão, dentro da sua "visão" do estado palestino.

A formulação Obama-Clinton não é novidade. Ela repete o discurso do Guia Bush para o Estado Palestino, estipulando que, na Fase I, Israel "deve cessar toda a atividade de assentamentos, em concordância com o relatório do ex-senador George J. Mitchell, incluindo o crescimento natural de assentamentos".

No Cairo, Obama manteve seu estilo "tabula rasa" - com pouca substância, mas apresentado de forma atraente que permite aos ouvintes preencher as lacunas com as informações de sua preferência.

Obama reverberou a "visão" de Bush de uma estado palestino, sem dizer explicitamente sua opinião.

Obama declarou: "Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade da multiplicação contínua dos assentamentos israelenses". As palavras mais importantes da declaração são "legitimidade" e "contínua".

Por omissão, Obama indicou que aceita a "visão" de Bush. Os numerosos projetos israelenses de assentamento e infraestrutura na Cisjordânia são implicitamente "legítimos", reafirmando que a expressão "estado palestino", no que tange as sobras de território, significa mesmo "frango frito".

Em novembro último, Netanyahu decretou uma suspensão de 10 meses na nova construção, com muitas isenções e excluindo completamente a Grande Jerusalém, onde a desapropriação das áreas árabes e a construção de assentamentos judaicos, como o projeto Rabat Shlomo, continuem a largos passos.

Esses projetos são duplamente ilegais: Como os assentamentos, eles violam a lei internacional - e, em Jerusalém, as resoluções do Conselho de Segurança específico.

Em Jerusalém na época, Hillary Clinton parabenizou as concessões "sem precedentes" de Netanyahu para a construção (ilegal), gerando uma onda de raiva e zombaria por grande parte do mundo.

A administração Obama defende a "reconceitualização" do conflito no Oriente Médio, articulada mais claramente em março último pelo membro do Comitê de Relações Estrangeiras do Senado, John Kerry.

Israel deve ser integrado aos estados árabes "moderados", aliados dos Estados Unidos, confrontando o Irã e fornecendo meios para a dominação dos EUA nas regiões férteis em produção de energia vital. Com esse modelo, é possível que alguns assentamentos do eixo Israel-Palestina possam ser acomodados.

Enquanto isso, as relações entre os Estados Unidos e Israel se aprofundam. A cooperação próxima da inteligência dos dois países já dura meio século.

As parceiras tecnológicas entre os EUA e Israel nunca estiveram melhores. A Intel, por exemplo, vai adicionar uma instalação gigantesca à fábrica de Kiryat Gat para implementar uma redução revolucionária ao tamanho dos chips que fabrica.

Os laços entre a indústria militar americana e israelense continuam especialmente próximos, tanto que Israel está mudando suas instalações de desenvolvimento e produção para os Estados Unidos onde o acesso à ajuda militar americana e aos mercados é facilitada. Israel também vislumbra a possibilidade de transferir a produção de veículos blindados para os Estados Unidos, apesar dos protestos de milhares de trabalhadores israelenses que perderão seus empregos.

As relações também beneficiam os produtores militares norte-americanos - duplamente, porque os fornecedores norte-americanos de armas financiadas pelo governo americano e enviadas a Israel, que já são por si só muito lucrativas, também funcionam como "propaganda" para induzir as ditaduras árabes ricas (as chamadas "moderadas") a comprar grandes quantidades de equipamento militar menos sofisticado.

Israel também continua a fornecer aos EUA uma base militar localizada estrategicamente para o pré-posicionamento de armas e outras funções - mais recentemente, em janeiro, quando o exército norte-americano aumentou para "o dobro do valor de equipamento militar de emergência que mantém estocado em solo israelense", chegando a US$ 800 milhões.

"Mísseis, veículos blindados, munição aérea e armamentos em geral já são armazenados no país", relata a publicação Defense News.

Esses são alguns dos vantajosos serviços que Israel tem oferecido às forças armadas dos EUA e o domínio global, bem como para a economia de alta tecnologia dos Estados Unidos.

Eles dão certa tolerância para que Israel desafie algumas ordens de Washington - apesar de que Israel estaria correndo um sério risco se abusasse da sorte, como mostra a história. A arrogância de Ramat Shlomo certamente provocou quem não deveria.

Israel só poder ir até onde os EUA permitirem. Os Estados Unidos foram por muito tempo um participante direto até dos crimes israelenses que tanto condena - com algumas reservas, claro. O que não sabemos ainda é se essa farsa vai continuar.


Noam Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, Massachusetts. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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